A sorte do Brasil é que seu grande líder é um gênio pacifista

Armando Coelho Neto em 20/8/2018

Em recente pesquisa, o IBGE divulgou os seguintes dados: no Brasil do golpe, os desempregados já somam treze milhões. Mais de quatro milhões desse universo se compõe de jovens entre 18 e 24 anos. Já falta trabalho para nada menos que um quarto dos brasileiros em idade de trabalhar. Para uma população extremamente carente, as notícias ruins não param de chegar: cortes em programas sociais como o “Minha Casa, Minha Vida” e “Farmácia Popular”, neutralização de direitos sociais, destruição da estrutura de financiamento dos sindicatos, acesso dificultado à Justiça do Trabalho. Se na economia, o humilde não tem vez, melhor sorte não assiste ao povo brasileiro no âmbito da política (que passou a incluir os tribunais).

O impeachment foi farsa, o processo, condenação e prisão do ex-presidente Lula são farsas e, como corolário natural dessa anomalia, a esperada eleição é uma farsa. É tudo parte daquilo que na Ciência do Direito trata por iter criminis. Esclarecendo: o conjunto de atos praticado por criminosos para atingir o ato final – consumação e exaurimento de um delito. Também no direito, a participação de várias pessoas com ações específicas que concorrem para o crime e seu resultado recebe o nome de quadrilha. Na legislação específica recebe o nome de Crime Organizado.

Já o disse neste espaço que o país esteve e está aparelhado ao contrário, não pela esquerda como diziam. A máquina oficial é instrumentalizada para tornar o que é público em privado. Por essa razão, a presidenta Dilma Rousseff tinha que ser derrubada e Lula ser preso. Presumo a existências de pessoas bem-intencionadas no aparelho estatal e que existam pessoas errando tentando acertar, seja na Polícia Federal ou outros órgãos. Conheço gente de bem (não de bens) que por ignorância ou boa-fé, ajudaram no golpe. Em cada braço oficial do Estado havia e há um ou mais delinquentes agindo para assegurar o crime. São braços do crime dentro da PF, RF, MPF, JF, STF, Exército etc. para garantir os interesses das elites. Afinal, o fantasma do comunismo precisa ser combatido, nem que isso custe a miséria do brasileiro e a perda da soberania.

Obviamente, o mercado e suas vozes midiáticas – cuja maior referência popular é a organização criminosa TV Globo, cumprem papel anestesiante na população. Como num truque de mágico, a mídia chama a atenção para a mão esquerda, enquanto a mágica se materializa com a mão direita. É um conluio de mãos.

Na consumação do crime contra o Brasil, vivemos uma farsa eleitoral. O STF (homenageado em bordel) age para manter inutilmente a aparência da legalidade, mesmo pisoteando a Constituição Federal todos os dias. Para fazer média com a comunidade internacional é preciso fingir eleição e, sobre isso, neste final de semana houve um encontro de comadres promovido pela Rede TV/IstoÉ e colaboradores. Parecia piada. Não dava pra perceber quem falava com quem. As frases feitas se destinavam ao povão, que, aliás, tinha coisa mais importante para fazer do que assistir o tal circo. As frases sofisticadas (Ciro Gomes, Alckmin, Meireles, Álvaro Dias) eram ensimesmadas e ou voltadas para mostrar “conhecimento” para jornalistas.

Para uma sociedade que pretende ser plural, faltou muito. Foi mais do mesmo se apresentando como novo. As mesmas faces da elite tentando mostrar picuinhas circunstanciais, na base da generalidade em 30, 45 segundo. À exceção de Boulos, as várias faces de uma sociedade falida: Marina Silva, a lesma verde, a serviço da elite para criar 2º turno em eleições. O bolsopata e seu congênere Cabo Fulano de Tal eram duas pessoas numa só. Alckmin, o gigolô de obras alheias, tentava se descolar do golpe e minimizar sua aliança com a gangue do centrão. Mas, trocou figurinha com Ciro Gomes (o menos asqueroso) que, sem espaço, não conseguia dizer a que veio, exceto vomitar números incompreensíveis pelo grande público. Álvaro Dias (do partido Farsa Jato) era o símbolo do leprosário curitibano, tentando encarnar seu pretenso futuro ministro da Justiça Sejumoro.

Mas, lá esteve a cadeira vazia do Lula, logo retirada por ordem do bolsopata, sob protestos de Boulos. A ausência de Lula virou símbolo de indiferença do Brasil à Organização das Nações Unidas, que recomenda respeito aos direitos do candidato sequestrado. Se o STF não cumpre a Constituição Federal – que é taxativa, impositiva, irretorquível e inexorável, por que atenderia uma recomendação civilizada da ONU? Para as duas primeiras damas, a do bordel supremo e a da Fogueira da Inquisição, seguir a ONU é se apequenar. A ONU vê prejuízo iminente e irreparável e já deu sua liminar. Mas, no Brasil de juizecos, delegadinhos, desembargadores e ministros medíocres, vigem os embargos de conluio auriculares. Numa republiqueta na qual telefonemas presidenciais são ilegalmente divulgados, as coisas se decidem por telefonema, até por juiz fora do ofício.

O debate da Rede TV aconteceu num país no qual as instituições, em conluio, içaram ao poder uma quadrilha e com ela convive. Mas, para meu colega delegado da PF que subia em palanque pró-golpe, contra a corrupção, “o pior já passou” (Ah, tá!). O crime organizado no Brasil cansou de brincar de democracia, tomou o poder na mão grande e não vai devolver no voto. Vai ter fraude dentro da fraude para garantir a desgraça do povão e a venda do Brasil na bacia das almas.

O tal debate, símbolo da mediocridade e da farsa democrática é prova inconteste de que tudo foi mexido para ficar como está: com o crime organizado no poder. Para tanto é preciso demonizar o PT e ter um preso político – com ficha suja fabricada (Lula). Retrato de um Brasil do judiciário corrupto e Forças Armadas covardes – que batem continência para um canalha.

Os pequenos avanços do Brasil sucumbiram. O golpe substituiu a tênue e incipiente tentativa de crescimento econômico com justiça social; idem a democracia. Aliás, um golpe malfeito e malconduzido, que já virou fiasco e piada mundial, desastre econômico e institucional. Em meio a esse caos nutrido pelo desejo de vingança social perpetrada pela “elite do atraso” contra a maioria do povo brasileiro – ao qual não se reservam senão cortes em direitos sociais, violência estatal e cassação de sua intenção eleitoral – pergunta-se: por que esse caldeirão ainda não explodiu? Por que o crime contra a pátria segue a todo vapor? Por que ainda não estourou a baderna ou não começou a revolução?

A resposta veio por meio de um delegado da própria PF. De forma triste e reticente ele respondeu: “veterano… A sorte de nossa elite do atraso e do Brasil é que o maior líder deste país é um gênio pacifista…

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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