“Estamos morrendo e o senhor não faz nada”, dizem ciclistas a secretário de Covas

Manifestantes realizaram um ato simbólico de “funeral” das ciclovias da cidade.

Secretário municipal de Mobilidade e Transportes João Octaviano Machado Neto esteve com ciclistas para debater o Plano Cicloviário. “Quem pedala vê o abandono das ciclovias”, afirma ativista

Gabriel Valery, via RBA em 15/8/2018

O secretário municipal de Mobilidade e Transportes de São Paulo, João Octaviano Machado Neto, esteve na noite de ontem [14/8] em reunião da Câmara Temática da Bicicleta (CTB). Octaviano frustrou os ciclistas pelo breve tempo disponível. Após informar o falecimento de um familiar, o secretário repetiu a descrição do Plano Cicloviário apresentado no início do mês e deu pouca margem para debate. Ironicamente, do lado de fora, manifestantes realizaram um ato simbólico de “funeral” das ciclovias da cidade que sofrem com a precarização.

A reunião, realizada na sede do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (Seesp), foi conduzida pelo secretário da CTB, Sasha Tom Hart. Ele criticou a posição do secretário, que disse não ter pressa para trabalhar com o tema das ciclovias. “Por outro lado, nós, ciclistas, temos pressa. Mais do que o plano, temos uma situação muito complicada que, nas ruas, quem pedala vê o abandono das ciclovias e também a retirada, sim, de algumas ciclovias”, afirmou.

Hart pediu o compromisso do secretário em dois pontos. “No dia 3 de setembro, reitero o convite para que o senhor esteja presente na nossa próxima reunião. Tem pessoas morrendo […] Em segundo lugar, em 17 reuniões da CTB, sempre pedimos para ver os estudos da prefeitura. Os técnicos sempre falam, de boca cheia, que não podem compartilhar, pedimos via Lei de Acesso à Informação para conseguir ver alguns. Então, pedimos para ver os estudos para discutir”.

Octaviano respondeu que, na próxima reunião, comparecerá alguém representando a secretaria, mas não garantiu sua presença. “Não é questão de sim ou não”, disse, sobre se aceitaria os compromissos. “Não vou responder o que acham que tenho que responder ou que querem que eu responda. Vou responder o que tenho e não o que vocês querem”, disse.

Neste ponto, os ativistas se levantaram contra o secretário. “Estamos morrendo e o senhor não faz nada. Essa é a marca da sua gestão”, disse um ciclista. Em resposta, Octaviano disparou: “Essa é a sua opinião. Estamos na democracia e você fala o que quiser”.

Para o especialista em Mobilidade Urbana do Instituto brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) Rafael Calabria, o discurso de Octaviano não é convincente. “Meu ponto é: por que as ciclovias que já existem não constam no plano?”, questionou. “Não podemos discutir a partir do que já temos? Ele apagou tudo, ignorou o que já existe e já surte efeito na cidade. O secretário defende tanto a CET, mas quando critica a malha existente, esquece que quem a implementou foi a equipe técnica da CET com estudos antiquíssimos. Esse discurso não cabe mais. Ele joga contra a pauta e aumenta a agressividade contra os ciclistas”, completou. Octaviano, antes de ocupar a secretaria, foi presidente da CET desde o início da gestão do ex-prefeito João Dória (PSDB).

Outro ponto de discordância é se os projetos atuais respeitarão o Plano Nacional de Mobilidade Urbana. O estranhamento é em razão das propostas de ciclorrotas, que extinguem as faixas exclusivas de ciclistas e os posicionam entre os carros, apenas com sinalizações de solo. O arquiteto e ciclista Felipe Coelho levantou o questionamento. “O secretário vai contra a Política Nacional de Mobilidade Urbana. Ele fala sobre uma lógica volumétrica. Na lógica dele, em cidades onde não tem malha cicloviária, não devem ter ciclovias. Temos estudos dos casos de sucesso de indução do aumento no número de ciclistas pela implantação da malha cicloviária”, observou. “Ele falou toda hora no conceito de plano cicloviário que está sendo colocado, mas me parece o inverso. Fala que ciclorrota é malha cicloviária, poderia ser, mas o que temos não é exemplo. Não temos sinalização.”

Em nota, a secretaria afirma que trabalha em uma agenda para debater o tema com os ciclistas e que vem promovendo ações de combate à violência no trânsito. Confira a íntegra:

A Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes esclarece que a atual gestão municipal implantou medidas voltadas à redução de acidentes e proteção à vida. Como resultado, houve uma queda de 53,3% no número de mortes de ciclistas em São Paulo. Foram sete óbitos de janeiro a maio deste ano, ante 15 ocorrências fatais no mesmo período de 2017. No total da cidade, o número de mortes no trânsito caiu 9,3% – de 354 entre janeiro e maio de 2017 para 321 no mesmo período de 2018.

Durante a reunião desta terça-feira (14), tanto o secretário João Octaviano quanto a superintendente de planejamento e projetos da CET, Elisabete França, convidaram os ciclistas para novos encontros para terem acesso a materiais e fazer reuniões de trabalho com as equipes da pasta.

Importante esclarecer que as ciclovias já existentes fazem parte da proposta de plano cicloviário apresentada no início do mês. Todas elas serão discutidas com a população, inclusive em audiências públicas nas 32 Prefeituras Regionais. A implantação das ciclorrotas será acompanhada de medidas de acalmamento de tráfego, garantindo a segurança de quem pedala, e nenhuma ciclovia existente será substituída sem que seja apresentada uma alternativa para o tráfego seguro de bicicletas.

Ressalte-se ainda que, mesmo com um falecimento na família, o secretário não desmarcou a reunião, em respeito aos ciclistas e ao debate da proposta.

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