Ao justificar calote, novo presidente da Abril mostra que empresa é inviável

Via Brasil 247 em 16/8/2018

O executivo Marcos Haaland, especializado em gestão de empresas quebradas, novo presidente-executivo do Grupo Abril, revela numa entrevista franca à revista Veja como a estrutura empresarial e conceitual da editora quebrou o grupo. Haaland deixa escapar que a empresa ainda pode “sangrar” no próprio processo de recuperação. Os números são dramáticos. A dívida da empresa é ainda maior que os R$1,6 bilhão que entraram na recuperação judicial anunciada ontem, o prejuízo do grupo é superior a R$300 milhões, 800 pessoas foram demitidas e as receitas de publicidade caíram de R$1,4 bilhão para R$1 bilhão em quatro anos. Ele confessa também que o modelo de empresas baseado em publicações impressas está condenado à morte.

Segundo o executivo, o modelo de negócio das empresas de comunicação impressa sofreu uma queda expressiva das receitas de publicidade e daquelas provenientes das vendas de assinaturas e de venda em bancas. Alguns números mostram como foi rápida e dramática a mudança de situação. Do total de investimentos em publicidade das grandes empresas em 2010, uma fatia de 8,4% era dirigida para revistas. Essa participação caiu para 3% em 2017. O número de pontos de venda de mídia impressa, como as bancas, diminuiu de 24 mil para 15 mil de 2014 a 2017. A circulação de revistas, no mesmo período, baixou de 444 milhões de exemplares por ano para 217 milhões. E a venda de assinaturas recuou 60%, de 90 milhões para 38 milhões, enquanto a venda de exemplares avulsos se reduziu quase a um terço do que foi de 173 milhões para 63 milhões.

A Editora Abril, um dos maiores grupos de comunicação do Brasil, que obteve um crescimento considerável durante o regime militar, decidiu entrar com um pedido de recuperação judicial nesta quarta-feira, 15 de agosto. O valor preliminar das dívidas do grupo de comunicação é de R$1,6 bilhão, mas esse montante pode ser muito maior, devido a manobras e “pedaladas” financeiras.

Haaland, que também é sócio da consultoria Alvarez & Marsal, deu uma entrevista – que já nasce polêmica – ao veículo carro-chefe da empresa, a revista Veja. Ele revela um sem número de inconsistências no formato empresarial da empresa falimentar e comete sincericídio ao detalhar as falhas estruturais da editora.

Haaland também detalha o montante da perda de receitas da Abril nos últimos anos: “na Abril Comunicações, a receita total caiu de R$1,4 bilhão há quatro anos para R$1 bilhão no ano passado, uma queda causada principalmente pela redução da publicidade.

Com resultados ruins já há algum tempo, o nível de endividamento da empresa ficou elevado. O patrimônio líquido se tornou negativo, e operacionalmente passou a consumir o caixa. Esse déficit de caixa tem sido coberto com aportes dos acionistas e represamento de pagamentos a fornecedores, uma situação que não é sustentável. Mas, o que é muito importante, tivemos um evento que precipitou a entrada com o pedido da recuperação judicial: de uma forma abrupta, os bancos decidiram restringir o acesso da Abril a capital de giro.” Ele informa que faturamento do grupo ficou perto de R$1 bilhão líquidos, com prejuízo acima de 300 milhões em 2017.

O executivo responsável por conduzir o processo de recuperação judicial ainda revela que o prejuízo pode ser ainda muito maior que o R$1,6 bilhão declarado no documento de recuperação: “É da ordem de R$1,6 bilhão o total das dívidas submetidas à recuperação judicial. É um mecanismo legal que suspende durante um tempo a execução de dívidas e, com isso, dá um fôlego para a empresa buscar meios de se recuperar financeiramente”. Ele emenda – sobre se todas as dívidas estão inclusas no processo: “não. Há algumas dívidas que não são submetidas à RJ porque têm algum tipo de garantia específica, principalmente a alienação fiduciária. Essas dívidas têm de ser negociadas fora da RJ”.

Sobre as demissões, Haaland comenta: “foram demitidas cerca de 800 pessoas, somando os cortes de todas as empresas, e foram feitas outras reduções de despesas operacionais, para a busca do equilíbrio da operação.”

No quesito tecnologia, o executivo deixa escapar que o Grupo Abril se tornou uma estrutura obsoleta: “a reestruturação continua porque a empresa está passando por um momento de readequação e esse não é um fato isolado da Abril. É algo que está ocorrendo no setor de comunicação no Brasil e no mundo. Notícias de readequação desse setor saem com frequência. Então, a reestruturação da Abril continuará até a gente desenhar um novo modelo operacional levando em conta como o mundo digital afeta a empresa. Não temos previsão de novos cortes e sim de um redesenho da companhia para os desafios tecnológicos.”

E acrescenta, justificando os equívocos do passado e do presente: “eu não posso julgar o passado, até porque eu não estava aqui. Mas há uma mudança tecnológica que está afetando o setor como um todo, que trouxe uma crise e uma necessidade de pensar como é produzido e distribuído um conteúdo de qualidade. Isso está se passando no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa. É problema estrutural de todo o setor de comunicação e precisamos pensar em como nos adaptar aos novos tempos. Alguns que começaram mais cedo a se mover já estão mais adaptados, caso do jornal norte-americano The New York Times. A Abril está buscando essa adequação e um novo modelo para se revigorar. Vamos sair da recuperação judicial quanto antes, com a empresa novamente saneada e em condições de ter um longo futuro digital.”

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