Qual o impacto para o eleitor de Bolsonaro de mais uma revelação de sua desonestidade?

Luis Felipe Miguel em 14/8/2018

No debate da Band, Guilherme Boulos questionou Bolsonaro sobre a funcionária fantasma de seu gabinete, paga com dinheiro público para cuidar de uma de suas casas de veraneio.

Bolsonaro foi perfeito na resposta. Disse que a denúncia já havia sido desacreditada. Acertou o tom entre ficar indignado e não dar maior importância à acusação. Esnobou Boulos. Saiu por cima.

A reportagem da Folha foi a Angra dos Reis e encontrou dona Walderice. Sem saber que esteja conversando com jornalistas, ela falou do debate e, em relação à funcionária fantasma de Bolsonaro, afirmou candidamente: “Sou eu”.

Ao saber do que acontecera, Bolsonaro demitiu a funcionária. Contou uma história sem pé nem cabeça – “o crime dela é dar água pro cachorro” – e deu a entender que, por causa de Boulos, uma pobre mulher tinha ficado sem emprego.

Em suma: flagrado mentindo, construiu mais e mais mentiras.

Qual o impacto, no eleitor dele, de mais essa revelação de sua desonestidade e falta de caráter? Arrisco dizer: nenhum. Olhei algumas páginas bolsonaristas e o silêncio sobre o tema é absoluto. Quando necessário, falam de armação da mídia comunista.

Eficaz para seu público cativo, esta estratégia revela o limite de sua candidatura. Jair Bolsonaro trabalha para manter sua base de radicais de direita fanatizados, os espantosos 17% ou 18% que há tempos ele pontua em todas as pesquisas. Mas não consegue fazer movimentos que ampliem sua base.

A passagem de Bolsonaro para o 2º turno depende da pulverização dos votos da direita. Mas o próprio risco de que isso ocorre pode levar a um movimento de confluência, com a migração dos votos da Marina e dos outros para Alckmin.

Chegando ao 2º turno, porém, Alckmin se verá constrangido a cortejar Bolsonaro, para garantir o apoio de seus muitos eleitores. O fato é que os artífices do golpe estimularam o crescimento da ultradireita por julgá-la instrumental para seus propósitos. Mas ela adquiriu tal volume que exerce forte atração gravitacional, atraindo todo o campo conservador para o extremo e esvaziando o espaço da centro-direita.

Luis Felipe Miguel é professor de ciência política na UnB.

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