A maldição do tempo

Paraisópolis e Morumbi.

Sergio Saraiva em 9/8/2018

A divisão entre pobres e ricos, no Brasil, não é necessariamente espacial. Por vezes, pobres e ricos dividem o mesmo espaço físico, separados apenas pelas necessárias “medidas de segurança”. Às vezes, apenas um muro.

A divisão entre pobres e ricos, no Brasil, se dá por uma ruptura no tempo em que cada uma dessas classes econômicas vive.

Vou tomar uma carona nos cálculos do colega Sakamoto, para desenvolver essa ideia que trago comigo há algum tempo:

“Considerando que o salário mínimo previsto para 2019 é de R$998,00 (frente aos R$954,00 de hoje), a remuneração dos ministros do STF, com o aumento de R$33.763,00 para R$39.293,38, passa de 35 para 39 salários mínimos por mês”.

Isso significa que o que um ministro do Supremo, ou qualquer pessoa com a mesma renda, ganhará em um mês alguém que receba salário mínimo demoraria 3 anos e 3 meses para acumular. Sem considerar os “auxílios-moradias” de vários formatos e estilos que os mais ricos recebem e os pobres não. Vivemos em um país invertido.

Assim, o espaço de tempo entre janeiro e dezembro os colocaria, em termos financeiros, quase 4 décadas – 39 anos – distantes um do outro. Em uma década, seriam 4 séculos.

A partir de 2019, um pobre, quando chegasse ao ano de 2028, se olhasse pelo buraco da fechadura da sua carteira, não poderia enxergar um rico que tenha feito a mesma viagem no tempo. Este último estaria em 2428, em relação a ele.

Não espante, portanto, a insensibilidade com que, por aqui, os ricos tratam os pobres. Para eles, tratam-se de pessoas do século 17, quando ainda havia escravidão no Brasil.

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