O general Mourão, vice de Bolsonaro, já ouviu falar em Guararapes?

Fernando Brito, via Tijolaço em 6/8/2018

Existe, para o Exército brasileiro, um momento-símbolo de formação da nacionalidade, para a historiografia militar o símbolo da ideia do Brasil como país.

É a Batalha dos Guararapes, onde os brancos portugueses, ao lado dos índios liderados por Felipe Camarão, e das tropas negras de Henrique Dias. Pela direita, os indígenas, pela esquerda, os negros, as tropas holandesas foram flanqueadas e espremidas para que as tropas comandadas pelos portugueses João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros pudessem fazer o seu ataque decisivo.

Não consta que Felipe Camarão tenha sido “indolente” ou que Henrique Dias tenha sido “malandro”, como o senhor Hamilton Mourão disse hoje, em Porto Alegre, ao referir-se às características de índios e de negros.

Nem mesmo creio que Mourão, que afirmou sua descendência indígena tenha se expressado com ódio, mas é claro que foi com preconceito e, pior, preconceito dos mais burros, coisa que há cem anos, quase, já se desmontou como suposto fatalismo antropológico.

Basta perguntar – eles que tanto gostam de gritar Selva! nos seus eventos militares – se sobreviver na mata, sem os recursos tecnológicos que há hoje, é algo para indolentes.

Ou se trabalhar de sol a sol – e que sol! – numa lavoura açucareira é para “malandros”.

Nem mesmo a “democratização do preconceito” feita por Mourão é procedente, quando ele diz que a cultura do “privilégio” é uma herança ibérica. Sim, vieram os nobres, os senhores, os favorecidos, mas estes foram uma ínfima maioria em meio à massa de portugueses e espanhóis pobres que aportaram por estas bandas apenas querendo formas de alimentar os seus.

A razão desta ideia de indolência e de malandragem vinha exatamente da opressão: quem é que vai aplicar-se espontaneamente no trabalho que dá tudo ao colonizador e nada ao colonizado, senão chibata e pobreza?

Vai mal, assim o pessoal do trem-fantasma, fornecendo munição para apanhar na imprensa, que está louca por desidratá-los em favor de Alckmin.

Ainda mais porque o capitão a quem segue o general já andou falando coisas muito mais agressivas, querendo abolir territórios indígenas e extinguir áreas quilombolas, aqueles que, segundo Bolsonaro, pesam mais de “sete arrobas” e “nem para reprodutores servem”.

O problema nem é “queimar” Bolsonaro, mas ao Exército que, entre as instituições nacionais, sempre foi a que mais se abriu para brasileiros de todas as origens.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: