Qual a lógica dos microcandidatos que disputam o Planalto?

Levy Fidelix e José Maria Eymael devem disputar mais uma eleição em 2018.

PSDC anunciou que Eymael será seu nome para concorrer à Presidência – pela quinta vez. Já o PRTB deve, novamente, anunciar Levy Fidelix.

Ricardo Chapola, via Nexo Jornal em 3/7/2018

De quatro em quatro anos, o brasileiro vai às urnas para votar para presidente da República. Os postulantes ao comando do país costumam variar de uma eleição para outra, mas dois deles são recorrentes nas corridas presidenciais mais recentes: José Maria Eymael (PSDC) e Levy Fidelix (PRTB).

Presidentes de partidos pequenos e com pouca ou nenhuma representatividade na Câmara dos Deputados, os dois políticos não constroem candidaturas competitivas. Têm pouca ou nenhuma experiência no poder público. E passaram longe de ir para o 2º turno quando disputaram o Palácio do Planalto, marcando sua passagem pela campanha mais por episódios anedóticos do que pelas ideias que representam.

Em 2018, os dois devem concorrer à Presidência mais uma vez. O prazo final para o registro das candidaturas é 15 de agosto, e a campanha oficial começa no dia seguinte. O 1º turno das eleições está marcado para 7 de outubro. Já o segundo, se houver, para o dia 28 do mesmo mês.

“EY, EY, EYMAEL”
O PSDC confirmou no sábado [28/7] o nome de José Maria Eymael para concorrer à Presidência nas eleições de 2018. Será a quinta vez que Eymael disputa o cargo desde 1998. Com campanhas esvaziadas de propostas, Eymael não atingiu nem 1% dos votos nas eleições de 2014, na disputa mais recente.

As participações
1998
– Disputou a Presidência e terminou em 9º lugar, com 0,25 (171.831 votos), numa eleição vencida por Fernando Henrique Cardoso ainda no 1º turno.

2006 – Disputou a Presidência e terminou em 6º lugar, com 0,07% (63.294 votos), numa eleição vencida por Luiz Inácio Lula da Silva no 2º turno.

2010 – Disputou a Presidência e terminou em 5º lugar, com 0,09% (89.350 votos), numa eleição vencida por Dilma Rousseff no 2º turno.

2014 – Disputou a Presidência e terminou em 9º lugar, com 0,06% (61.250 votos), numa eleição vencida por Dilma Rousseff no 2º turno.

Em 2014, o empresário gaúcho apoiou a candidatura de Aécio Neves, do PSDB, no 2º turno, quando o tucano acabou derrotado por Dilma Rousseff.

O PSDC elegeu dois deputados federais para a Câmara em 2014 e terá cerca de 14 segundos de exposição no horário eleitoral na TV e no rádio.

A popularidade de Eymael, no entanto, é inversamente proporcional ao mau desempenho nas urnas. A fama veio graças ao jingle “Ey, Ey, Eymael, um democrata cristão”, repetido à exaustão em anos eleitorais.

A música foi criada por seu alfaiate José Raimundo de Castro, em 1985. A partir daquele ano até hoje, o jingle passou a ser usado pelo candidato em todas as eleições que disputa (além de presidente, já disputou outros cargos). O que muda de uma versão para outra é apenas o ritmo em que a música é cantada.

Eymael foi deputado federal constituinte entre 1986 e 1990, quando foi reeleito para mais um mandato na Câmara. Ele é empresário nos ramos imobiliário, automotivo e de serviços.

Na disputa presidencial de 2014, declarou à Justiça Eleitoral ter mais de R$5 milhões de patrimônio pessoal, mais alto valor entre os candidatos naquele ano. Ele é presidente do PSDC desde 1995.

AEROTREM
Outra constante em anos eleitorais, Levy Fidelix, do PRTB, deve disputar a Presidência pela terceira vez em 2018, além das inúmeras tentativas que já fez, seja à Prefeitura de São Paulo, seja ao governo paulista, seja a cargos parlamentares. A convenção para oficializar a candidatura de Fidelix ao Planalto está marcada para 5 de agosto.

As participações
2010
– Disputou a Presidência e terminou em 7º lugar, com 0,06% (57.960 votos), numa eleição vencida no 2º turno por Dilma Rousseff.

2014 – Disputou a Presidência e terminou em 7º lugar, com 0,43% (446.878 votos), numa eleição vencida no 2º turno por Dilma Rousseff.

Em 2014, na mais recente tentativa, Fidelix teve um desempenho consideravelmente melhor que em pleitos anteriores. Ainda assim, não passou do sétimo lugar. No 2º turno, também apoiou Aécio.

Naquele ano, deu uma declaração homofóbica que o transformou em notícia. Disse que “aparelho excretor não reproduz”, num ataque a homossexuais proferido em um debate de TV.

Seu partido elegeu um deputado federal em 2014 e, por isso, terá cerca de 12 segundos de exposição no horário eleitoral na televisão e no rádio.

Assim como Eymael com seu jingle, Fidelix também tem uma marca registrada: o aerotrem. Trata-se de uma proposta que faz em todas as eleições que disputa.

O projeto prevê a construção de um trem suspenso capaz de, segundo Fidelix, desafogar o trânsito nas principais capitais brasileiras.

Além de presidir nacionalmente o PRTB, Fidelix é empresário. Ele é dono de uma consultoria de comunicação, cujo capital é de R$67,8 mil, segundo a Junta Comercial de São Paulo.

Em 2014, Fidelix declarou à Justiça Eleitoral ter um total de R$649.638,19 em patrimônio. Ele é presidente do PRTB desde 1994.

QUAL IDEIA ESTÁ EM JOGO
É a ideia de fragmentação partidária existente no Brasil, um país onde há 35 legendas registradas na Justiça Eleitoral, muitas delas sem conteúdo programático, que vivem do dinheiro público do fundo partidário. O Congresso impôs, a partir de 2018, uma cláusula de barreira, que exige um desempenho mínimo dos partidos na eleição a fim de que, depois, eles continuem a receber o fundo, entre outros benefícios concedidos atualmente às estruturas partidárias.

A lógica das candidaturas
Para entender qual a lógica de candidaturas como a de Eymael e Fidelix nas eleições e no sistema político brasileiro, o Nexo entrevistou dois cientistas políticos. São eles:

● Maria do Socorro Braga, professora de ciência política da UFScar;
Eduardo Viveiros, pesquisador de ciência política da PUC/SP.

Para que servem esses candidatos?
Maria do Socorro Braga
– Esse perfil de candidatura somente serve para anônimos terem algum espaço na competição partidária. E com isso conseguem visibilidade. São candidaturas sem representatividade. Verdadeiras legendas de aluguel, que não ajudam em nada ao debate.

Eduardo Viveiros – Os microcandidatos folclóricos que surgem no cenário eleitoral a cada dois ou quatro anos são um problema para a democracia, um desafio. No Brasil, funcionam como uma sucursal periférica do chamado centrão, um complemento da estratégia do fisiologismo para participar do bolo do fundo partidário e oferecer apoios, no caso dos candidatos mencionados, no 2º turno, apoio esse pago com as moedas de troca conhecidas: cargos comissionados, emendas parlamentares, verbas.

Eles têm algum valor para o debate democrático?
Maria do Socorro Braga
– Não têm nenhum valor para o debate democrático, pois normalmente defendem uma única bandeira. São fisiológicos.

Eduardo Viveiros – Esses candidatos não acrescentam muita coisa, pois suas posições políticas já estão mais ou menos claras, disseminadas entre os candidatos majoritários conservadores ou autodenominados de centro. A reforma política e as exigências de desempenho eleitoral devem diminuir, progressivamente e, no futuro, eliminar esse tipo de candidatura, que só se sustenta por conta das facilidades para se criar partidos políticos no Brasil. Por que manter os micropartidos e microcandidatos? Para apostar na dispersão dos apoios no Congresso, diminuindo o poder de barganha do Executivo? Por que não reunir esses partidos junto aos maiores (à direita e à esquerda, já que o centro no Brasil é uma ficção política) em frentes, blocos, uniões partidárias?

E o que eles ganham com isso?
Maria do Socorro Braga
– Eles ganham em alguns estados elegendo vereadores, prefeitos e também deputados. Ganham recursos dos fundos públicos.

Eduardo Viveiros – A finalidade desses microcandidatos e dos micropartidos é uma só: vender apoio político no Congresso, valorizando a figura do dono do partido junto às demais lideranças políticas (em especial aquelas dos partidos vencedores nas eleições para o Executivo), cobrando caro por uma contribuição à tal governabilidade que esse modelo ultrapassado chamado presidencialismo de coalizão (que alguns chamam de presidencialismo de cooptação) pressupõe. A sobrevivência desse tipo de organização política deveria ser condicionada à sua participação em frentes, blocos ou uniões partidárias.

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