Lula – perseguido, preso e líder nas pesquisas – é o “culpado” de quê?

Fernando Brito, via Tijolaço em 27/7/2018

Ando lendo muita bobagem de gente que deveria, pela capacidade, trajetória e por tudo o que assistiu ao longo da história, parar para pensar melhor no que diz.

Com que então Lula “é o culpado” pela falta de unidade da esquerda e pela ameaça de termos dois candidatos de direita disputando o 2° turno, por estar insistindo em sua candidatura e, com isso, impedindo o PT de ser uma força de apoio a outro nome?

Antes, para não começarem com a história de “lulopetismos”, “mortadelas” ou que tais, bem ao nível dos fanáticos de direita ou dos bobalhões da mídia que repetem estes conceitos, um esclarecimento.

Não sou petista, nunca fui – e estou longe de ser acrítico ao partido que nasceu preso a um purismo pequeno-burguês que levou tempo para ser amenizado. Além, claro, de um “politicamente correto” que acaba sendo apropriado pelos adversários do povo brasileiro. (Sobre isso, recomendo a leitura de “Por que agora a Globo apoia movimentos identitários? Brizola explica“, de Wilson Vieira Ferreira).

Feito isso, aos fatos.

Toda a situação que vivemos, hoje, é clara e indiscutivelmente de um arreganho judicial golpista, do qual, é evidente, Lula não é o autor, mas a vítima.

Não fosse isso, há dúvida zero de que ele seria o grande, imenso, disparado favorito a vencer as eleições.

Não tem, portanto, “culpa” nos três componentes deste quadro: o golpe, a prisão e o favoritismo eleitoral que ostenta.

Um passo adiante, porém, culpa-se Lula – ameaçado ou mesmo fadado à decretação de inelegibilidade pela Justiça – por não se apressar a escolher um outro nome, de preferência de fora do PT, para ser o seu “herdeiro”.

Invoco, a propósito, uma frase de autora pouco lisonjeira: a D. Maria Maluf que, ao ver os filhos, herdeiros da Eucatex, digladiarem-se previamente por seu espólio, declarou: “Não se depena a galinha ainda viva”.

Lula está sendo julgado e, como diz a Constituição – e como esquecem o STF, o TRF4 e quem mais quiser declará-lo culpado – conta com a presunção de inocência até o trânsito em julgado de sua sentença.

Não pode, portanto, considerar-se condenar-se à morte política e, pior, ao sepultamento eleitoral prévio.

Talvez alguém se recorde dos versos do finado Belchior: “Já tenho este peso / que me fere as costas / e não vou eu mesmo /atar minha mão…”

Ah, mas não é uma questão individual de Lula, mas um dever para com o povo brasileiro apontar alguém legalmente “candidatável”…

Pode ser, sim.

Mas isso é, perdoem-me, a interpretação mais pobre e atrasada do que Lula significa.

Lula não tem a força de eleger um indicado – o tal “poste”, como depreciativamente fala-se – por uma autoridade hierárquica ou patrimonial de “dono dos votos”.

Este poder vem do simbólico e, sendo assim, é necessariamente político, pessoal e só transferível por imperiosa necessidade, não por opção ou conveniência política.

A única vez que Lula abriu mão, sem ser obrigado, de uma candidatura presidencial foi em 2014 e o resultado desastroso foi o que vimos. Dilma ficou com o cargo, mas não ficou com a carga simbólica de Lula e, assim, não teve forças próprias para resistir ao golpe.

Não somos democracias fortes, amadurecidas política e partidariamente. Não podemos abrir mão da representação dos homens que encarnam desejos coletivos e aspirações nacionais. É inimaginável que os que carregam esta projeção do homem comum se esquivem alegando razões de foro íntimo ou, como estamos vendo com os “vai-não vai” que abundam nesta campanha com aqueles ridículos “mamãe me pediu para não ser candidato” ou o “minha mulher e meus filhos não querem”…

Ou será que Hugo Chavez, Rafael Correa, Cristina Kirchner e Evo Morales não têm desejos pessoais de fazer como Pepe Mujica e passarem a cultivar flores e curtir netos e bisnetos? Será que Vargas não tinha mais prazer em sua rede na varanda e em suas longas “charlas” na Fazenda do Itu, em São Borja?

Não é uma questão de conveniência pessoal e menos ainda de generosidade.

Não bastassem estas razões, é preciso ter a honestidade de olhar a realidade e perceber nela os traços do processo social. Quatro anos de massacre de mídia, quase três de judicial, duas sentenças absurdas e implacáveis e mais de 100 dias de cárcere fizeram o que a Lula em matéria eleitoral?

Longe de destruí-lo, a apenas 70 dias das eleições, fazem dele o nome que, estando na urna, não há quem duvide vá ser o vencedor.

É disso que Lula é “culpado”? É assim que “divide a esquerda”?

O pragmatismo é, sim, necessário à política e mais necessário ainda em períodos eleitorais.

Mas ele é muito menos, incomparavelmente menos que o sentimento popular, a representação dos anseios do povo, o exercício da memória do que ele viveu, experimentou e acreditou.

Do contrário, agiremos tal e qual os políticos “convencionais”, para os quais faz-se um arranjo na cúpula, costuram-se os acordos bem costuradinho e, pronto, temos um candidato vitorioso.

É o que o povo brasileiro o sente como sendo o resgate de suas esperanças, esperanças traídas, frustradas, pisoteadas e esmagadas.

A candidatura Lula não é um capricho pessoal do líder petista que, podem acreditar, se abdicasse dela estaria livre e solto se abdicasse dela, para curtir com filhos, netos e bisnetos seus últimos anos de vida ativa.

Já tentou ser um homem comum e o processo político-social não o deixou ser.

Ele não é um super-homem e, com certeza, nas noites frias e solitárias de Curitiba, ao ver tantas expressões de ódio e maldade voltadas contra ele por pessoas a quem jamais prejudicou, ele já pensou nisso.

Mas não fez e não fará, porque – e os tolos não acreditam nisso – já é mais uma ideia que um homem comum.

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