Gustavo Conde: Matar a política é matar os sentidos

Gustavo Conde em 29/7/2018

A gente vive uma crise curiosíssima de codificação linguística. A metaforização vem perdendo força ao passo em que o processo de literalização cresce. Pode ser uma saturação do discurso científico, mas é muito mais do que isso. Calma, que eu explico.

Lembram daquele sisteminha do ensino médio, linguagem conotativa e linguagem denotativa? É a relação mútua entre esses dois processos de codificação social que experimenta um novo equilíbrio de forças.

É um problema complexo, porque os protocolos de metaforização são essencialmente históricos (e os de literalização, idem, só que seu “apagamento” para o sujeito usuário da língua é muito mais forte).

A rigor, literaliza-se o que não é para se literalizar e metaforiza-se o que não é para se metaforizar. É o “mau comportamento” da língua e dos sentidos, na eterna disputa por significados que a espécie humana trava desde o “advento” da linguagem.

Vou dar exemplos para que ninguém fique só no pensamento abstrato. Quando aquela manifestante conservadora interpretou o sol nascente da bandeira do Japão como sendo um símbolo comunista, ela entrou nessa dança das codificações “saturadas”. Ela literalizou a cor vermelha.

“Ora – vocês devem estar pensando – mas a literalidade de vermelho não é o ‘comunismo’; a literalidade de vermelho é vermelho”. A linguagem prega muitas peças na gente, até na própria teoria linguística e até mesmo na produção das teorias linguísticas – mas isso é um outro debate.

Detenhamo-nos no sentido de “literalizar”: para aquela cidadã – aquele sujeito – o vermelho atingiu um grau tal de associação com o comunismo que, para ela, “vermelho” se tornou sinônimo de “comunismo”, sobretudo em um contexto controlado como o contexto político (ela estava no Palácio do Planalto protestando contra o PT).

Em suma, literalidades e metaforizações são processos gêmeos e dependem da história e do contexto situacional para produzirem seus efeitos.

Esse procedimento de literalização/metaforização caracteriza-se como uma energia linguística muito poderosa para a produção de humor, por exemplo. Podemos lembrar daquela piada entre músicos em que um fala para o outro: “Estou com uma dor aguda nos rins”, ao que o outro responde: “Pelo menos, não é nada grave”.

Sutil, mas facilmente recuperável: o “outro” “literaliza” o sentido de “grave”, na sua “semântica particular”, em que o par grave/agudo significa som e não dor. O efeito de humor decorre da “economia” da descarga cerebral usada para codificação e “descodificação” das palavras e enunciados, diria Freud.

Mas nós não estamos aqui discutindo a produção de humor e sim a produção de sentido de maneira geral – embora ambas mantenham imensa relação de similaridade.

Há muito exemplos na praça desse processo de literalização do discurso que, por sua vez, não produz propriamente humor, mas constrangimento. Quando se invade a cena política, a coisa se aprofunda. Confundem “socialismo” com “voto de pobreza”, “política de cotas” com “favorecimento” e “bolsa-família” com “esmola”.

Esses processos de significação não são exclusivamente políticos ou exclusivamente do debate político. Eles são violações do protocolo do debate público (que exige sentidos minimamente consolidados, pelo menos em se tratando do tema central do assunto debatido), o que muita gente chamaria na esfera popular de “desonestidade intelectual”.

Na esfera jurídica isso também se tornou muito comum. Quando lemos textos redigidos por Sérgio Moro ou Deltan Dallagnol, a gente percebe que o mundo linguístico em que eles vivem não é o mundo real, social, mas o mundo exclusivo deles, no limiar do delírio.

Essa descompensação técnica de codificação das palavras, no entanto, se alastra por toda a extensão da linguagem social e invade o território infinito dos enunciados. Há, neste momento, no Brasil em especial, um verdadeiro “espancamento” dos enunciados políticos e mesmo teóricos, sob quaisquer tipos de assunto.

Um exemplo: eu perguntei se “falar Lula Livre na Flip estava proibido” e muita gente literalizou a questão. Ora. Falar Lula livre não está, não estará e nunca deverá estar proibido em lugar nenhum do mundo. Seria muita imaginação achar que um enunciado como esse fosse literal, ou seja: que eu estou mesmo querendo saber se dizer “Lula Livre” na Flip está proibido.

Literaliza-se o enunciado todo com destaque especial para o verbo “proibir”, que municia a pergunta de força retórica, nada mais.

Essa perda da capacidade de codificar enunciados mais sutis – mas nem de longe impenetráveis ou herméticos – é que tem feito o debate público derreter até nos espaços da esquerda (porque nos nichos conservadores, ele já derreteu faz tempo). É o famoso “diálogo de surdos”.

A interpretação de texto, portanto, tem e sempre terá um forte viés político. Por isso que matar a política é matar o sentido. Não se interpreta textos sem uma posição política minimamente qualificada, seja ela proveniente de quaisquer dos lados do espectro ideológico.

É desse fenômeno de crise de codificação linguística que decorre todos os outros fenômenos de degradação social no país: a partidarização do judiciário, a proposta de “escola sem partido”, a criminalização da arte e o caos gerencial que tomou conta dos governos.

Para se gerenciar um país, é preciso que a “linguagem institucional” esteja funcionando com relativa proficiência. Quando vemos Temer falar, quando vemos Alckmin falar, quando vemos Doria falar, entendemos com bastante clareza o porquê de o país ter entrado nesse colapso dos sentidos.

A explicação para esse conjunto de fenômenos, no entanto, não pode ser simplista. A degradação dos processos de codificação linguística atende a interesses muito evidentes, políticos e econômicos. A Rede Globo é a maior interessada nessa precarização da interpretação, pois ela tem seu faturamento diretamente associado à passividade intelectiva do público.

A perda das liberdades também intensifica esse processo de precarização da interpretação, pois um sujeito soberano é fundamental para que haja a produção de enunciados com sentido e com qualidade.

De maneira que a solução para isso também não pode ser simplista. Ela deve ter como origem as políticas públicas voltadas à educação e à cultura. Em um país em que ambos os ministérios foram precarizados, não era de se esperar resultado pior para a cena social da produção de linguagens, de ideias e de, precisamente, soluções para os impasses múltiplos de degradação social.

Por isso, o Festival Lula Livre, ontem no Rio de Janeiro, foi tão importante. O que vai nos tirar dessa condição precarizada de interpretação de texto é a arte e a manifestação popular. Fora disso, sobra apenas a barbárie.

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