Fernando Horta: Karl Marx salve a Rainha!

Fernando Horta em 29/7/2018

Muitos têm ficado desconfiados da súbita consciência política de Mark Zuckerberg, que passou a jogar pesado contra o uso de sua rede social para “fake news”. O bilionário moralista, que impede fotos de mamilos ou pelos pubianos em sua rede, não se encaixa no perfil de um ardente defensor dos direitos políticos dos países pelo mundo. O dinheiro fala, e sempre falou, mais alto. Não importa se o usuário da rede está lendo uma postagem que discute corretamente a dialética de Hegel ou se está gastando o seu tempo vendo um pastor fazer um “exorcismo” num péssimo ator em algum culto neopentecostal, o que importa é o tempo que o indivíduo gasta dentro das redes, a forma como ele é direcionado para lá e se perde nos apelos publicitários.

Quanto mais tempo, mais “curtidas”, “views”, testes para ver com que personagem histórico você se parece ou violentas discussões sobre os litros de água que se precisa para criar uma vaca e uma ervilha vão dando ao Facebook um conhecimento bastante aprofundado de todos nós. Este conhecimento, de todos e de cada um, vai fazendo com que a ferramenta do bilionário sirva para garantir retornos a investimentos em propaganda como, talvez, nenhum outro meio antes dele. O Facebook, o Google e sua infinidade de “produtos” na verdade são apenas um: você, eu e todos nós.

Ora, se para o dono da rede social, cinco minutos das nossas vidas dão a ele informações e dinheiro de forma idêntica se estivermos vendo um bom conteúdo ou vendo uma mentira deslavada, por que, afinal, o bilionário se preocuparia em perseguir os grupos que usam as redes para criar mentiras, ódio e preconceito?

A resposta está na Inglaterra e pode ser explicada por Karl Marx.

Uma das grandes contribuições de Marx para a humanidade foi o desnudar da mecânica do capitalismo, tanto em seus microssistemas quanto em suas movimentações globais. Marx afirma que existe uma “contradição interna” no capitalismo, inerente a todo o sistema e que certamente provocará o seu fim. O argumento de Marx começa pelo conceito de mais-valia e de exploração. O capitalismo é um sistema de carreamento de riqueza daqueles que efetivamente trabalham (proletariado) para as mãos de quem nada produz (burguesia). Esta exploração é o cerne do capitalismo, indiferente se ele for indiano, congolês ou sobre as populações norte-americanas do Texas. Evidentemente que pessoas com maior grau de instrução lutam e exigem direitos que devem ser respeitados pelo capital. Outras, infelizmente, caem no conto da “meritocracia”, do “trickle down” ou “da retirada de leis trabalhistas para aumentar o salário e o emprego”.

Ocorre que, segundo Marx, dado que tudo o que é material é finito, por mais que a geração de valor possa aumentar via aumento do nível de exploração ou de tecnologia em novos nichos, este valor tem um fim. Marx então afirmou que haveria uma luta interna do capitalismo pela possibilidade de explorar. Os capitalistas, sejam eles divididos em atividades, regiões ou países, necessariamente entrariam em grandes combates para continuar explorando o proletariado. Além disto, como o objetivo do sistema é sempre extrair o maior valor possível, sempre se buscará pagar os menores salários a este proletariado. Ocorre que o capitalismo precisa de mercado consumidor, e o proletário precisa de dinheiro para consumir.

Como concatenar um sistema que concentra riqueza em níveis alarmantes, sendo que o mesmo sistema para existir precisa que parte desta riqueza fique nas mãos de consumidores? Eu e você servimos, ao mesmo tempo, tanto quanto proletários, a sermos explorados (e ganharmos o mínimo possível), como de consumidores que, através da compra, mantemos a roda funcionando. Nesta batida, os marxistas predisseram crises cíclicas do capitalismo, guerras, concentração de renda em nível nacional e internacional e, todas estas predições aconteceram, mais ou menos, como a teoria afirma.

Mas, afinal, o que isto tem a ver com o Facebook e a caça aos neofascistas brasileiros e suas fake news?

Ora, Zuckerberg não faz esta caça por amor à democracia, aos valores sociais de participação e de direitos humanos. Zuckerberg se lança contra os fascistas por dinheiro. É claro e evidente que os jovens apedeutas brasileiros ganham dinheiro com as redes sociais fazendo exatamente a mesma coisa que o Zuckerberg faz: ambos vendem as pessoas a quem pagar mais. Se você for ao Facebook, por exemplo, querendo vender cocô em lata, a rede será capaz de te apontar um grupo grande de pessoas próximas ao local de seu estabelecimento com nível cognitivo suficientemente baixo para consumir o seu produto. E tudo isto metrificado. O tal MBL faz o mesmo, com Dória, Bolsonaro ou Alckmin (quem pagar mais).

Depois de cultivar o gado e fazer testes sobre sua capacidade de mobilização (como jogar milhares contra exposições de arte ou a apoiar o “honesto” Eduardo Cunha), os protofascistas brasileiros se vendem no mercado da política como “influencers”, e cobram caro. No fundo, não há diferenças entre o que o Zuckerberg e o MBL fazem, e você poderia imaginar que a competição entre os capitalistas (como afirmava Marx) se encarregaria de jogar um contra o outro…

Na verdade, Marx estava certo, mas o MBL brasileiro, mesmo com todo o estrago que fez no Brasil e com todo o dinheiro que seus membros ganham – sem nada produzir – não significam absolutamente nada, em termos econômicos, para o Facebook. A grande questão foi a Inglaterra. Em 2016, 71% dos votantes no Reino Unido, decidiram que os países do grupo deveriam sair da União Europeia, numa das votações mais dramáticas do século. Uma decisão majoritariamente influenciada por “fake news”, mentiras, ódio, preconceito e tudo o que vemos acontecer no Brasil. Acontece que esta decisão, se implementada, vai gerar um prejuízo de 80 bilhões de dólares ao ano para o governo britânico.

Trocando em miúdos, na Inglaterra, o uso irresponsável das redes sociais, enriquecendo o senhor Zuckerberg (porque ele confessou que vendeu os dados e permitiu a manipulação) pode fazer com que TODA economia do país perca mais de R$300 bilhões ao ano. Apenas a título de comparação, o orçamento de 2018, de saúde e educação do Brasil somados, com os cortes criminosos de Temer, chega a R$200 bilhões. A situação se tornou tão violenta e perigosa na Inglaterra, especialmente após Alemanha e França dizerem que a Inglaterra TERIA que implementar a decisão votada, que eles estão enrolando há mais de dois anos e agora pensam em fazer um novo plebiscito para “voltar atrás”.

No fundo, com o seu Zuckerberg ficando bilionário, ele quase quebra a Inglaterra, e no capitalismo, suas falhas, inconsistências e contradições começaram a falar mais alto. A União Europeia iniciou estudos para bloquear o Facebook no continente, e alguns deputados mais radicais pedem que se processe o norte-americano pelos prejuízos reais que sua irresponsabilidade e inação causaram ao velho mundo. E estamos falando de Europa e não de algum país com instituições facilmente compráveis como o nosso. Na mesma esteira, as eleições nos EUA foram todas influenciadas pelas redes. Os norte-americanos tratam isto de forma ainda velada, muito porque parte de sua política externa está no uso das redes como forma de ação internacional, mas existe sim a preocupação de que o país de Washington, Jefferson, Madison, Hamilton e etc. se torne o país de Zuckerberg, com uma democracia raptada e controlada de uma forma mais efetiva e assustadora do que o poder que exerce, por exemplo, Wall Street hoje.

Se no Brasil estamos nos ressentindo dos danos causados pelo MBL e seus asseclas, e convém ter isto em mente para inclusive os processar, a Inglaterra está de joelhos. Para continuar com sua rede social, o bilionário Zuckerberg precisa enfrentar o poder dos Estados Nacionais. Leis, exército, polícia e tudo mais. E aqui, novamente o velho Marx (ajudado por Lênin), acerta. Na luta entre os diversos bilionários, os que controlam o Estado levam vantagem.

O Facebook precisa mostrar à União Europeia, e a boa parte dos EUA, que é capaz de controlar o fascismo, e ser suficientemente neutro nos países capitalistas do norte, mantendo uma certa “defesa da democracia”. E isto em tempo recorde já que as eleições americanas e europeias estão próximas. E que melhor campo de estudos e experimentos do que um país latino-americano pobre, tornado periférico por um golpe, com uma população que é quase metade da europeia?

Enfim, o alerta de Karl Marx pode salvar a rainha da Inglaterra, e o pescoço dos jovens fascistas brasileiros do MBL, por mais que se esganicem na frente da sede da empresa serão ofertados como oferenda ao Deus-Mercado europeu e norte-americano (os que realmente interessam), como um presente de sangue para apaziguar o humor daqueles países e permitir que Zuckerberg continue bilionário.

Não é prazeroso ver os liberalóides de youtube e facebook brasileiros serem devorados exatamente pelos monstros que passaram anos a defender, todas as vezes inclusive contra o Brasil? Será que eles conseguirão entender o que se está passando? E se entenderem e, num surto de inteligência e capacidade, resolverem se aliar às fileiras vermelhas na luta contra o que os está devorando, os aceitaremos? De minha parte, eu exigiria que cantassem a internacional comunista de pé, com lágrimas nos olhos… e passassem alguns anos na Sibéria, é claro.

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