A economia e o país da opinião pronta

Luis Nassif em 26/7/2018

Todo modelo econômico está sujeito a exageros. Mas o que diferencia as nações desenvolvidas daquelas institucionalmente mais frágeis é o descolamento da realidade, que marca a implementação dessas políticas.

A economia não é uma ciência exata, com regras imutáveis no tempo e no espaço. Há regras de ouro, a serem seguidas por qualquer nação. Mas as decisões devem se subordinar às circunstâncias de cada momento.

O mesmo ocorre com as empresas. Há boas práticas, princípios de gestão, mas que dependem da análise de situação de cada empresa, de suas características permanentes e de sua situação no momento.

Uma empresa de varejo não pode abdicar dos investimentos em marketing. Mas, ao mesmo tempo, não pode se descuidar de seu caixa, nem de seus investimentos. Por tudo isso, o processo de decisão obedece a inúmeras variáveis.

Uma pequena amostra das variáveis que são consideradas no nível de uma empresa, uma realidade imensamente menos complexa que a de um país, quando em processo de expansão:

1) A relação entre o investimento em marketing e o aumento das vendas.
2) A relação entre a rentabilidade marginal, com o aumento das vendas, e o custo do dinheiro.
3) Os investimentos necessários para atender ao provável aumento da demanda.
4) O tempo necessário para aumentar e treinar os novos quadros.

Em período de crise, o quadro é igualmente complexo:

1) Qual o corte a ser feito que impacte menos as vendas. Há cortes que podem produzir quedas de vendas superiores à própria economia pretendida.
2) Quais os passivos prioritários a serem negociados.
3) Quanto tempo durará o desaquecimento e qual o custo de demissão dos funcionários.

Imagine-se, então, um país.

Há um conjunto de medidas de política econômica e de desenvolvimento comuns a todo país minimamente comprometido com seu futuro.

1) Melhorar os níveis educacionais.
2) Investir em ciência, tecnologia e inovação.
3) Garantir crédito e financiamento a custos internacionais.
4) Fortalecer o mercado de consumo interno.
5) Garantir a infraestrutura, energia, telecomunicações, estradas, com investimentos públicos ou concessões.
6) Aumentar a competitividade da produção interna, vis-à-vis as externas, tanto no mercado internacional quanto do doméstico, pois é ela que garante a geração de emprego e renda, inovação e arrecadação fiscal.
7) Manter políticas fiscalmente responsáveis.

Cortes de gastos não podem ser vistos apenas da ótica fiscal. Ao gasto público corresponde a entrega de um produto: saúde, educação, energia etc. Portanto, toda análise de eficácia tem que colocar como indicador fundamental a qualidade e a quantidade do produto ofertado. A boa gestão se faz entregando mais com o mesmo, ou o mesmo com menos. Por aqui, se mede apenas o nível dos gastos sem a menor sofisticação sobre os indicadores de qualidade ou de entrega do produto.

A banalização terrível da discussão econômica colocou o meio na frente dos objetivos finais. Basta colocar um teto de gastos que o resto se revolve. E sempre se acenando com a ideia do pote de ouro no final do arco-íris. Se todos os sacrifícios (dos outros) forem feitos, a economia bombará e todos serão beneficiados. Os oito anos de FHC mostraram o contrário.

Pior, no caso de interferências profundas em setores da economia – como a proposta da privatização da Eletrobrás e da Petrobras – toda a discussão é direcionada por bordões de mercado, sem que a mídia dê espaço para a opinião dos especialistas.

Automóveis e recessão
Em períodos de recessão, há um aumento natural das exportações de veículos, pela incapacidade de absorção da produção pelo mercado interno.

No gráfico, um pequeno resumo do que está acontecendo com as exportações de automóveis. São acumulados de doze meses, e respectivas variações no trimestre, semestre e ano.

Quando a recessão se impôs, houve um salto nas exportações. Desde março do ano passado, as exportações começaram a refluir.

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