“Não me deixem só”: Com desafio de controlar língua, Ciro oficializa candidatura sem alianças

Presidenciável do PDT, que faz convenção nesta sexta, ainda tem esperanças de atrair apoio na esquerda.

Gustavo Uribe, via Folha on-line 20/7/2018

Em sua terceira campanha presidencial, Ciro Gomes oficializa sua candidatura ao Palácio do Planalto na sexta-feira [20/7], em Brasília, com o desafio de controlar o estilo verborrágico e de tentar contornar o risco de isolamento político.

As duas dificuldades foram seus principais obstáculos nas disputas presidenciais passadas, nas quais foi derrotado no primeiro turno, e voltaram a ameaçá-lo nesta semana, antes mesmo do início oficial da corrida eleitoral.

Na segunda-feira [16/7], Ciro tinha a certeza de que conseguiria o apoio de cinco partidos do chamado centrão, dando uma demonstração pública de força política na convenção nacional do PDT.
Ele chega à convenção, contudo, sem o respaldo de nenhum deles, sem nenhuma aliança confirmada e sem um nome para o posto de vice.

O bloco formado por DEM, PP, PR e Solidariedade decidiu formar uma aliança com Geraldo Alckmin, do PSDB. Desde o início de junho, dirigentes das siglas vinham criticando, em conversas reservadas, o comportamento imprevisível do pedetista, que, na quarta-feira [18/7], xingou uma promotora de São Paulo.

Além dos episódios recentes de destempero, causou desconforto crítica feita pelo presidenciável no passado ao ex-presidente nacional do PR Valdemar Costa Neto. Em 2004, Ciro disse que ele estava “embriagado” ao ter pedido a saída do então ministro da Fazenda, Antônio Palocci.

Em jantar com as legendas do centrão, em junho, Ciro já havia sido cobrado pelo gênio forte. O marqueteiro dele, Manoel Canabarro, e o coordenador da campanha, seu irmão Cid Gomes, já lhe pediram para evitar palavrões. Em resposta, ele tem prometido conter o pavio curto. “Ele tem tentado se policiar”, afirma o irmão.

Até agora, no entanto, o esforço não surtiu efeito. A cúpula do partido, que tinha a expectativa inicial de que ele adotasse um perfil “paz e amor” na disputa deste ano, estratégia que ajudou a eleger Lula em 2002, já descartou essa possibilidade.

A personalidade explosiva é apontada por dirigentes pedetistas como um dos fatores que prejudicaram a candidatura de Ciro em 2002. Na época, perguntado pela imprensa, ele respondeu que um dos papéis na campanha eleitoral de sua então mulher, a atriz Patrícia Pillar, era dormir com ele.

O episódio causa reflexos até hoje na imagem do candidato, cujo desempenho eleitoral entre as mulheres é inferior ao dos homens em todos os cenários das pesquisas eleitorais, o que o tem levado a tentar desconstruir crítica de que seja machista.

Em entrevista à Rádio Jovem Pan, Ciro chamou o vereador Fernando Holiday (DEM/SP) de “capitãozinho do mato”. “Imagina, esse Fernando Holiday aqui. O capitãozinho do mato, porque é a pior coisa que tem é um negro que é usado pelo preconceito para estigmatizar, que era o capitão do mato do passado”, declarou

O recuo dos partidos do centrão pode ainda impactar as negociações com partidos de esquerda, como PSB e PCdoB. Com a preocupação de um isolamento do PDT, os dirigentes das duas siglas voltaram a cogitar de maneira mais enfática um apoio ao PT. Sozinho, o PDT tem apenas 33 segundos em cada bloco fixo de 12 minutos e 30 segundos na TV, durante a campanha.

No PSB, o movimento é puxado principalmente pelo governador Paulo Câmara (PE), que quer evitar, com um acordo nacional, o lançamento pelo PT da candidatura de Marília Arraes, que ameaça a sua reeleição.

Para evitar que Ciro fique isolado na disputa eleitoral, o PDT esboçou nesta quinta [19/7] estratégia de contra-ataque. Além de aumentar a ofensiva sobre o PSB, ele buscará separadamente partidos que integram o bloco de centro, na tentativa de reverter o apoio a Alckmin.

A cúpula do partido ainda considera possível viabilizar uma aliança com o Solidariedade que, como tem defendido Ciro, prega a revogação da reforma trabalhista e a discussão de uma alternativa de financiamento às centrais sindicais com o fim do imposto sindical obrigatório.

Em seu discurso, durante a convenção nacional, ele defenderá o combate à corrupção, o maior financiamento à segurança pública e a adoção de políticas de geração de emprego.

O presidenciável aproveitará o evento para lançar uma prévia do seu programa de governo, intitulada “12 passos para mudar o país”. Um dos trechos estabelece que, caso o pedetista seja eleito presidente, a equipe de governo assinará um documento, uma espécie de manual de responsabilidade com o dinheiro público.

A regra principal é de que um auxiliar em cargo de confiança deve se afastar temporariamente do posto caso seja apresentada contra ele uma denúncia fundamentada de corrupção e que, paralelo a isso, seja realizada uma apuração independente.

Apesar do discurso moralizante, Ciro negociou com partidos implicados em denúncias de corrupção. O PP é uma das siglas mais envolvidas na Lava-Jato e Costa Neto foi condenado no escândalo do mensalão.

Na segurança pública, tema que tem sido monopolizado pelas candidaturas de direita, Ciro irá propor um maior protagonismo do governo federal, aumentando a destinação de recursos e criando uma polícia especial para combater tráfico de drogas e armas nas fronteiras.

Em aceno à esquerda, ele deve defender ainda a ampliação das cotas raciais em universidades federais e o estímulo a políticas afirmativas para minorias, como mulheres, negros e homossexuais.

A equipe de campanha tem tentado convencê-lo a se comprometer, em discurso na convenção partidária, com a meta de que metade dos cargos de confiança seja ocupado por mulheres até o final de 2022.

Nesta quinta-feira [19/7], Ciro se reuniu com as lideranças femininas do PDT, em Brasília, para discutir propostas que possam ser defendidas durante a convenção nacional.

O encontro também teve como objetivo minimizar o impacto de xingamento feito por ele contra promotora, o que gerou repercussão negativa nas redes sociais.

Na quarta-feira [18/7], Ciro chamou de “filho da puta” integrante do Ministério Público que solicitou a abertura de um inquérito contra ele por injúria racial.

O Ministério Público de São Paulo pediu o inquérito depois que, em entrevista à Jovem Pan, Ciro chamou o vereador Fernando Holiday (DEM/SP), ligado ao MBL, de “capitãozinho do mato”. Holiday é contra, por exemplo, a política de cotas raciais nas universidades.

CIRO FERREIRA GOMES, 60 ANOS
Naturalidade
Pindamonhangaba (SP)

Principais cargos
– Governador do CE (1991-94) e prefeito de Fortaleza (1989-90)
– Ministro da Fazenda (1994-95) e da Integração Nacional (2003-06)
– Deputado Federal (2007-11)

Partido e coligados
PDT; tenta PSB, PCdoB e SD

Marqueteiro
Manoel Canabarro

Coordenador econômico
Mauro Benevides Filho

Slogan
“Força e paixão para mudar o Brasil”

Pontos fortes
– Com a prisão de Lula, tornou-se candidato competitivo da esquerda
– Tem experiência em cargos executivos
– Não esteve envolvido no mensalão e Lava-Jato

Fragilidades
– Tempo de TV pequeno
– Baixo desempenho entre mulheres e jovens
– Visto com desconfiança pelo temperamento
– Dificuldades em atrair o apoio de siglas de centro

Mote
Discurso anticorrupção, defesa do setor produtivo e revogar medidas de Temer

Frases que sempre usa
– “Candidato a ditador do Brasil é o Bolsonaro”
– “O Brasil ficou ultrapassado em produtividade e não vimos a revolução tecnológica”
– “Proponho um caminho além de PT e PSDB”

Polêmicas
– Na disputa eleitoral de 2002, Ciro disse que um dos papéis na sucessão ao Palácio do Planalto de sua então mulher, a atriz Patrícia Pillar, era dormir com ele
– Em abril deste ano, discutiu e chegou a dar tapa na nuca de um blogueiro ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre). O caso ficou conhecido como “pescotapa”
– Em junho, chamou o vereador de São Paulo Fernando Holiday (DEM) de “capitãozinho do mato”
– Na quarta [18/7], xingou de “filho da puta” integrante do Ministério Público que solicitou a abertura de um inquérito contra ele por injúria racial

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Uma resposta to ““Não me deixem só”: Com desafio de controlar língua, Ciro oficializa candidatura sem alianças”

  1. Aristóteles Barros da Silva Says:

    E, agora, José? (como diria Carlos Drumond de Andrade). Pisou na bola, foi atrás dos fascistas, traiu o povão e, agora, tomou no toba!

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