O cálculo dos partidos nas negociações das alianças

Partidos ainda avaliam em quais nomes apostar, enquanto pré-candidatos buscam aliados capazes de tornar as campanhas mais competitivas.

Lilian Venturini, via Nexo jornal em 17/7/2018

Entre os dias 20 de julho e 5 de agosto, o cenário eleitoral começará a ganhar contornos um pouco mais definidos para a disputa presidencial. Trata-se do período de convenções partidárias, que servem para a formalização de candidaturas e definição de alianças.

As convenções são obrigatórias. Uma vez realizadas, suas decisões precisam ser registradas na Justiça Eleitoral até 15 de agosto. Mas desta vez, elas vão além de uma mera formalidade jurídica. Isso porque o rumo dessas eleições está bastante indefinido.

Entre as legendas de porte médio, que costumam ser decisivas na composição das alianças, apenas PSD, PPS, PV e PTB têm acordo fechado com a pré-candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB). Ainda estão indefinidos os rumos de partidos como o PSB, PR, PP, PRB e DEM, por exemplo.

Qual ideia está em jogo
Com tantos partidos em atividade (são 35 registrados na Justiça Eleitoral), a formação de alianças é um processo complexo na política nacional. Mas a complexidade se dá não a partir de busca de uma confluência programática que vá resultar numa divisão de tarefas num eventual governo. E sim em conveniências que passam pelo cálculo de sobrevivência política, além da manutenção ou ampliação da influência na máquina pública num futuro governo.

O fator Lula na indefinição de 2018
As indefinições do momento presente fazem da campanha de 2018 uma das mais imprevisíveis desde 1989, a primeira eleição por voto direto após o fim do regime militar (1964-1985). Isso em razão de um quadro político pulverizado e sem nomes favoritos.

Atualmente, quem lidera as intenções de voto é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), preso e condenado pela Lava-Jato, e cuja candidatura é pouco provável por causa da aplicação da Lei da Ficha Limpa.

Parte da indefinição gira em torno de qual será a efetiva participação do PT na campanha: se terá Lula (mesmo com o risco de ser barrado pela Justiça), se terá outro nome petista ou se o partido apoiará outro candidato.

34% é o índice de votos em branco, nulo ou de quem
não sabe em quem votar nos cenários sem Lula,
segundo pesquisa Datafolha de junho de 2018.

Na reta final do prazo legal para definir o papel de cada partido nas eleições de outubro, há cálculos que são seguidos pelos políticos. Alguns têm efeito imediato na campanha. Outros já vislumbram os desdobramentos de quem for eleito para comandar o país a partir de 1º de janeiro de 2019.

Tempo de TV e palanques estaduais
A formação de um arco amplo de alianças tem ao menos dois efeitos práticos para uma candidatura: mais tempo de TV e no rádio e mais palanques em estados e municípios.

Esses estão entre os ativos políticos mais disputados na fase da pré-campanha. O tempo de cada partido no horário eleitoral gratuito varia de acordo com o tamanho da bancada na Câmara. Ter mais tempo de TV aumenta a visibilidade da candidatura não só durante a propaganda eleitoral, mas garante ao candidato mais inserções – propagandas avulsas veiculadas durante a programação (e que tem com diferencial pegar o eleitor de surpresa).

Por essa razão, o apoio do MDB, a maior bancada, é sempre disputado. Em 2018, a legenda do presidente Michel Temer avalia ter candidato próprio, com o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles. A convenção do partido está marcada para 2 de agosto.

Com mais aliados, aumenta a possibilidade de uma candidatura ter mais palanques espalhados pelo país, algo importante considerando o tamanho do Brasil. Ter palanque significa ter uma estrutura partidária consolidada em capitais ou cidades maiores, com uma rede de apoiadores ou militantes trabalhando para divulgar a candidatura.

A falta de palanque costuma ser o ponto fraco de candidatos filiados a partidos pequenos, condição que hoje ronda as pré-candidaturas de Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (Rede).

Candidaturas nos estados e ao Congresso
Enquanto as candidaturas presidenciais buscam nos partidos condições de dar sustentação à campanha, os aliados costumam colocar em perspectiva os impactos da união para as demais candidaturas. Em 2018, o eleitor vai escolher, além do presidente, deputados estaduais, deputados federais, senadores e governadores.

Nesse momento de negociação, é comum um partido aliar-se ao pré-candidato à Presidência de uma legenda que, em troca, apoiará o candidato daquele partido ao governo de um determinado estado. Ou que abrirá mão de ter um nome disputando o Senado, diminuindo assim a concorrência para as vagas daquela Casa – em 2018 serão eleitos dois senadores para cada estado.

Esse cálculo está entre os fatores que paralisaram as conversas entre o PR e o PSL, partido de Bolsonaro. O deputado está de olho nos 45 segundos de tempo de rádio e TV que a legenda pode oferecer. Em contrapartida, PSL e Bolsonaro teriam de apoiar os planos estaduais do PR, ponto até agora sem consenso, de acordo com relatos de integrantes dessas legendas ao jornal Folha de S.Paulo.

Tamanho da relevância num eventual governo
Na busca pela opção mais viável, há partidos que já colocam na balança o que poderão ganhar no momento da composição do governo eleito.

Em razão da fragmentação partidária brasileira, nenhum partido que ganha a eleição ao Palácio do Planalto consegue maioria na Câmara e no Senado. Por isso precisa das alianças, agora na hora da eleição e mesmo depois da votação.

A questão é que aliados de primeira hora têm preferência na ocupação dos espaços na máquina pública. Além disso, já podem pleitear, agora, quais são exatamente esses cargos.

O DEM, partido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, coloca como condição a promessa de que o futuro governo dê a Maia a prioridade para seguir no comando da Câmara em 2019, segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo. Maia, apesar de formalmente ser pré-candidato à Presidência, deve buscar à reeleição para deputado federal.

O PP, por sua vez, condiciona o apoio à manutenção da sigla no comando de ministérios atualmente ocupados por ela, como Cidades e Agricultura, também conforme relatos de integrantes da legenda ao jornal.

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