Fernando Horta: Pátria amada sob sequestro

Fernando Horta em 18/7/2018

A República Velha brasileira durou desde a proclamação da República, em 1889, até a Revolução (ou golpe) de 1930. Os pleitos não chegavam a ter 5% da população como votantes e não raro o candidato ganhador tinha mais de 80% dos votos, chegando a extremos de ter 95%. As fraudes locais eram a característica do período. Tinha urna que era levada para apuração em casa, e no dia seguinte o apurador apenas trazia a papeleta coma discriminação dos votos. Tinha urna anulada, sumida, engordada e tudo mais que se possa imaginar. Tinha cidade com mais votante do que habitante, tinha colégio eleitoral de defunto e outras fraudes mais rebuscadas que corariam os norte-americanos e seu “colégio eleitoral” de hoje.

A chamada República das Oligarquias ou República dos Coronéis tinha um mecanismo de controle e acorrentamento da democracia que ocorria através da “Comissão Verificadora de Poderes”. Era um órgão do Estado, presidido até 1915 pelo senador gaúcho Pinheiro Machado, que tinha por função avalizar os eleitos. Em caso de o candidato haver sido eleito, mas, por alguma indisposição política com o parlamento, com o governo federal ou com os governos locais fosse entendido que o eleito não era digno de assumir, sua cadeira era simplesmente cassada. Por qualquer motivo. Existem casos de a comissão usar o fato de o eleito ter “conhecidos casos extraconjugais” e isto não poderia ser aceito. Para os padrões da época a decisão era “justa”, fora o fato, claro, de que a imensa maioria dos homens com recursos financeiros e poder naquele momento ter “conhecidos casos extraconjugais”. A comissão era o casuísmo institucionalizado.

O chefe mais conhecido desta comissão era o já mencionado senador gaúcho, Pinheiro Machado. Há relatos de que, para que o eleito tivesse o direito de assumir, era necessário que comparecesse a um dos jantares do senador e perdesse inúmeras partidas de pôquer. Não fica claro se tinham que ser perdidas enormes somas de dinheiro ou se apenas a sensação de vencer satisfazia o senador. O que era claro é que a democracia do período não existia sem a chancela desta figura.

Vendo as fotos dos inúmeros candidatos de esquerda “comparecendo” a sabatinas com o novo fiador da democracia brasileira, o general Villas Boas, não posso deixar de pensar na democracia brasileira sequestrada. Se as sabatinas fossem abertas, gravadas e colocadas na íntegra na internet poder-se-ia dizer que o generalato verde-oliva estaria “promovendo mais um espaço de expressão para os candidatos”. Mas da forma como é feita, com reuniões fechadas, registradas somente no final, como um “beija-mão” e com presença de sabe-se lá quem e com que intenções, as “sabatinas” são, no mínimo, uma forma de informação privilegiada e, na pior das hipóteses, uma comissão militar, não eleita para nada, que a vida toda administrou estrelas e vassouras em quartéis, mandando o custo do resgate para manter a democracia brasileira em um “semicativeiro”.

É deprimente para todos os que conhecem a História da América Latina, que ainda exista espaço para este tipo de postura. Tanto dos verde-oliva quanto dos candidatos. É realmente ameaçador que aqueles que passam a vida a gritar histericamente hinos sobre “pátria”, “nação” e outras palavras pomposas não reconheçam seus espaços dento deste processo. Especialmente em um momento em que tantos se avançam sobre o pobre corpo inerte de nossa democracia. Estas pessoas poderiam ao menos dizer que é o capo com quem devemos negociar. Se os vestidos de verde, os vestidos de preto ou alguém que ainda não sabemos. Será que estes sequestradores falam português?

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