A guerra das palavras e a difícil arte de combater Lula

Gustavo Conde em 10/7/2018

Não é só uma guerra semiótica que está em curso no Brasil do golpe. Nem é só uma disputa narrativa. Nem mesmo apenas um embate de sentidos. O Brasil vive, sob o processo agônico de uma imprensa corporativa em crise financeira, uma batalha lexical-discursiva.

Calma, eu explico. A teoria do discurso, complexo campo do conhecimento de ascendência francesa que, aos poucos, vai ganhando a adesão involuntária de grande parte dos analistas sociais (pois, eles põem em prática fundamentos da teoria sem nem mesmo saber – porque não a citam) é o fulcro da reflexão.

Este campo teórico de interpretação, na verdade, é nomeado “Análise de Discurso Francesa”. É bonito, mas é muito mais do que isso: é revolucionário. Pense em duas teorias densas de fatoração de sentido em associação conspiratória: marxismo e psicanálise. Agora ponha uma pitada de estruturalismo linguístico para dar “liga” e está feito o coquetel molotov da interpretação de texto aplicada – que funciona como antídoto ao totalitarismo discursivo produzido pelas instâncias de poder.

Nota: para quem quiser conhecer melhor essa teoria, sugiro dois autores franceses. Michel Pêcheux e Dominique Maingueneau. Vale ler Foucault, Althusser, Saussure e Lacan. Diferentemente do que a maioria dos acadêmicos pensa – e isso é pura leitura discursiva – esses autores não são “difíceis”. Eles são apenas “bons” mesmo. Preguiça de leitura não é muito bem-vinda a esta teoria que prima pela ousadia da existência do sujeito diante da história.

Mas, Conde, diga, por favor, aonde você quer chegar. Digo. Eu quero chegar na manchete de hoje [10/7] do jornal O Estado de S.Paulo. Ela diz assim: “Tribunal barra manobra para tirar Lula da prisão”. Atentemos à palavra “manobra”.

O quadro de significados que impregnam esta singela palavra não é trivial. As palavras “recebem” seus significados de acordo, sobretudo, com o contexto. No mundo do automobilismo, por exemplo, “manobra” significaria certamente algo positivo e cercado de virtuosismos. “Que manobra fantástica fez o Vettel”.

O sentido de manobra, no entanto, quando metaforizado, não perde toda a sua dimensão de sentido circunscrita em um efeito literal fundador. “Manobra” tem uma cifra “pesada”, de ação deliberada, física e muscular, assaz humana. “Manobra” vem de “mão”, a “mão” que modifica a realidade com sua ação invasiva e direta. Ele recobre de “subjetividade” todo o tecido discursivo que lhe serve de guarida textual. No automobilismo, isso é bom. No direito, isso é péssimo.

Ao destacar e selecionar essa palavra específica, cirurgicamente pinçada para figurar no topo garrafal de um jornal impresso, que desfila estampado por todas as bancas de revistas espalhadas pelo país, o jornal pratica um gesto de força simbólica e busca impor uma chave interpretativa ao corpo social que consome seu produto noticioso.

É um protocolo legítimo até um certo ponto, pois a pergunta que poder-se-ia fazer é: por que a decisão de um desembargador investido de seu papel de julgador e de poder decisório institucional é lida como uma “manobra” e a de magistrados atrozes, em férias ou recesso, é lida como o direito técnico e profundo?

Na verdade, a “manobra” escandalosa, escabrosa, espalhafatosa que tomou o noticiário de ontem e de hoje não foi a do glorioso desembargador Rogério Favreto, foi a do “segmento político” do judiciário que, em gestos desesperados e tresloucados, ganharam um protagonismo deprimente na arte de espancar o direito estabelecido pelo campo do direito. “Manobra” é isso.

Moro, Gebran e Thompson foram verdadeiros pilotos de Fórmula 1 neste estranho e histórico domingo brasileiro. Thompson chegou a lembrar a maior manobra já realizada na história da Fórmula 1, a ultrapassagem de Piquet em cima de Senna no GP da Hungria de 1986. Aquilo sim foi uma “manobra”.

Moro e Gebran, por sua vez, ficaram como retardatários, porque suas manobras, ainda que “manobras”, não tiveram sucesso. Moro, inclusive, fez uma manobra digna de Rubinho Barrichello. Ou: é uma manobra mal sucedida que vai lhe custar muitas posições no Grande Prêmio do assalto à democracia e aos direitos civis e eleitorais de um ex-presidente.

O Estadão, na sua ingenuidade em achar que ninguém vai perceber sua “manobra” lexical-discursiva, manchetada com requintes de mau caratismo e obsolescência jornalística – já que é uma linguagem que agoniza diante da plurivocalidade da internet – cai no ridículo da fantasia turbinada de uma imprensa perdida, ainda procurando a placa da “greve dos caminhoneiros que a atropelou” (palavras da ombudsman da Folha de S.Paulo, Paula Cesarino Costa).

Esse uso delinquente de “manobra” se associa a outro espancamento da realidade factual, há pouco estopim de uma execução institucional. As “pedaladas” fiscais que serviram de pretexto para se arrancar uma presidente honesta do poder são um faber sub jornalístico da mesma família: “pedalada” tem sua morfologia baseada na palavra “pé”, que lhe serve de base lexical.

Ela significa, no mundo do ciclismo, algo igualmente positivo, como “manobra” no automobilismo. Mas, abduzida para a cena política, ela passa a veicular cifras negativas de ação humana (o pé) e contamina todo o discurso que a circunda e a abriga.

É por isso que a guerra não é apenas semiótica ou narrativa. A guerra é lexical-discursiva. A “palavra” (o lexema) é um elemento extremamente eficiente como bastião avançado de retóricas agressivas e simplistas. É através da palavra que os outros embates se dão. A palavra funda uma discursividade, ela demarca zonas de operação e delimita as fronteiras para a atuação do argumento, seja ele frágil ou não.

A seleção da palavra pelas mídias, tradicionais ou alternativas, é extremamente relevante para que se possa entender com qualidade o que está em jogo na disputa política do Brasil neste momento.

A palavra e seu poder descomunal de direcionar sentidos e ativar memórias vem devastando o debate público do Brasil nessas últimas duas décadas. Devasta – e não é uma mera disputa legítima de intepretações – porque simplifica.

Devasta porque adentra o terreno obscuro dos inconscientes, do irracional, do irrefletido. A “palavra” selecionada e má intencionada tem o poder de inocular pressupostos e arrastar até os mais insuspeitos intelectuais para a zona perigosa dos rótulos e do preconceito.

“Mensalão”, “pedalada”, “petralha”, “manobra” são obuses na conflagração dramática e sangrenta de disputa real de poder. “Manifestoche” e a já lexicalizada “LulaLivre” são a resposta ainda incipiente diante da extrema violência sígnica e física que os adeptos do golpe insistem em fazer valer na impossibilidade de vencer Lula com argumentos e dentro de uma disputa democrática e transparente.

A síndrome de derrota eleitoral e narrativa, portanto, é ainda o que determina a situação do embate público brasileiro. O golpe está acuado e morrendo de medo, pois carece de conteúdo (só lhe restam as palavras, isoladas). Ontem, nós tivemos uma aula sobre essa percepção. O desespero de Moro, Gebran, Thompson e Globonews foi qualquer coisa de pedagógico.

A imprensa corporativa brasileira, portanto, está novamente obrigada a colocar “palavras infiltradas” em cena para mobilizar os seus cães adestrados. Esta semana promete ser prodigiosa nesse processo, sobretudo, porque eles perderam mais uma vez a narrativa complexa (e feita de frases inteiras devidamente encadeadas) acerca da prisão de Lula.

Ontem, Lula não conseguiu sua liberdade, mas deu mais um passo na consolidação histórica de sua força política. Ontem, Lula parou o país mais uma vez.

Gustavo Conde é linguista, colunista do 247 e apresentador do Programa Pocket Show da Resistência Democrática pela TV 247.

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