No Rio de Crivella, o bispo engoliu o prefeito

Bernardo Mello Franco em 8/7/2018

Na campanha, Marcelo Crivella disse que não misturaria política e religião. A promessa não resistiu a um ano e meio de governo. O bispo engoliu o prefeito, que passou a usar o cargo para oferecer facilidades aos irmãos de fé.

Crivella já havia cortado incentivos a eventos como a Parada Gay e a procissão de Iemanjá. Na quarta-feira, escancarou o jogo ao reunir cerca de 250 pastores no Palácio da Cidade. “Vamos aproveitar esse tempo em que nós estamos na prefeitura para arrumar nossas igrejas”, disse, em discurso gravado pelo O Globo.

Num município em que milhares de pacientes esperam cirurgias, o prefeito ofereceu um atalho para os fiéis furarem filas nos hospitais. “Se os irmãos tiverem alguém na igreja com problema de catarata, se os irmãos conhecerem alguém, falem com a Márcia”, disse, indicando uma assessora. “Daqui a uma semana ou duas, eles estão operando”, prometeu.

Ele também destacou um servidor para agilizar a isenção de IPTU a tempos que ocupam imóveis alugados. “Se você não falar com o doutor Milton, esse processo pode demorar e demorar. Nós temos que aproveitar que Deus nos deu a oportunidade de estar na prefeitura para esses processos andarem”, afirmou.

As promessas do bispo ferem o princípio da impessoalidade na administração pública. Quem gere o dinheiro dos impostos não pode favorecer amigos, parentes ou seguidores da mesma crença. Crivella também violou o princípio da publicidade ao oferecer as vantagens numa reunião secreta, em que os convidados foram orientados a não tirar fotos.

Em clima de campanha, o prefeito aproveitou para atacar adversários políticos. “Só o povo evangélico pode mudar este país. “Entre nós, não há corrupção”, afirmou. O discurso é falacioso, porque há gente desonesta entre adeptos de todas religiões.

O ex-ministro Marcos Pereira, bispo da Universal e presidente do partido de Crivella, é duplamente investigado por corrupção. Foi delatado e gravado negociando valores com Joesley Batista. A bancada evangélica no Congresso também tem figurões na mira da Lava-Jato. Até outro dia, era chefiada por Eduardo Cunha, cujas penas já somam 40 anos de prisão.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: