Jamil Chade: Europa coloniza o futebol e deixa os outros continentes para trás

Domínio: Suécia e Inglaterra, exemplos da força europeia na Copa. Foto: Sergei Ilnitsky/EFE.

Uefa tem o domínio europeu e deixa América do Sul com as glórias do passado.

Jamil Chade, via Estadão on-line em 7/7/3018

Numa das áreas mais nobres de Moscou, as federações de futebol de países sul-americanos criaram uma espécie de embaixada transformada em museu das grandes conquistas de Brasil, Argentina e Uruguai, entre outros. Mas, quando a Copa do Mundo terminar, no dia 15 de julho, o futebol completará seu quarto Mundial seguido com conquista europeia e a Conmebol continuará apenas com as fotos de seu passado glorioso.

Com quatro seleções nas semifinais, a Europa se consolida como o epicentro do esporte. Mas o protagonismo inédito dos europeus não ocorre apenas no torneio mais importante de seleções. Isso acontece também nos Mundiais Sub-20 e Sub-17, com os torneios de clubes, além das finanças do esporte e até mesmo no calendário internacional.

Os dados não deixam dúvidas de quem hoje domina o futebol. Brasil foi o último sul-americano a ganhar uma Copa, em 2002. Itália em 2006, Espanha em 2010, Alemanha em 2014 e outro europeu em 2018 estabelecerão o período mais longo da história das Copas sem a conquista de um sul-americano.

O futebol de base, porém, também tem visto um forte domínio europeu, o que aponta que as conquistas podem continuar no nível profissional. No Mundial Sub-20, a França bateu o Uruguai na final, em 2013, seguido pela conquista da Sérvia superando o Brasil em 2015 e a Inglaterra vencendo a Venezuela em 2017.

Entre os clubes, o domínio é ainda maior. Nos últimos dez anos, todas as edições do Mundial da Fifa foram vencidas por europeus – salvo em 2012, quando o Corinthians bateu o Chelsea. Centro do poder e do dinheiro do futebol internacional, a Europa forneceu 75% dos jogadores que estavam na Copa em 2018, um número recorde.

Na Uefa, esses números que são apresentados à exaustão em negociações com a Fifa e na definição de calendários internacionais. “Temos o melhor futebol do mundo”, insiste Aleksander Ceferin, presidente da Uefa. Desde 1982, quando as semifinais foram recriadas na Copa, 31 dos 40 times que passaram para essa fase foram europeus.

Na entidade europeia, a explicação dada para o sucesso tem uma relação direta com os recursos investidos, estabilidade e um plano claro para tornar o futebol uma atividade rentável para, justamente, garantir mais investimentos. Segundo dados da Uefa, 26 das 54 ligas nacionais europeias estão dando lucro. O nível de dívidas dos clubes caiu de 65% em 2011 para 35% em 2017.

“Durante estas duas décadas sem ganhar uma Copa, acompanhamos a evolução de clubes e seleções europeias na parte técnica e coletiva e presenciamos a transformação da qualidade de jogo de Inglaterra, Espanha, Alemanha, França e Bélgica”, disse Eduardo Tega, consultor técnico em desenvolvimento e inovação no futebol, que atua em federações na Europa.

Segundo ele, a Uefa introduziu em 2008 o processo obrigatório de qualificação de treinadores e, em 2004, o Sistema de Licenciamento de Clubes. Trata-se de um conjunto de critérios a serem preenchidos para que os clubes possam participar de suas principais competições e acabou incorporado ao modo como os clubes e as federações europeias operam e tomam suas decisões. “A CBF dará início à adoção destes processos a partir deste ano”, disse. “Estamos atrasados três Copas em relação aos europeus.”

Marcos Motta, advogado e um dos principais nomes da administração do futebol internacional atual, destaca que a Europa hoje é “o maior mercado do mundo”. “Lá estão as melhores ligas e os melhores jogadores.”

Sem citar o nome do cliente, Motta contou como um jogador de seleção foi se reunir com dirigentes de um clube europeu. “Na mesa, colocaram dois envelopes. Não eram propostas financeiras. Eram as tabelas dos campeonatos locais e continentais. A do clube brasileiro era só jogo de campeonato estadual. A do clube pretendente eram três dérbis da maior liga do mundo e dois jogos de Liga dos Campeões no mesmo período”, disse. “Isso não é demérito do Brasil, mas mérito da Uefa e da Liga nacional.”

Carlos Alberto Parreira, recordista em participações em Copas, disse ao Estado que não acredita “numa supremacia técnica europeia”. “Continuamos sendo muito bons.”

O ex-ministro dos Esportes, Ricardo Leyser Gonçalves, tem outra avaliação. “Não vejo esse fato como resultado da decadência do futebol não europeu”, disse, lembrando da queda precoce de Alemanha e Portugal, além da ausência de Itália e Holanda na Copa. Em sua avaliação, Japão e Irã mostram que o futebol está se desenvolvendo em outras partes do mundo. Mas admite que os europeus estão jogando mais parecido com a habilidade dos sul-americanos. “A imigração africana fez muito bem para o futebol europeu.”

Amir Somoggi, diretor da empresa brasileira de marketing esportivo Sports Value, insiste no aspecto econômico, com a transferência de craques para um só mercado, na Europa. “Nossa seleção é um apanhado de bons jogadores, mas que na seleção rendem pouco”, aponta. “Falta consciência tática, que sobra aos europeus, que formam cada vez melhores jogadores, e estão nos deixando para trás.”

Questionado sobre a força do futebol europeu, o técnico uruguaio Oscar Tabárez ironizou: “Não me pergunte sobre algo que é evidente”. Segundo ele, “a realidade do ponto de vista financeiro e histórico não pode ser ignorada”. Campeão em 2002 e dirigente do Barcelona, Edmílson define com uma palavra o domínio europeu: “organização”. “Dinheiro existe. Não existe é um plano.”

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