O governador e o filantropo: A lucrativa parceria entre Sérgio Cabral e Eike Batista

Bernardo Mello Franco em 4/7/2018

Há dez anos, Eike Batista fez sua estreia como alvo da Polícia Federal. O empresário teve a casa vasculhada na Operação Toque de Midas. Era suspeito de se beneficiar de fraudes na licitação de uma ferrovia no Amapá.

Eike contratou o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, que era considerado o advogado mais caro do país. Mas seu principal defensor foi Sérgio Cabral. Dias depois da batida da PF, o governador abriu o Palácio Guanabara para homenageá-lo.

“Vá em frente. Os seus negócios são maravilhosos. Você é um homem limpo”, desmanchou-se. “Você anda de cabeça erguida na rua porque você é um brasileiro extraordinário, um carioca extraordinário”.

Empolgado, Cabral citou Max Weber, Nelson Rodrigues e Tom Jobim para exaltar as virtudes de Eike. “Você é o anticomplexo de vira-lata”, festejou. “É um filantropo”, prosseguiu. “É um exemplo para nós. Um orgulho para o Rio de Janeiro”, arrematou. O empresário ficou tão sensibilizado que chorou diante dos fotógrafos.

Ontem [3/7], o juiz Marcelo Bretas condenou Cabral e Eike por corrupção e lavagem de dinheiro. O ex-governador pegou mais 22 anos de cadeia. O ex-bilionário foi sentenciado a 30. Ele já passou três meses preso, mas foi libertado por Gilmar Mendes.

Em 119 páginas, a sentença descreve uma relação de promiscuidade, troca de favores e “comércio da função pública”. Na transação mais explícita, Eike depositou US$16,5 milhões numa das contas que escondiam a fortuna de Cabral no exterior.

O empresário também patrocinou campanhas, bancou mordomias e manteve um jatinho à disposição do político. Uma única viagem às Bahamas custou mais de R$600 mil, conta Malu Gaspar no livro Tudo ou Nada. O roteiro incluiu idas e vindas para buscar governador, primeira-dama, crianças e babás.

O filantropo tinha interesses bem materiais. Queria garantir influência, liberar licenças e agilizar os empreendimentos no estado. Cabral se comportava como um despachante de luxo, e usava a máquina oficial para facilitar os negócios do amigo.

A relação era tão escancarada que o governador fazia piadas em público. “Vamos anunciar nos próximos dias que o Vasco da Gama passa a se chamar Vasco X”, disse, na solenidade de 2008. Por um bom dinheiro, ele venderia até seu time de coração.

***

EIKE, QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ
Via Correio Braziliense em 4/7/2018

Eike Batista, fundador do Império X, bem que ensaiou, ancorado em redes sociais, uma volta para o mundo dos negócios, mas não deu. Ontem [3/7], o juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, do Rio, condenou o empresário a 30 anos de prisão por corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

Eike também terá de pagar multa de R$53 milhões. E pensar que até seis anos atrás o empresário aparecia na lista da Forbes como um dos nomes mais ricos do mundo. Ironia ou não, em um dos vídeos mais recentes publicados no seu canal no YouTube, onde aparece como uma espécie de guru empresarial, o ex-bilionário fala da importância da perenidade nos negócios e oferece sua plataforma para a venda de cursos de oratória da rede de franquias Vox2You. Mas perenidade não é exatamente o ponto alto de sua trajetória. Das cinco principais empresas do Império X, duas delas tiveram o controle vendido e três estão em recuperação judicial.

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