Lopez Obrador, seu referendo e o republicanismo imprudente da esquerda

Lopez Obrador, o presidente eleito com maior respaldo na história do México

Carlos Fernandes, via DCM em 3/7/2018

A vitória do esquerdista Andrés Manoel Lopez Obrador para a Presidência do México é uma lufada de esperança democrática e progressista para toda a América Latina.

Após duas derrotas consecutivas em 2006 e 2012 em disputas para o executivo nacional mexicano, AMLO, como é conhecido, viu finalmente triunfar de forma inequívoca o seu projeto de governo com acachapantes 53% dos votos (dados com 94% da apuração concluída).

A sua ascensão ao poder já é comparada com a de Lula no Brasil em 2002. Algo realmente notável. Essa, inclusive, será a primeira vez que o único país latino-americano da América do Norte experimentará um governo de esquerda.

As expectativas, claro, são imensas. Os desafios, por sua vez, não são menores.

Nesse contexto, Obrador deveria ter em mente (e não ignoro que de fato tenha) que simplesmente não pode errar. Do sucesso de seu mandato depende um futuro mais justo socialmente para todo o seu povo.

E para que esse sucesso seja efetivo convém, e aqui no Brasil sabemos todos, não dar oportunidade aos oportunistas.

Por mais democrático que possa soar aos nossos ouvidos, dispor a sua permanência na Presidência da República a um referendo popular, como quer o atual presidente eleito, é um erro que poderá e será largamente explorado pela oposição.

No México não há reeleição. O mandato presidencial dura 6 anos.

Segundo a agência de notícias Reuters, Obrador anunciou que na metade do seu governo, após três anos portanto, fará uma consulta pública para saber se o povo quer a sua permanência. Caso reprovado, renunciará de bom grado ao seu cargo.

É uma imprudência tão descomunal quanto desnecessária.

Primeiro porque o regime democrático já dispõe de um mecanismo muito eficiente para que a população avalie e destitua seus representantes se assim julgar necessário. Costumam chamá-la de eleições livres, diretas e regulares.

Segundo porque num país historicamente governado pela direita e, tal como o Brasil, dominado por uma elite covarde, preconceituosa e determinada a proteger seus privilégios, não faltará quem tente ludibriar a população “denunciando” o “perigo comunista” num país católico.

Daí para se ter um bando de imbecis vestidos com a camisa da seleção ocupando as principais avenidas do país a gritar que a bandeira mexicana “jamais será vermelha” (ou totalmente vermelha, no caso) será um pulo.

A Televisa, uma espécie de Rede Globo mexicana que comanda um conglomerado da mídia nacional, eles já possuem. Se tiverem um Aécio a desfilar entorpecido pelas praias cristalinas de Cancún, está dada a receita de uma desestabilização institucional no país.

Obrador tem tudo para fazer um governo histórico e libertador no México. Mas para tanto, é insuficiente que copie os inquestionáveis e gigantescos acertos de Lula, Dilma e do PT no Brasil. É imprescindível que evite cometer os seus erros.

Dentre todos eles, talvez o mais fatal foi justamente o desse republicanismo imprudente.

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