Leandro Fortes: “Jornalismo virou uma profissão de tarefeiros”.

Tite não deixou Neymar responder a pergunta de um repórter e o repórter achou normal.

CABRESTO
Leandro Fortes em 3/7/2018

Desde que a profissão de jornalista passou a ser uma extensão dos cursinhos de trainee das grandes corporações de mídia, o servilismo às fontes passou a ser amplamente naturalizado.

O general diz: estão proibidas perguntas sobre a intervenção no Rio, e a manada toda obedece, ruminando as perguntas que trouxe da redação, redigidas por editores que cuidam do estoque de feno.

Agora, foi a vez de Tite, técnico da seleção, proibir Neymar de responder a uma pergunta feita, durante uma coletiva, sobre os insultos do técnico do México contra ele.

E o repórter aceitou, assim, calado, quando o normal era ter reagido, com indignação, e repetido a pergunta até o circo pegar fogo.

Jornalismo virou uma profissão de tarefeiros.

***

OS MORALISTAS SEM MORAL: NEYMAR, TITE, O TÉCNICO DO MÉXICO E MARCOS VINÍCIUS
Gustavo Conde em 3/7/2018

Achei a fala de Osório, técnico do México, sobre Neymar, impecável. Equilibrada, correta, ética. Os “cães de guarda” da imprensa patriota brasileira que o criticaram fizeram o habitual serviço sujo e grátis para o submundo dos patrocinadores e dos interesses marqueteiros.

Eles se apegaram à palavra “homem”, citada por Osório para definir a natureza da arte de jogar futebol. Acusaram-no de machista. Não é uma leitura equivocada: é má-fé. Às vezes, eu tenho pena do nível de mediocridade de alguns funcionários-padrão da imprensa esportiva e da cena do comentário em geral. Gente importante que não tem vergonha de se expor com seu nível de sub interpretação de texto.

“Homem” não significa apenas “macho”, queridos neymaretes. “Homem” significa “caráter”. Não que eu queira que a palavra signifique isso. Quem produz processos de significação é a história. E se a história é misógina – e é – um enunciador não deve pagar individualmente pela significação múltipla das palavras. Para isso, existe o debate e o direito ao contraditório.

Para isso, existe a leitura global, do conjunto do “texto” (da fala de Osório, no caso), da unidade de sentido que um enunciador produz, gerenciado os significados das palavras e das sentenças. Em pleno século 21, um jornalista profissional não pode se dar o luxo de ignorar esse processo básico de interpretação de texto.

Osório deixou claro que o que falta a Neymar é caráter, não “virilidade”. Neymar é um péssimo exemplo às crianças, sim. É um péssimo exemplo a adultos, a adolescentes, a idosos. Disse e repito: perto de Neymar, Macunaíma é um gentleman, revestido de caráter e honra por todos os poros.

A simulação de Neymar com o pisão do mexicano (que deve ter doído, claro) é um dos momentos mais sórdidos do teatro e do esporte mundiais. É um nojo. É repulsivo. É estarrecedor. É a mediocridade em sua mais ampla e irrestrita emanação.

Nem a criança de 5 anos mais mimada do mundo é capaz de um escândalo deprimente daqueles. Neymar merece a execração mundial e o castigo de jamais ser o “melhor do mundo”, rótulo que ele busca obsessivamente desde que foi jogar na Europa. Sintomática essa “busca”, por sinal.

Vendo Neymar e sua antipatia desproporcional nesse mundo já tão antipático da bola, eu me lembro de Marcos Vinícius da Silva, 14, garoto que foi assassinado com um tiro da polícia no Rio de Janeiro. Esse garoto, morrendo, não chorou. Apenas disse à mãe: “Eles não viram que eu estava com o uniforme da escola?”.

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