As repulsivas reações no Brasil diante da mais nova crueldade de Trump

João Filho, via The Intercept Brasil em 24/6/2018

Em meio a crise de refugiados na Europa em 2015, o então primeiro-ministro britânico David Cameron se referiu aos imigrantes que tentavam entrar na Inglaterra como um “enxame de pessoas”.

Nessa semana, Donald Trump usou também uma metáfora com insetos para se referir à chegada de imigrantes nos EUA: “Infestação”.

A escolha semântica revela a forma desumana com que alguns líderes de nações ricas encaram aqueles que arriscam suas vidas em busca de melhores oportunidades. São tratados como se fossem insetos que ameaçam o conforto do mundo civilizado. Nem sempre Donald Trump lança mão de metáforas desumanizadoras. Muitas vezes ele consegue ser repugnantemente franco. Em reunião com congressistas sobre a reforma migratória no começo deste ano, perguntou “Por que todas essas pessoas de países de merda vêm para cá?” Ao mesmo tempo, sugeriu que os Estados Unidos deveriam receber imigrantes de lugares como a Noruega. A gente sabe o que isso significa.

Mesmo conhecendo o histórico do presidente norte-americano, não houve quem não se chocou com aplicação de política de tolerância zero contra a imigração ilegal. Adultos que entram ilegalmente são presos para aguardar um julgamento. Crianças são mandadas para abrigos do governo, que muitas vezes ficam em outros Estados. Boa parte dos pais e mães presos desconhecem o paradeiro de seus filhos. Em 6 semanas, pelo menos 2.300 bebês e crianças foram separados de seus pais e abrigadas em jaulas. Desses, 49 são brasileiros.

Essa flagrante violação dos direitos humanos de brasileiros no exterior não foi suficiente para fazer Michel Temer dar alguma declaração. Até o Papa repudiou a ação do governo Trump, mas o presidente brasileiro simplesmente ignorou o assunto. É como se ele tivesse vestido o mesmo casaco de Melania Trump, usado em visita às crianças separadas de seus pais, com os dizeres “I really don’t care. Do you?” (“Não estou nem aí. Você está?”)

O nosso chanceler Aloysio Nunes também evitou a fadiga e preferiu usar suas redes sociais para falar sobre o assunto preferido da política externa brasileira: Venezuela. Como é de conhecimento geral, se Maduro tivesse separado crianças brasileiras de suas famílias, Aloysio certamente estaria babando contra o bolivarianismo. Só após o recuo de Trump em separar as famílias, o Itamaraty se limitou a emitir uma nota protocolar que começa dizendo que o “governo brasileiro acompanha com muita preocupação” e aponta medidas administrativas que irá tomar.

O recado é apenas de preocupação. Dezenas de crianças brasileiras estão tendo direitos violados, e o governo brasileiro não toma uma postura política firme, tratando tudo de forma burocrática. Nem uma crueldade dessa envergadura foi capaz de abalar a fidelidade canina do governo Temer aos EUA.

Crianças que foram separadas de seus pais em abrigo no Texas. Foto: Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA.

Trump foi pressionado internacionalmente e internamente, inclusive por republicanos, o que motivou um recuo parcial. Enquanto isso, na câmara brasileira, o deputado cristão pastor Marco Feliciano defendia com fervor a ação do governo norte-americano. Ele começou dizendo que é um “entusiasta de Trump”e que foi “estudar o assunto”, mas logo em seguida emendou com uma série de bobagens próprias de quem não estudou o assunto.

Depois de dizer que a esquerda norte-americana foi quem criou a lei que determina a separação das crianças dos pais, afirmou que “Donald Trump apenas fez cumprir a lei”, o que é mentira. Não existe nenhuma lei nesse sentido. Até o início dessa política de tolerância zero, governos democratas e republicanos jamais separaram famílias de imigrantes ilegais que chegavam nos EUA. Mas, mesmo que houvesse uma lei, é estarrecedor imaginar que um parlamentar brasileiro, ainda mais um pastor, defenda a crueldade da ação da qual seus compatriotas estão sendo vítimas.

Crianças e bebês estão sofrendo danos psicológicos irreparáveis, mas Feliciano, sempre muito preocupado com fetos humanos, prefere defender o indefensável e transformar uma questão humanitária em um conflito entre direita e esquerda. A pobreza de espírito desse nobre cristão foi capaz de fazê-lo elogiar Trump também por ter se retirado do Conselho de Direitos Humanos da ONU: “Ele é macho. Tem coragem de tomar atitudes que o Brasil e o mundo precisariam tomar”.

A coluna de Rodrigo Constantino na Gazeta do Povo parece ter sido a única fonte de estudo de Feliciano. Trumpista de carteirinha, o colunista residente da Flórida escreveu um texto perturbador intitulado “Trump não está separando filhos dos pais, mas apenas cumprindo a lei”. A linha de defesa adotada por esses reacionários brasileiros lembra muito a dos nazistas no Tribunal de Nuremberg: eles estariam apenas cumprindo ordens.

Analogias com o nazismo são sempre temerárias, mas as recorrentes práticas de Trump são merecedoras. Para o filósofo Theodor Adorno, “a incapacidade de identificação foi, sem dúvida, a condição psicológica mais importante para que pudesse suceder algo como Auschwitz entre homens de certa forma educados e inofensivos”.

Quem tem relação amigável com supremacistas brancos, faz analogia de imigrantes com insetos, chama países pobres de “merda” e considera aceitável separar um bebê da sua mãe em nome da ordem interna não possui capacidade de identificação e flerta com os mesmos mecanismos do nazismo. E quem defende por questões ideológicas, como Felicianos e Constantinos, ou se omite, como o governo brasileiro, também.

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