Brasil perde o carinho dos que não têm para quem torcer na Copa

A Rússia é a mais rejeitada. Inglaterra e Alemanha vêm depois. Por motivos bem diferentes.

O jornal britânico The Guardian perguntou: de quem é a torcida dos aficionados da bola sem seleção na Rússia?

Nirlando Beirão, via CartaCapital em 17/6/2018

O Brasil perdeu, definitivamente, a condição de queridinho dos fãs do futebol, aqueles que pelo mundo afora viam na Seleção verde-amarela, em contraposição aos retrancados adeptos do “futebol de resultado”, a excelência do “jogo bonito”.

Um encantador filme produzido no Butão (A Copa, de 1999, dirigido por Khyentse Norbu Rimpoche) mostrava as artimanhas de dois monges noviços para burlar a vigilância do mestre budista e assistir à final da Copa de 1998, na qual torciam para o Brasil do convulsionado Ronaldo. Foi-se o tempo e, na verdade, o vexaminoso 7 a 1 em casa apenas reiterou o desencanto global com os canarinhos do Galvão Bueno.

O jornal britânico The Guardian saiu a campo para saber, pela internet, para quem estarão torcendo – a favor e contra – os aficionados da bola, cujas seleções não vão à Rússia. De cara, é bom contar que os argentinos, graças a Lionel Messi, auferem muito maior simpatia do que os brasileiros, por culpa de Neymar. Ninguém mencionou a brigada de Tite entre os eleitos do coração.

Nem sempre a motivação para torcer a favor – e, principalmente, contra – tem a ver com o futebol. A alta rejeição ao English Team vem, em especial, dos escoceses, irlandeses e galeses, vizinhos, mas rivais históricos tradicionais. Aquela antiga colônia de além-mar, os Estados Unidos, tampouco tem os ingleses em alta conta.

O mesmo vale para os neozelandeses em relação aos australianos e os países nórdicos excluídos da Copa, ou seja, Noruega e Finlândia, perante os suecos. E, claro, quem tem mais ojeriza aos espanhóis são os catalães, que entraram na enquete do Guardian como um país à parte – bem à parte.

Razões geopolíticas é que levaram os anfitriões russos ao primeiro lugar entre os refugados. A boa votação negativa da Arábia Saudita vem daqueles que lembram os abusos da monarquia teocrática no quesito dos direitos humanos.

O problema com a Alemanha vem de uma virtude: a paradoxal mania que o país tem de vencer as competições internacionais. Muita gente acha que é hora de dar um basta nisso. E o Brasil? “Gostaria de ter esquecido a final de 2002, a primeira que vi”, declarou um entrevistado de nome Miguel, de El Salvador.

“Minha boa impressão desapareceu em 2014. Eu adorei o 7 a 1.” Outro depoimento que reitera uma voz corrente é o de um equatoriano, Francisco: “Neymar é um sujeito superganancioso a quem não interessa nada, a não ser o dinheiro”. Um entrevistado grego de nome Adam estendeu sua antipatia por Neymar e Cristiano Ronaldo, e acrescentou Portugal em sua lista do contra.

Razões subjetivas, às vezes meramente aleatórias, também podem pautar a torcida a favor. A Bélgica, por exemplo, adquiriu boa estima por seu time, mas não faltou quem, como um depoente austríaco que preferiu o anonimato, lembrasse: “Eles têm boa cerveja e cerveja tem tudo a ver com o futebol”.

Copa do Mundo, para quem está de fora, é a perfeita ocasião para sonhar com o triunfo dos excluídos da bola, as zebras eventuais, os esforçados bailarinos africanos. Na Rússia, o xodó serão os islandeses, em sua primeira Copa do Mundo. Em grande parte, a afeição vem da última Copa Europeia de Seleções, em 2016, quando a Islândia fez bonito – e mais ainda sua torcida, de alegria contagiante. Os italianos, por exemplo, engrossam o coro pró-Islândia, ao mesmo tempo que confessam certo enfado pelo tiki-taka dos espanhóis.

Boa parte do mundo, que há de assistir ao Mundial com a emoção voltada prioritariamente para a beleza do futebol, demonstrou, na pesquisa do Guardian, vontade de ver reparada uma enorme injustiça: torcem para que a Argentina brinde a Messi a única honraria que ainda não tem, em seu cartel de vitórias. Sempre que se mencionou a Argentina, falou-se do craque do Barcelona. “Se Messi quer se consagrar definitivamente como o melhor craque do mundo” – observa o turco Yaman – “vai ter de levantar aquela taça.”

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