Bernardo Mello Franco: A xenofobia bate à porta

Bernardo Mello Franco em 20/6/2018

Nunca houve tantas famílias obrigadas a deixar a sua terra natal. A ONU informou ontem que o número de pessoas deslocadas à força chegou a 68,5 milhões em 2017. A crise humanitária pôs o tema dos refugiados no centro do debate político dos países desenvolvidos.

Na Europa e nos EUA, a xenofobia voltou a ser uma poderosa arma de campanha. Donald Trump chegou à Casa Branca com a promessa de construir um muro para barrar a entrada de mexicanos. No Reino Unido, o discurso anti-imigração levou a população a aprovar o Brexit.

Agora a onda cresce em outros países europeus. Na Alemanha, a reação aos refugiados ameaça o longo reinado de Ângela Merkel. Na Itália, os ultranacionalistas da Liga Norte chegaram ao poder e acabam de anunciar um plano para expulsar ciganos.

Se o leitor já está cansado de más notícias, aí vai mais uma: a xenofobia tem tudo para desembarcar na eleição brasileira. É o que indicam a atuação de grupos radicais na internet e o discurso do candidato que lidera as pesquisas.

No ano passado, militantes de ultradireita fizeram barulho contra a nova Lei de Migração, que assegurou direitos básicos aos imigrantes. O texto teve apoio suprapartidário: foi apresentado por um senador do PSDB e relatado por um deputado do PCdoB. Isso não conteve os protestos. Uma marcha na Avenida Paulista terminou com quatro detidos.

O presidenciável Jair Bolsonaro tenta surfar a onda da intolerância. Ele chamou de “escória do mundo” imigrantes de países como Haiti e Síria. Depois defendeu a construção de campos de refugiados para isolar venezuelanos em Roraima, sob a alegação de que “já temos problemas demais”.

Quem estuda o tema a sério garante que a imigração está longe de ser um risco para o Brasil. O economista Leonardo Monastério, do Ipea, lembra que o país tem apenas 0,9% de estrangeiros – nos EUA, são 14%. Ele elogia a nova lei e afirma que o país se beneficiou da última grande onda imigratória, encerrada em 1920.

“Se o Brasil não tivesse recebido tantos italianos, japoneses e alemães, nossa renda per capita seria 18% menor”, diz Monastério, com base num estudo que pretende apresentar em agosto no Insper. “E esses imigrantes sofreram o mesmo preconceito que nós vemos hoje”, observa.

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