Primeiro ano de Temer foi o pior em infraestrutura nos últimos 10 anos

Para ex-ministra do Planejamento, Miriam Belchior, números são resultado da queda brusca no investimento público e bancos públicos fechados ao financiamento.

Patricia Faermann em 10/6/2018

O Brasil teve em 2016 o pior desempenho em infraestrutura nos últimos 10 anos. De acordo com a Pesquisa Anual da Indústria da Construção (Paic), do IBGE, divulgado nesta semana sobre os dados do ano em que Michel Temer assumiu o mandato, no caso de grandes obras houve uma queda de 22,1% em relação ao ano anterior.

Naquele ano, em que ocorreu o impeachment de Dilma Rousseff e assumiu Michel Temer já modificando toda a agenda e políticas da gestão anterior, o discurso do mandatário a favor da empregabilidade, obras e construções não emplacaram com os números.

No desempenho de grandes obras de infraestrutura, o valor de tudo o que foi feito no país foi de R$99,2 bilhões. Isso é uma queda de 22,1% em relação a 2015 e o pior resultado nos últimos 10 anos. Em 2007, essas grandes construções movimentaram R$111,6 bilhões em valores atualizados de 2016 para equidade de comparação.

“A restrição ao crédito para o financiamento e infraestrutura, que tem o sufocamento tanto do BNDES quanto da Caixa (infraestrutura e a questão de habitacional), e redução brutal dos investimentos públicos, seja com recursos do Orçamento geral da União, seja feito pelas estatais, as duas coisas foram muito fortes para derrubar o investimento”, manifestou a ex-ministra do Planejamento, Miriam Belchior.

E estes são os dados apenas de Obras de infraestrutura. O Paic registra também a atividade da construção de edifícios e de serviços especializados da construção. De acordo com o levantamento, a atividade de construção como um todo faturou R$318,7 bilhões no país, isto é R$126,2 bilhões a menos do que em 2014, quando a receita foi de R$444,9 bilhões.

A consequência disso foi uma queda de 601 empresas ativas no setor em dois anos, que passaram a não exercer mais atividade por falta de opção. E com elas, 880 mil vagas de emprego foram perdidas, de 2014 a 2016. Ainda, os salários dos ativos também diminuíram 5% em sua média mensal, passando a R$2.235,16 mil em 2016.

Para a ex-ministra e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, a resposta para este cenário veio da queda brutal do acesso ao financiamento para a infraestrutura e o investimento público, que caiu vertiginosamente. “A soma desses dois fatores dá esse resultado. E, no ano que vem, quando eles apresentarem para 2017, vai se mostrar que piorou ainda mais”, disse ao GGN.

“Se a gente olhar a questão do financiamento, a política de ajuste promovida pelo governo ilegítimo está sufocando os bancos públicos, no caso de infraestrutura o BNDES e a Caixa. Os empréstimos do BNDES caíram 35%, de 2015 para 2016, prejudicando, por exemplo, os investimentos das concessões de rodovias realizadas pela presidenta Dilma”, afirmou.

A ex-ministra, que ocupou a pasta do governo Dilma entre 2011 e 2015, quando passou a presidir a Caixa naquele ano, e deixando o cargo com a entrada de Temer, lembrou que mesmo as empresas que já tinham contratos, por exemplo, de concessão e precisavam fazer investimento, não estão conseguindo acesso ao financiamento, que deve ser mais barato para a infraestrutura, durante o governo Temer.

Fator crise: como lida o governo eleito e o atual
Ao considerar o quadro econômico do país em 2016, de retração de 3,6% do PIB ao ano, e da previsão negativa de déficit primário das contas públicas, ainda em fevereiro, quando se esperava fechar em R$60,2 bilhões e em março ampliando a estimativa para R$96,7 bilhões, a ex-ministra considerou que este não é o único responsável para o cenário visto, agora, na infraestrutura.

Ex-ministra do Planejamento Miriam Belchior.

“É claro que a crise tem um fator, só que eu posso lidar de várias maneiras. Em 2009, o ex-presidente Lula lidou com a crise criando o Minha Casa, Minha Vida, para fazer as empresas produzir habitação e gerar emprego. A atitude, a política adotada agora é completamente diferente”, manifestou. “É a diferença de atitude entre o governo ilegítimo e o governo eleito”, completou.

Belchior afirmou que não se pode alegar, tampouco, que se trata de um resultado de um ano não completo, por Temer ter iniciado sua gestão em maio daquele ano. “Os financiamentos caíram também em 2017, portanto não é só em 2016, que contou com algumas características específicas, mas continuou caindo o investimento. Então, o resultado, quando o IBGE apresentar o ano que vem vai ser de queda também”, continuou.

“Infelizmente, o dado de 2017 vai ser ruim e o de 2018 também. Eu espero que durante esse processo eleitoral se debata a comprovação de dados, que país os brasileiros querem, para eleger um presidente que não queira seguir com essa política que está sendo feita neste momento”, lamentou a ex-ministra.

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DADOS ECONÔMICOS MOSTRAM QUEDAS BRUSCAS EM DIVERSOS SETORES NO GOVERNO TEMER
Patricia Faermann em 11/6/2018

Não foi apenas o setor de grandes obras que foi o diretamente afetado pela falta de investimento do governo Temer, logo em seu primeiro ano de gestão. Os dados da Pesquisa Anual da Indústria da Construção (Paic), do IBGE, divulgada na última semana, trouxeram como a raiz dos problemas para a economia nos últimos três anos a falta de investimento e de acesso ao crédito por bancos públicos, que desencadearam quedas nos mais diversos cenários econômicos desde 2016.

Se por um lado, a infraestrutura teve o pior desempenho nos últimos 10 anos, como mostrou o GGN em reportagem do sábado, dia 10/6, também foram impactados outros recursos, como o crédito imobiliário, com queda de 16%, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o programa Minha Casa, Minha Vida, o Orçamento de Investimento das estatais, a paralisação do Programa de Investimento Logística (PIL), entre outros.

O PAC saiu de R$72,58 bilhões em 2014 para R$44,45 bilhões em 2016. E a queda não foi paralisada no ano do impeachment: caiu para R$30,16 bilhões em 2017. Neste ano, até abril são R$5,55 bilhões. Se o primeiro quadrimestre se repetir, serão R$15 bilhões de despesas do PAC neste último ano do governo Temer.

Este cenário representaria uma queda significativa de 80% dos valores investidos em 2014, até então em subida crescente, pelo Programa criado pelo governo Lula para incrementar o planejamento e o desenvolvimento de empresas junto ao governo, com o Orçamento Geral da União (OGU).

Os dados, que são públicos, foram transmitidos ao GGN pela ex-ministra do Planejamento do governo Dilma, Miriam Belchior. “O Minha Casa, Minha Vida, programa também criado com recursos da União, saiu de R$23,55 bilhões em 2015 para R$8,40 bilhões em 2016, R$3,69 bilhões em 2017, e vai se projetar para R$1,2 bilhão este ano. Acho que mostra bem a queda catastrófica que houve”, relatou.

Além disso, a ex-ministra lembra que os investimentos das estatais, em comparativo de 2000 a 2017, foi de queda brusca até 2016, passando de R$113,5 bilhões em 2013 para R$56,4 bilhões em 2016. Em 2017, mais queda, chegando a R$50,4 bilhões. Desse investimento total público, a Petrobras representa a grande parcela. “O que mostra muito bem o que vem sendo feito na companhia”, acrescentou Miriam.

“Poderia argumentar que não são obras públicas, tem que ser [investimento] no setor privado, está certo, também concordo, por isso estávamos fazendo as concessões em rodovias, ferrovias, aeroportos. Mas eles não fizeram nesses dois anos nenhuma concessão de rodovia e ferrovia, zero. E nós deixamos muita coisa pronta para fazer”, criticou.

Belchior lamentou que muitos projetos foram interrompidos com o impeachment de Dilma Rousseff, que poderiam ser continuados, mas, ao contrário, foram completamente paralisados pela gestão Temer. “Nós estávamos com o PIL [Programa de Investimento Logística] em andamento, fazendo as concessões, eles não fizeram nada. E se fizer alguma não vai sair do papel porque não tem financiamento para isso, porque se os bancos públicos não vão dar financiamento para infraestrutura, os privados é que não vão dar.”

Para a ex-ministra, que ocupou a pasta do governo Dilma entre 2011 e 2015, ano em que passou a presidir a Caixa Econômica até o impeachment da ex-presidente, os resultados hoje vistos são a consequência direta da política adotada por Temer.

“Cortaram gastos públicos, o PAC teve uma execução bem menor do que vinha tendo, os bancos públicos tiveram a possibilidade de oferecer crédito também limitada. Em 2017, que foi um ano cheio, isso se repetiu, com queda brutal tanto do crédito, quanto dos investimentos públicos, que deveriam ser sagrados, que é um dos manuais de economia a importância do investimento para o crescimento”, lamentou.

“Imagina que do Minha Casa, Minha Vida saírem de R$23,5 bilhões [em 2015] para R$1,2 bilhão [este ano], que é intensivo e mão de obra que tem que ir para a construção. Mas o governo não tem a menor preocupação, corta tudo, o que interessa, não sei aonde eles querem chegar”, disse. “Cortar investimento, fazer a PEC do controle de gasto, cortar todos os gastos públicos, sociais e infraestrutura, dá no que dá, a população cozinhando com carvão, voltamos para a idade da pedra”, finalizou.

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