“Jesus é a favor do militarismo”: Três dias em um grupo intervencionista no WhatsApp

Juliana Gonçalves e Emílio Moreno, via The Intercept Brasil em 30/5/2018

Jesus falou “dai a César o que é de César” e, se César era militar, logo Jesus é a favor do militarismo. Essa é a lógica dos mais de 200 membros do grupo “Intervenção Já!”, que acompanhamos no WhatsApp desde o último domingo. O espaço, que apoia a greve dos caminhoneiros, é usado como um depósito de correntes e memes que vão desde uma lista de falsas reivindicações dos caminhoneiros até a um vídeo “comprovando” uma suposta traição de Marcela Temer. Além disso, revela uma espécie de mundo paralelo.

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O link que dá acesso ao grupo circula livremente igual a um rastilho de pólvora em conversas pelo WhatsApp. Entramos por meio dele quando decidimos tentar entender melhor o que pensam e o que falam as pessoas que defendem a volta dos militares ao poder. Existe um misto de nostalgia e um desejo imaginário de que uma ditadura, como dizem os integrantes do grupo, seria a única saída para resolver, num passe de mágica, a profunda crise institucional do país.

A todo momento, pessoas novas aparecem no grupo. Algumas adicionadas pelos próprios membros, outras graças ao link de acesso que corre as redes. Há quem entre e logo desista de acompanhar, seja pelo volume de mensagens – mais de 500 por hora, inclusive durante a madrugada –, seja pelo tom das conversas.

Há desde sequências de vídeos e fotos de caminhoneiros e manifestações a piadas com Michel Temer, textos criticando a esquerda, passagens bíblicas exaltações a militares como o General Villas Boas e mensagens pró Jair Bolsonaro. As publicações trazem tanto indignação com o governo atual, quanto com o comunismo e com quem corre aos postos para abastecer.

A veracidade do material postado é questionada pelos integrantes do grupo com frequência. Conteúdos antigos são reciclados e apresentados como acontecimentos relacionados à greve. Como é possível ver no print abaixo:

No dia 29, um dos participantes publicou um vídeo seguido de uma mensagem sobre 400 caminhoneiros do Chile, Paraguai e da Argentina que teriam chegado ao Brasil para apoiar o movimento. Imediatamente alguém questionou: “Isso preocupa. A troco de que alguém viaja para o Brasil para ficar parado sem gasolina?” Como resposta, um outro membro diz que o questionamento era “fake news”.

A greve é usada como ponto de partida para falar da intervenção – que não era uma reivindicação dos caminhoneiros. Em entrevista ao Huffpost, o presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros, José da Fonseca Lopes, um dos líderes do movimento, afirma que os intervencionistas não permitem o fim da greve. Eles estariam ameaçando quem quer voltar a trabalhar e impedindo o deslocamento de caminhões.

A cada nova atualização surge um “URGENTE” ou “ATENÇÃO”, assim, em maiúsculas mesmo, em alguma mensagem sobre a iminente chegada dos militares a qualquer local do país. No grupo – onde alguns se identificam como caminhoneiros ou familiares de grevistas, mas a maioria não tem relação com o setor e faz campanha para Jair Bolsonaro –, uma parte dos integrantes parece convicta que ninguém vai arredar o pé das estradas enquanto o Michel Temer não cair (clique aqui).

Uma das integrantes, ao que tudo indica, a criadora do grupo no WhatsApp, reclamou do teor de algumas conversas, que segundo ela, não fazem parte do propósito dos intervencionistas. “Estamos perdendo o foco aqui gente, se continuar assim, não vai ter outro jeito. Vou acabar com o grupo. Se for para ficar vendo mentira, basta ficar na frente da televisão vendo as notícias que passam nos jornais.” Outro participante pediu ordem e ironizou: “esse grupo está parecendo a Venezuela. Uma bagunça generalizada”.

A parte mais suja do jogo
Para Pablo Ortellado, professor e pesquisador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, o papel do WhatsApp durante a greve foi exatamente esse, disseminar desinformação e boatos – que ele chamou de “a parte mais suja do jogo”. Quando alguém recebe uma informação que corrobora com aquilo que a pessoa acredita, explica, entra em cena o viés de confirmação. O conceito propõe que o indivíduo absorva mais facilmente alegações que confirmam suas posições ideológicas, mesmo que não sejam verdadeiras.

Uma das últimas mensagens que acompanhamos antes de deixar o grupo na manhã de quarta-feira [29/5] dizia que o jornal espanhol El País havia publicado um artigo questionando como um país que reúne milhões de pessoas em uma marcha gay ou a favor da maconha não se mobiliza contra a corrupção. A postagem não vinha acompanhada de qualquer link que levasse ao texto, porém, os membros do grupo vibraram com o suposto reconhecimento internacional da opinião compartilhada por eles: “bem isso, o povo merece o governo que tem. Vergonha, viu”.

***

POR QUE BOLSONARO ARREGOU?
Leandro Demori, via The Intercept Brasil em 2/6/2018

A essa altura dos acontecimentos, todos vocês já sabem: Bolsonaro arregou. No começo da greve dos caminhoneiros, ele disse que parar estradas era “extrapolar”. Logo depois, inesperadamente ele tuitou em solidariedade a quem parasse estradas:

Um ato bastante sindicalista de quem tem um projeto de lei que prevê quatro anos de cadeia a que… parar estradas. (Por sorte, como quase nenhum de seus projetos de lei, este também não foi aprovado.)

A novela teve ainda outra virada, com o candidato à Presidência se dizendo solidário aos grevistas mas pedindo que a greve acabasse.

Então ficamos assim em um espaço de tempo de poucos dias: condenou trancamento de estradas; prometeu revogar multas por trancamento de estradas; pediu que a greve acabasse.

É claro que Bolsie inicialmente apoiaria uma greve repleta de faixas em apoio à intervenção militar. Assim como também é claro que Bolsie cairia fora dessa mesma ideia quando ela se tornasse mais real do que apenas uma caricatura – as faixas e pedidos por intervenção se avolumaram mais do que o desejado pela propaganda.

O susto foi tão grande que Bolsie chegou a dizer que nunca apoiou intervenção, o que é mentira, mas também é verdade. Ele não desejaria uma ditadura agora, neste momento. Afinal, Bolsie é líder nas pesquisas e tem a chance única – pelo ajuntamento caótico dos astros – de ter um poder que jamais teria caso alguns generais trapalhões decidissem dar um golpe de fato. Bolsonaro, em um distópico governo militar sem eleições, seria quando muito o mordomo do Palácio.

No Facebook, alguém me disse que aquilo tudo estava cheirando mal, como se Bolsie tivesse tomado um puxão de orelha de alguém acima na hierarquia. Se afastar dos intervencionistas que são, por natureza, seus eleitores? Pedir o fim da greve que lhe pareceu a onda perfeita pra culpar o atual governo e o PT ao mesmo tempo? A Piauí chegou a falar em infiltração militar nas manifestações, o que naturalmente preocuparia o establishment do Exército. Isso se formos confiar em arapongas brasileiros.

O que vocês acham que aconteceu? Podem responder a este e-mail com suas teorias da conspiração favoritas. Talvez elas façam mais sentido do que a própria realidade.

Uma resposta to ““Jesus é a favor do militarismo”: Três dias em um grupo intervencionista no WhatsApp”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    n tem mais nada q inventar, era só o q faltava tremnenda aberração isso, ________________________________________

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