O dia em que o Jornal Nacional [não] noticiou o Brasil fora do mapa da fome

Letícia Sallorenzo, a Madrasta do Texto Ruim em 1º/6/2018

Vocês me desculpem, mas depois do mestrado peguei o hábito de transformar referencial teórico em nariz de cera. Então, cêis tudo me dá licença porque eu tenho que falar de Teun van Dijk. Esse holandês arretado é linguista e há décadas estuda o racismo nos jornais europeus. Boa parte da produção dele está disponível para download no site dele (ali no menu à direita).

Então, eu já recomendo que vocês baixem o texto “Ideology and discourse”, e vão direto ao capítulo 5. Esse capítulo traz uma verdadeira receita de bolo sobre como manipular um texto para levar informação distorcida ao seu leitor / espectador.

Tô abrindo esse terceiro parágrafo de nariz de cera pra falar que ele parte da premissa de divisão do mundo em “nós × eles”. A partir daí, ele faz uma tabelinha: enfatize coisas boas sobre nós / tire a ênfase de coisas boas sobre eles; tire a ênfase de coisas ruins nossas / enfatize as coisas ruins deles.

Só aí entram praticamente 80% das reportagens produzidas desde o início do século sobre o PT ou outros partidos / organizações de esquerda. Inclusive a nota locutor do JN de 16 de setembro de 2014 que vou lincar agora. (Pronto! Cabou o nariz de cera!)

A missão é: falar que o Brasil fora excluído do mapa da fome da ONU. O anúncio foi feito pela manhã. Como proceder? Quem estuda telejornalismo sabe que existem três formatos de notícia num telejornal: o VT, que consiste no anúncio da reportagem pelo âncora, daí entra o vídeo feito por um repórter, imagens exclusivas, entrevistas etc. É o formato mais completo e mais elaborado de um telejornal; a nota coberta, que é o texto lido pelo âncora enquanto no vídeo passam imagens da notícia. A reportagem é de terceiros, normalmente agências internacionais. E, finalmente, a nota locutor, que é usada em duas ocasiões: quando a notícia chegou de última hora e não tem imagem, ou quando a notícia é irrelevante.

Pois bem. O Jornal Nacional usou uma nota locutor para falar sobre o Brasil fora do mapa da fome. Eu vou lincar o site e vou pedir encarecidamente que você assista ao vídeo. “Ain, eu oteio a Globuan!” Tá, não tô pedindo pra você amar a Globo. Tô pedindo pra você assistir a 37 segundos de vídeo. Depois volta, sim? O link Táqui.

Voltou? Obrigada pelo esforço! Agora, novamente, vamos tomar um suquinho de maracujá pra acalmar esse coraçãozinho repleto de fel, e vem comigo que eu vou destrinchar esse texto de 530 caracteres e 97 palavras, lido em 37 segundos pelo William Bonner:

O órgão das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura citou o Brasil
[Temos um sujeito simples de 11 palavras. Parabéns aos envolvidos. Depois de Unidas, o espectador não ouviu um verbo e reduziu a atenção para a história. Seis palavras depois, o texto usa o verbo “citar”, acionado por um sujeitão de 11 palavras e o Brasil na função sintática de objeto direto e semântica de tema.

Compare com “O Brasil saiu do mapa da fome, segundo a ONU”. Em sete palavras, a frase disse a que veio. Jogou o que importa lá pro início – estamos falando do Brasil e do que aconteceu com o país – e a ONU ficou pro finalzinho da frase. Mas vamos voltar ao texto original do JN].

como um dos países
[olha que plural sa-fa-do! Foi um doS paísES, ou seja, teve mais país que conseguiu fazer isso!].

que conseguiram reduzir pela metade o número de pessoas que passam fome.
[pra quem é de humanas e faz miçangas, metade é um troço que era 100 e virou 50, ou, mais simples ainda, um troço que era 2 e virou 1. Mas o JN começa a cuspir números a esmo. Ponham reparo].

Vinte anos atrás, 14,8% dos brasileiros viviam na miséria. Agora, esse índice é de menos de 2%, cerca de 3,4 milhões de pessoas.
[vinte com quatorze e oito menos dois por cento dá três vírgula quatro milhões e eu tô cantando Gonzagão: “Eu lhe dei vinte mil réis / Prá pagar três e trezentos / Você tem que me voltar / Dezesseis e setecentos!”. Mas eu sou jornalista, chata, pentelha, mala, irritante e, se tem uma coisa que eu consegui aprender nas aulas de matemática e trago para a vida é regra de três. Bisservem:
Vinte anos antes dessa reportagem estávamos no ano de 1994. A pesquisa “Brasil 1994 população“ no Google nos retorna o valor de 160.260.507 habitantes. Então a gente arredonda pra 160 milhões. 14,8% de 160 é igual a 23,6 milhões de pessoas. (160 está para 100 assim como × está para 14,8. Multiplicando cruzado, × = 14,8 * 160 / 100, ou 23,6 milhões, e eu juro que esse post é sobre língua portuguesa!). O agora, no caso do texto, é em 2014, ano em que a busca do Google “Brasil 2014 população“ nos dá o valor de 202,7 milhões, que a gente arredonda pra 200 milhões porque a gente é de humanas e trabalha com vírgulas em orações, não em números. Então, se 200 milhões equivale a 100%, 3,4 milhões equivale a 1,66% da população, ou seja, menos de 2% da população. Mas o JN informa que essa variação de famintos em 20 anos foi uma “redução de mais da metade”. E lá vamos nós pegar a calculadora de novo, e temos que 14,8 – 1,66 = 13,14. E essa variação a gente calcula que 14,8 está para 100 assim como 13,14 está para X. Multiplicando cruzado, temos um × que vale oitenta e oito vírgula sete por cento, e que Nossa Senhora dos Cabeças de Planilha me abençoe e jogue um raio na minha cabeça se eu estiver errada! (Spoiler: conferi essas contas com dois economistas, um contador e três jornalistas. Todos chegamos ao mesmo valor. Sete pessoas não podem ter errado as contas!)
Então, tudo bem que 88,7% é mais da metade, mas ele tá mais pra “quase cem por cento” do que pra “mais da metade”, né? E vamos voltar ao texto do JN, que ainda não acabou!
]

Segundo a FAO, essa queda se deu por causa da eficiência dos programas de combate à fome.
[E voilà! Em 97 palavras, temos S E T E elogiando o governo! Eficiência + dos + programas + de + combate + à + fome. Essa FAO aí entrou de gaiata na história, porque o texto não explica que FAO e “Órgão das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura” são a mesma pessoa! Teve redator do JN que deixou de ler aquele mandamento do telejornalismo da Globo que determina que um texto seja claro, bem explicado e fácil de ser ouvido. “Ah, mas o vídeo mostra os números aparecendo ao lado do Bonner!” É, mostram. E ajudam a visualizar a coisa? Não, né? Mas calma que a treta vandijkiana “desenfatize as coisas boas deles” vai virar inferência sugerida logo na frase abaixo].

A FAO é dirigida por José Graziano, que implantou o programa Fome Zero durante o governo Lula.
[“A FAO só falou isso do Brasil porque o diretor da FAO é petista!” Não, o JN não disse isso, mas a literatura me permite dizer isso. Inferência sugerida, Geis e Zwicky 1971, e Traugott e Dasher 2002, página 5. Links no meu último post. O texto não escreve literalmente a informação, mas sugere que o ouvinte / leitor chegue a essa conclusão. Ou você tem explicação melhor para esta informação ter sido acrescentada neste ponto do texto? Ah, vamos voltar ao texto do JN, que o final é digno de Hardy Har Har].

No mundo, uma em cada nove pessoas ainda está desnutrida.
[O Brasil reduziu em “mais da metade” o número de famintos, mas oh dia, oh vida, oh azar, Lippy, uma em cada nove pessoas no mundo ainda está desnutrida! Isso é deprimente, e eu vou ficar com esse gostinho amargo de derrota após essa notícia!]

E foi assim que o mais relevante telejornal do país informou ao Brasil que o país havia saído do mapa da fome. Com um texto medíocre repleto de informações imprecisas e leves pitadas sugeridas de fraude internacional.

Ano que vem, o Jornal Nacional completa 50 anos. O Bonner vai fazer uma série especial sobre como o telejornal cobriu os fatos históricos do país. Quero só ver como eles vão explicar esse embuste. “Jornalismo com correção” que não consegue fazer uma regrinha de três decente!

Uma resposta to “O dia em que o Jornal Nacional [não] noticiou o Brasil fora do mapa da fome”

  1. George Mello Says:

    O certo é Discourse and Ideology. Acabo de buscar.

    >

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