Fernando Horta: Ciro Gomes, o candidato que fala bem, é mais do mesmo

A seguir, três textos publicados no Facebook pelo professor Fernando Horta sobre a entrevista do candidato à Presidência Ciro Gomes no programa Roda Viva de 28 de maio.

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Ciro começa a entrevista no Roda Viva com um ato falho e termina ela citando Churchill e Che Guevara. No meio, para fugir de questões espinhosas para os quais não tem ou não quer dar respostas, evoca até o Papa Francisco. Qualquer pessoa informada sabe que Churchill foi uma das personalidades mais contrárias à esquerda no século 20. Foi responsável pela consolidação da Guerra Fria, jogando EUA contra URSS para preservar os interesses coloniais dos ingleses. Machista, racista, conservador e extremamente hábil na retórica, não chega a destoar ver Ciro Gomes indicando “qualquer biografia de Churchill” para o público.

Numa das melhores aparições de Ciro Gomes nos últimos anos, há um programa dele com o jovem apedeuta Rodrigo Constantino, onde Ciro simplesmente reduz o presunçoso rapaz a uma insignificância impressionante. Numa das grandes frases de Ciro, naquela entrevista, ele diz que “não vai aceitar que ninguém lhe diga truísmos” como argumentos. O truísmo é uma verdade auto-evidente (ou sobre a qual recai um grande consenso) que é usada retoricamente como solução para algo, mas que, na prática, ou é impossível de se realizar ou não resolve o problema.

Ciro abusa, em toda a entrevista, dos truísmos e, com uma grande habilidade de comunicação, evoca os grandes momentos de Brizola quando falava muita coisa e não dizia nada. Mas Brizola enfrentou dois golpes e esteve sempre do mesmo lado partidário, é preciso lembrar.

Ciro inicia com um importante ato falho. Perguntado se a situação atual do Brasil, com a greve dos caminhoneiros, poderia vir a ser um “risco” para a democracia brasileira, Ciro, sem titubear, responde que não. Semelhante pergunta (sobre o risco à democracia) havia sido feita para Boulos que, de imediato, afirmou que a democracia brasileira já estava golpeada. O ato falho de Ciro é, na verdade, a tônica da entrevista. É uma forma de emudecer o PT e os últimos 13 anos de governo progressista no Brasil, aos quais Ciro diz que “não concorda com a resultante final” do governo, sem explicar exatamente do que fala: Se atribui ao PT a “corrupção do Brasil” (argumento da direita) ou se não reconhece a mudança social e econômica feita por Lula e Dilma (também argumento da direita). Na prática, Ciro esconde o PT o tempo todo e, quando não pode fazer mais isto – porque provocado pela bancada –, agride misoginamente Dilma e agride também Lula com um conhecido e velho truísmo ao qual devo dedicar um texto em separado: o “projeto de poder”.

No meio, as soluções de Ciro – todas – passam por uma profunda mudança nas bases do Estado brasileiro. Algo que soa muito bem para qualquer progressista e que emudece no Parlamento brasileiro. Para resolver o déficit e desafogar a economia brasileira Ciro afirma que é “só” taxar lucro de empresas, bancos e investidores e aumentar imposto sobre herança. Mais um truísmo que, para quem conhece a história do Parlamento brasileiro, beira à insanidade o fato de se erigir uma solução econômica em cima disto. Se é para ser retórico, prefiro Luciana Genro que prometia “acabar com o sistema financeiro explorador” de uma tacada só.

Outro truísmo de Ciro é eleger o PMDB como o “grande mal” do Brasil. Todos sabemos disso. Mas eles seguem sendo eleitos localmente com máquinas políticas fortíssimas e comandando o país. Ciro diz que vai “acabar com o PMDB” com a ressalva de afirmar usar as “ferramentas democráticas”. É bonito de se ouvir e completamente impossível de se fazer. Mas o mais irresponsável é vender isso como argumento de campanha. Quando questionado pela bancada, Ciro afirma que faz uma “campanha de não fechar portas”, estando aberto ao PSDB, PP e Marina. Ora, a campanha de “não fechar portas” de Ciro é ainda mais extensiva (no âmbito ideológico) do que era a de Lula que ele, Ciro, tanto questiona e agride.

Inconsistências à parte, quando colocado em assuntos progressistas chave como drogas, violência sobre a mulher e direitos LGBT, Ciro pipoca apelando para o “conservadorismo” da sociedade. Veja que, quando interessa, a sociedade e suas forças estruturais são barreiras óbvias (e sabemos que são), mas a mesma postura não aparece quando das “soluções mágicas” das taxações de lucros e herança.

O que fica no final é Ciro escondendo o PT, ofendendo de forma machista Dilma e replicando o argumento ilógico da direita sobre o “projeto de poder”. Só faltou Ciro citar o “Foro de São Paulo”, de resto, o que disse serviria muito bem à direita.

Nenhuma solução de Ciro é nova, muitas foram tentadas e morrem hoje nas gavetas do Congresso. Só de projetos de reforma tributária Lula tem dois dormindo em alguma gaveta e no auge de sua popularidade conseguiu aumentar a Contribuição Social Sobre Lucro Líquido míseros 4% em lei de setembro de 2003.

Tiradas as propostas impossíveis, as bravatas populistas e as ofensas machistas, sobra o silêncio de Ciro sobre o fato de estar preso injustamente o candidato que tem 59% dos votos válidos, segundo a última pesquisa. Parece que a democracia que Ciro defende é aquela em que ele se beneficia.

Já disse uma vez, se Ciro atacasse os absurdos da Lava-Jato e defendesse a liberdade de Lula e sua possibilidade de concorrer, ainda que dissesse que “quero vencer este desgraçado na urna” e atacasse toda a história de Lula ou do PT, ele teria – em caso extremo – meu voto. Prefiro um opositor honesto e que defenda a democracia, um crítico não amigável. mas coerente do que um populista, carregado de truísmos que tapa os olhos e finge não enxergar o fato de que a violência contra Lula deslegitima o pleito. Mas isso requereria uma figura superior, capaz de colocar valores como a “justiça” e “democracia” acima do seu “projeto de poder”.

[2]
Vamos colocar as coisas no lugar.

Não venham com “a chance de Lula ser candidato é mínima”. LULA É CANDIDATO.

Não me venham com “Ciro é o mais preparado”. Ciro é o que todos os outros deveriam ser. Não é vantagem “ser preparado”, mas obrigação. E, na corrida, tem um candidato que já foi duas vezes presidente. Espere para falar de preparo.

Minha grande diferença para com os ciristas é que eu quero ouvir Ciro. Quero ver Ciro nos debates. Quero saber das críticas e dos planos de Ciro, de seus projetos e até quero ouvir falar de seu passado. Já Ciro e os ciristas não querem ouvir Lula. Não querem Lula nos debates. Fingem que é caso encerrado e se montam num discurso para legitimar a injustiça que lhes convém.

E isso fala muito – e bem alto – sobre o caráter de Ciro e de seus apoiadores.

Quem não diz claramente “Lula Livre”, aceita compactuar com a injustiça, com a violência ilegal do Estado e com a política das oligarquias em troca de benefícios para si. Para mim, não é diferente de um corrupto como Geddel ou Cunha. Não é porque não há dinheiro envolvido que o ato é menos odioso.

[3]
Um texto só não seria suficiente para falar da entrevista do Ciro. Muito ruim…

Temos, no Brasil, a ideia de achar que alguém que fale bem fala de forma correta. E não é verdade…

Como eu venho dizendo, Ciro está mais próximo de Bolsonaro do que de qualquer outro. Bolsonaro pipoca e evoca a sua ignorância, falando em “minha equipe”. Ciro pipoca e fala que “sabe fazer” normalmente para ofender alguém. E na realidade não responde e não diz coisa alguma.

Edit 1: A comparação de Ciro e Bolsonaro é óbvia, ambos dão “soluções fáceis” para os problemas do Brasil. Afinal, “dar arma para todo mundo e deixar a polícia matar” é tão populista, irreal e impossível de se fazer do que “taxar heranças, lucros e grandes fortunas” sem atentar para o Congresso que historicamente o Brasil sempre teve. Dois gargantas. Um truculento e fascista e o outro tecnocrata. Os dois não explicam como fazer nada. Bolsonaro fala na sua “equipe” que deverá ter poderes mágicos, Ciro fala em “saber fazer” e na sua “história” e neste roldão ofende, por exemplo, Dilma… o tempo todo. Como eu disse, dois populistas que vendem soluções mágicas e impossíveis.

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