Pablo Villaça: Bem-vindos aos anos 90

Pablo Villaça em 26/5/2018

Quem se lembra daquela década, da anterior e do inicinho da seguinte, tem memórias vívidas de longas filas que partiam dos postos de gasolina e obrigavam motoristas a esperar horas para abastecer. Dos professores das escolas particulares em greve. De aeroportos parados. Dos preços subindo loucamente sob a justificativa de que a paralisação dos caminhoneiros diminui a oferta. E, claro, de restrição de compras de produtos nos supermercados – o que, aliás, é uma tática clássica destes para usar o pânico criado para vender mais, em mais uma prova da beleza do capitalismo.

“Ah, lá vem ele falando do capitalismo de novo, o comunista-bolivariano-mortadela-petralha-que-devia-ir-pra-Cuba-Venezuela”.

OK, respire fundo. Engula a raiva um pouquinho. Sei que há pessoas inteligentes e com capacidade de raciocínio intacta quando calmas lendo isso. Pessoas que durante anos escutaram a retórica da mídia, dos políticos com discursos raivosos, mas que agora estão vendo nas ruas que algo parece ter dado errado com as promessas de que o problema era o PT e a Dilma e que tudo ficaria melhor quando ela saísse. É para você que estou escrevendo.

Não, este não é um post do tipo “nós avisamos”. É um post do tipo “me dê três minutinhos do seu tempo – ok, um pouco mais do que isso – para que eu tente explicar por que a retórica anti-esquerda tem o propósito de te usar para defender os interesses de quem quer que você se ferre, pois isso é lucrativo para eles”.

Em primeiro lugar, há anos que toda a questão política brasileira é resumida por “esquerda x direita”, com a demonização da primeira. Indivíduos que não fazem a menor ideia do que seja o socialismo (ou uma socialdemocracia, que não é o que o PSDB defende na prática), mas berram contra este e o culpam por tudo. Pois me permitam uma pergunta: por que o discurso da direita sempre fala sobre a importância do “mercado” ao passo que o da esquerda fala sobre “direitos trabalhistas”? Já pensou sobre isso? Repare: sempre que se discutem direitos humanos [lembrete: você é humano(a)], os próprios integrantes da direita logo dizem que isso é “coisa de esquerdista”, como se fosse uma ofensa, enquanto eles mesmos dizem que o certo é defender um “governo mínimo”, a “autorregulação do mercado” e por aí afora.

Pois os últimos dias têm servido como uma aula prática sobre esta diferença. Por que o Brasil parou? Por que a gasolina chegou a preços absurdos? “Tudo culpa da Dilma e do PT; estamos pagando agora pelos erros que cometeram antes!”, imediatamente gritam MBL e afins. Mas será que isto faz sentido? A esquerda está fora do governo há mais de dois anos e, nos dois anos anteriores, praticamente não conseguiu governar em função das pautas-bomba de Eduardo Cunha e da antagonização do congresso (“Quero ver a Dilma sangrar”, disse o tucano Aloysio Nunes ao falar de como esta era sabotada pelos parlamentares.)

Além disso, há uma explicação óbvia para o que ocorreu: o “governo” Temer, interessado em defender o tal do “mercado”, decidiu que o Estado não iria mais atuar na determinação do preço da gasolina, como era feito antes. Não, agora, o próprio mercado ia regular o preço, livre para fazer como quisesse.

E o mercado fez o que faz de melhor (e que levou à crise de 2008): tratou logo de buscar os maiores lucros imediatos que conseguisse, ignorando o que aconteceria depois. Com isso, ficamos sujeitos às decisões do mercado internacional, que, por sua vez, têm grandes interesses no nosso petróleo. A cadeia de causa-e-consequência é lógica: os preços sobem (eles lucram) e sobem (eles lucram mais); como o governo não age mais para segurar o preço, mas não pode deixar a coisa sair de controle, diminui impostos incidentes sobre combustível (eles lucram mais ainda), beneficiando o mesmo mercado internacional que domina cada vez mais a Petrobras (graças às ações de Temer e Serra) e as refinarias (eles lucram mais e mais ainda). E aí vem a “greve” dos motoristas, que, curiosamente, envolve demandas que beneficiam primordialmente não os caminhoneiros em si, mas os donos das frotas – como a desoneração do diesel (não da gasolina comum ou do álcool).

Percebem? O grande empresariado, aquele que vive de especulação ou da exploração do trabalho alheio, ganha com a crise que estamos vivendo. Sabe quem perde? Você, da classe média pra baixo, que vai continuar a ver a gasolina aumentar de preço, que sofre nas imensas filas de ônibus e depois nos veículos ultralotados por causa das frotas reduzidas, que tem o dia descontado pelos patrões por não conseguir chegar ao trabalho e que tem que pagar pelo aumento no preço dos alimentos, das passagens aéreas e de todo o resto.

Esta é a diferença entre esquerda e direita. Esta última aposta no bem-estar do mercado; a primeira opta por usar o Estado para melhorar as condições de vida das pessoas.

“Ah, mas isto é impossível! Alguém acaba pagando o preço!”

Errado. Quando o governo prendia os preços do combustível, é claro que assumia parte dos custos e da diminuição da receita da Petrobras, mas os lucros que esta trazia eram mais do que suficientes para suportar isso e ainda gerar caixa para investimentos na saúde e na educação (como foi sacramentado por lei durante o governo Dilma até que Temer assumiu e congelou os investimentos nestas áreas por 20 anos). Lembrem-se: com o pré-sal, o Brasil passou a deter uma das maiores reservas petrolíferas do mundo – mas, de novo, isso não interessava ao mercado internacional, que não ganharia com isso. Daí tudo que vivemos hoje.

“Ah, mas a esquerda quebrou a Petrobras!”.

Outra mentira. E quem diz isso não é o PT ou Boulos ou Manuela ou Che Guevara, mas… os próprios engenheiros da Petrobras (não os executivos engravatados, mas os engenheiros que a fazem funcionar). Pois é. (Não vou copiar aqui todos os dados, gráficos, análises; em vez disso, sugiro que leiam aqui).

Então, não, não foi a esquerda que gerou o que vivemos hoje; ela impedia que este caos fosse gerado pelos interesses de alguns poucos. O que gerou tudo isso foi o velho vilão do liberalismo econômico defendido por MBL, Partido Novo, PSDB e outros compromissados – e patrocinados – por aqueles que sabem que lucrarão ainda mais com a crise que destrói você.

Não acho que todo mundo que bateu panela tem consciência de que o fez contra os próprios interesses. É difícil, às vezes, perceber o que está acontecendo quando os donos do poder econômico (o que inclui a mídia) te bombardeiam com propaganda. Dito isso, ignorar a realidade agora é impossível.

E há imensa virtude em reconhecer um erro e passar a trabalhar para corrigi-lo. Pois esta é a hora. Em vez de encarar a esquerda como um bando de malucos que querem tomar tudo de quem tem e dar pra quem não tem (o que é uma crença absurda, pra começo de conversa), busque entender a diferença de visão de mundo entre esquerda e direita.

E se pergunte o que você acha mais importante defender: o tal “mercado” que ganha com sua perda ou seus próprios interesses e os de sua classe social. Quando fizer isso, lembre-se: se você não pode parar de trabalhar e viver de renda, sua classe social não está nem próxima da elite que tenta te convencer de que se você defender o “mercado” poderá fazer parte dela logo, logo.

Desculpem se falei demais. É só que acredito que este é o momento do despertar. O problema não é errar; é continuar errando.

Pois os únicos que ganham com seu erro são os que te induziram a ele.

***

ATUALIZAÇÃO: se alguém ainda tinha qualquer dúvida sobre a natureza da “greve”, esta foi eliminada pelo acordo criminoso feito entre o “governo” de Temer, o Pequeno, e os “grevistas”. Basicamente, o governo concordou em subsidiar o mercado, usando dinheiro público para manter o valor da Petrobras para os acionistas (com grande número de estrangeiros) ao mesmo tempo em que diminui o valor do diesel para o patronato, os donos das frotas (que compõem a maioria da malha de transporte rodoviário).

Em resumo: tudo que apontei no texto foi comprovado. O mercado se mantém “livre” (mas com dinheiro público permitindo isso) enquanto os interesses dos empresários são igualmente atendidos financeiramente pelo governo, que vai pedir, pelo que parece, R$1 bilhão por mês de empréstimos para sustentar o acordo. Isso não é nem pedalada, é a bicicleta inteira.

Como apontou um leitor no Twitter, Temer criou o Bolsa Acionista. Enquanto corta verba do Bolsa Família, elimina Ciência Sem Fronteiras e a maioria dos outros programas voltados para a população.

É o que o MBL mais ama: Estado mínimo para o povo e máximo para o mercado.

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