A esquerda se ilude com o povo nas ruas: são fascistas

O mito.

Via Esquerda Caviar em 29/5/2018

Sylvia Moretzsohn
Hoje de manhã, lembrando do que li de “análises” de gente qualificada sobre os supostos múltiplos sentidos da demanda por intervenção militar (não, não querem ditadura, apenas estão confusos e querem ordem), fiquei pensando no que é a minha obsessão: a força do autoengano, mesmo nas melhores e mais bem formadas cabeças.

Pois então o problema é esse: bastaria conversar com essa gente confusa e explicar direitinho que tudo se resolveria. O problema do fascismo, historicamente, foi nosso, a rigor: nós é que não soubemos explicar.

Eu ia escrever isso, aí vi o texto do Hugo, que disse o que eu queria dizer. Com ainda mais propriedade, porque ele está lá, do lado da “casa do general”.

Hugo Souza
A residência em Resende do comandante da Academia Militar das Agulhas Negras é conhecida na cidade como “Casa do General”. Ontem, na frente do portão monumental da Aman, teve manifestação de vivandeiras alvoroçadas, que não foram poucas, pedindo ajuda ao Exército para salvar o Brasil. Pouco depois, migraram para a frente da “Casa do General”, do outro lado da Dutra, onde uma multidão cantou o Hino Nacional e clamou, digamos, por uma resposta, um aceno do seu ilustre morador. Manifestações desse tipo proliferam pelo país. Há imagens de um “pelotão de caminhoneiros” batendo continência na frente de um quartel e um deles tenta, diante de um soldado zonzo, passar o “comando da tropa” ao Exército brasileiro, “para que tome as providências”. Haverá quem minimize uma cena dessas, como foi minimizada a cena de caminhoneiros no início da greve imprimindo adesivos com a palavra de ordem que afinal transbordou dos acostamentos.

Pessoas que até poucos dias atrás estavam animadas para “disputar” os sentidos da greve caminhoneira com a direita, em vez de alertar para a rápida e perigosa escalada regressista, para a qual a greve claramente apontava, agora já não parecem tão de alto astral, e mais: alguns já põe a culpa da escalada anunciada logo em quem sobre essa greve não chegou a ter ilusões, de quem cobram, agora, não ter aderido ao seu projeto delirante de trabalho de massas express. Alguém chegou a dizer que as pessoas “querem democracia, não ditadura, mas não sabem pedir”. Talvez acredite mesmo que exista hoje força para organizar um grande supletivo progressista no Brasil. Animam-se, talvez, a distribuir entre marmanjos as cartilhas das crianças, em vez de fazer o papel que cabe à esquerda nos momentos mais agudos da luta política, que é chamar claramente as pessoas à responsabilidade sobre suas posições, em vez de vir com churumelas.

Sobre a concentração na frente da “Casa do General”, lembrei de Marte Ataca, filme de Tim Burton no qual as pessoas, desiludidas, desesperadas, agarradas à “esperança” de uma nova era que poderia vir, talvez, do espaço sideral, vão em massa receber o general alienígena, soltam pombas brancas quando a nave pousa, etc. Pois o líder marciano sai da nave, vê a pomba da paz, interpreta como um ato hostil, saca sua arma de raio desintegrador e dizima toda a alvoroçada audiência.

É o que desejo para a turma de Resende e adjacências que estava ali, entre a qual tive o desprazer de ver rostos conhecidos? Obviamente que não. Não do fundo do coração, por assim dizer. Não há, entre mim, entre nós e eles, pelo menos a maioria deles, a principal das contradições numa sociedade de classes. Mas, no Brasil atual (e não é só desde o dia em que começou a greve da palavra de ordem da “intervenção militar”), acirra-se mais e mais, a cada dia que passa, a contradição entre democracia e fascismo. Talvez não tenha dado pra notar, com o monopólio da mídia exibindo vídeos do “Brasil que eu quero” e programas sobre as maravilhas do “afroempreendedorismo”, onde o “racismo é uma oportunidade de negócio”. E no intervalo do JN entra um comunicado “da Indústria” conclamando “as autoridades” a tomar providências ante o caos…

Vi um pessoal do “vamos disputar a categoria” fazendo alusão até a Mao Tsé-Tung, a suas alianças com “forças confusas” para derrotar o invasor japonês, a fim de tentar justificar seu (desse pessoal, não do presidente Mao) taticismo. Deveriam se lembrar também que o velho Timoneiro deixou como lição para as lutas políticas da posteridade que em situações críticas e complexas, ainda mais em países de características semicoloniais, uma determinada contradição secundária pode passar ao plano principal, passando aquela temporariamente para um plano secundário.

Se não exatamente, penso que é algo assim que caracteriza a conjuntura política brasileira. É esse o ponto que não é possível ignorar, mas é esse o ponto que, para meu estupefato, muitos insistem em ignorar. É precisamente com os fervores mais abertamente fascistas que numa hora dessas algumas das melhores figuras da esquerda se põem irresponsavelmente a fazer especulações, subestimando elementos ideológicos que nem se pode dizer mais que são latentes, e que podem ser instrumentalizados para saídas mais dramáticas da crise brasileira, tendo em vista que o campo das esquerdas está há dois anos na lona, acumulando derrota depois de derrota, batendo cabeça enquanto batem panelas.

É, ao meu ver, quem se arrisca na banguela, apostando em ver o circo pegar fogo sem ter condições de controlar o incêndio. Alguém vai controlar, de um jeito ou de outro, e daí será preciso não alguns anos, não uma década, mas talvez duas, três, para conseguirmos nos recompor. Há fartos exemplos recentes de povos que literalmente incendiaram seus países e, sem lideranças consequentes, sem uma frente única, sem o paciente trabalho de massas, viram sua revolta fundamentada apenas na “sabedoria espontânea do povo” ser cavalgada de forma cruenta pelas forças que compõem desde sempre a espinha dorsal da sua desgraça, numa espiral de muito sofrimento. Quem achar que se trata de “alarmismo”, convido a conhecer o estado dos ânimos aqui no Vale do Paraíba fluminense, no entorno da maior academia militar da América Latina, onde se formou, aliás, o mitológico capitão.

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