A direita latino-americana disse a que veio

Temer e Macri: O neoliberalismo trouxe o caos.

Emir Sader em 25/5/2018

Depois de anos duros, em que parecia que o neoliberalismo tinha vindo pra ficar, forças populares conseguiram construir programas de governo antineoliberais, ganhar eleições e protagonizar os anos mais virtuosos da história latino-americana, em alguns dos nossos países.

Mas a direita, mesmo derrotada reiteradamente, não deixou de manobrar para tentar brecar a esses processos, que representam o desmascaramento de tudo o que a direita tinha dito que seria nosso destino inevitável. Prometia distintas coisas, mas sua política econômica sempre era a do velho modelo centrado nos ajustes fiscais, como remédio contra a doença dos gastos estatais supostamente excessivos.

A direita voltou à carga, conquistando o governo na Argentina por meio de eleições, conseguindo retomar o governo no Brasil por meio de um golpe. E teve a possibilidade de dizer ao que vinham porque tinha lutado tanto, com todas suas forças, legais e ilegais, para retornar ao governo. Para dizer o que tem a propor e a realizar na América Latina.

Na verdade, não era necessário aguardar esse retorno. Porque podíamos saber o que a direita latino-americana tema a propor pela situação de países como o México, por exemplo, governado há tantas décadas pela direita, com um modelo neoliberal desde já pelo menos 25 anos. O favoritismo de Lopez Obrador para se tornar o próximo presidente do México é o resultado direto do fracasso dos governos do PRI e do PAN, que se alternaram no governo, sem mudar a política econômica neoliberal e levando o México a uma situação catastrófica, de todos os pontos de vista.

O País que ia apontar o caminho para os outros países do continente, tendo sido o primeiro em assinar um tratado de livre comercio com os EUA (nesse caso, também com o Canadá) representa, ao contrário do proposto, a falência desses tratados e dessas políticas. Os dois partidos de direita somados não têm as preferências de voto de Lopez Obrador, que aparece como a ruptura com a corrupta oligarquia tradicional do México.

Mas o retorno da direita ao governo na Argentina e no Brasil poderia significar uma atualização das propostas da direita. No entanto, nos dois países em que retomou o governo, se está aplicando o mesmíssimo modelo que já havia fracassado nos anos 1990. O mesmo diagnóstico de que os problemas das nossas economias seriam os gastos excessivos do Estado tiveram o mesmo tipo de resposta: a centralidade do ajuste fiscal. Com as mesmas desastrosas consequências: profunda e prolongada recessão, desemprego recorde, desindustrialização da economia, fuga de capitais, elevação do déficit público.

Para isso vieram as direitas na Argentina e no Brasil? É isso o que prometiam? Por isso lutaram tanto contra os governos populares, valendo-se de acusações falsas, de campanhas de mentiras, de cerco aos governos desde os meios de comunicação e desde os capitais especulativos?

Demonstra, para o México, para a Colômbia, para a Bolívia, para o próprio Brasil e outros países questão ou vão entrar em processos eleitorais, o que podem esperar dos partidos e dos candidatos da direita na América Latina, quaisquer que sejam sus promessas. Na Venezuela chegaram a propor a dolarização da economia. No Brasil se privatiza os melhores patrimônios nacionais, os da Petrobras, se eleva brutalmente o preço dos combustíveis e se volta a importar gasolina. Na Argentina, se volta à entrega nos braços do FMI, retornando a comprometer o futuro do país.

Venezuela, se llegó a pro mejores patrimonios nacionales, los de Petrobras.

As alternativas de retomada do desenvolvimento econômico com distribuição de renda supõem a ruptura com o modelo neoliberal, o que somente governos de esquerda podem fazer, como foi demonstrado neste século. Depende da capacidade da esquerda de voltar a unificar o campo popular, onde ele está dividido, a superar os obstáculos jurídicos e políticos onde a direita se vale deles contra líderes populares da esquerda, da atualização dos projetos que deram certo, adequando-os às condições internas e externas atuais, de resgate dos valores solidários, cooperativos, humanistas, como forma de superação positiva da crise atual que afeta a todo o continente.

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