A greve geral deve ser a palavra de ordem

Roberto Bitencourt da Silva em 27/5/2018

Observando alguns pronunciamentos feitos por caminhoneiros, críticos ao acordo entre entidades empresariais e governo federal e que se declaram na condição de autônomos, é possível compreender, ver legitimidade e racionalidade em suas ações e falas.

Mesmo em meio a algumas considerações rápidas, no calor do tenso e ousado momento, convencional e corretamente tidas como reacionárias pelas esquerdas, em particular as institucionalizadas e domesticadas.

Sobre os seus apelos mais ou menos frequentes à intervenção militar, parece-me tratar-se de uma aposta de quem não vê qualquer credibilidade, capacidade de representação e saída às mazelas nacionais no sistema político-partidário e em demais instituições vigentes. Honestamente, essa avaliação está errada? Em si, entendo que é realista.

O apelo dos caminhoneiros é desesperador e pode oferecer remédio pior? É e pode. Mas, sejamos francos, crenças e esquemas de percepção há muito enraizadas, mas tragadas pelos fatos que saltam às vistas nos últimos anos: não há motivo para desespero?

No ano passado, até um sábio do porte do historiador e cientista político Moniz Bandeira chegou a apelar por uma ingerência mudancista militar. Digamos cirúrgica. O grande jornalista Luis Nassif chegou também a flertar com tal hipótese. Eu mesmo tendia a concordar. Uma expectativa, ou melhor, aspiração, que se revelou vã, por inúmeros motivos, mas que não impede sublinhar a existência de oficiais de média patente com sensibilidade mínima às causas nacionais. Porém, por que esse desespero?

O País está absolutamente entregue, submetido a um abjeto regime colonial galopante e desavergonhado. O problema da elevação contínua, extorsiva e irrefreada dos preços dos combustíveis, ora em voga na agenda pública, é sintoma claríssimo do nefasto entreguismo de Temer, Parente e cia. De oligarquias políticas e burguesias internas que somente agem, de maneira sabuja e subserviente, aos imperativos do imperialismo e do capital estrangeiro.

A Petrobras – empresa gloriosa, fruto das lutas e do sacrifício do Povo Brasileiro por sua autodeterminação nacional – está sendo destruída, privatizada e desnacionalizada por repugnantes serviçais do capital internacional, que ilegitimamente ocupam o governo brasileiro. Títeres de interesses antipatrióticos e antipopulares, que destroem a economia popular e nacional para satisfazer a interesses flagrantemente espúrios e nocivos ao País. São criminosos lesa pátria!

Com a intensificação do neocolonialismo, a exploração dos trabalhadores medianos e humildes, como também da pequena burguesia, só tem aumentado. E vai aumentar mais ainda. Tudo para satisfazer interesses poderosos, em especial do grande capital internacional. Ademais, a sociedade civil organizada, sobretudo o movimento sindical, está inerte e integralmente invertebrada. Infelizmente, como se tem visto, nada tem abalado essa “gostosa” apatia.

As esquerdas não interferem em absolutamente nada. Não possuem a menor capacidade, nem interesse real de influir na agenda pública e nos rumos da Pátria. Entre outras razões, o espírito da panelinha prevalece. O que é a panelinha? Garotos jogando futebol sabem. É formar sempre o mesmo time, os escolhidos, os “parças”, fechando-se para qualquer novidade ou escolha de jogador. É o ensimesmamento. Na “pelada” pode ser bacaninha, divertido e engraçado. Na política é o fim. Um esquisito corporativismo, burocratismo e eleitoralismo. A morte. Sobretudo para as esquerdas. Daí a sua falta de visão e projeto nacional. De capacidade de interpelação e identificação popular-nacional.

Dá para notar também, em decorrência parcial do que foi dito, como também das declarações dos caminhoneiros autônomos que andam circulando nas redes sociais, que esses atores sociais (tudo indica que os empregados ficam demasiadamente sob as rédeas dos patrões, como os motoristas dos ônibus metropolitanos) possuem frágeis ou nenhuma organização representativa, estável e efetiva. Assim, é forçoso que o caldo entorne, com o tempo, e a desconfiança e repugnância de tudo e todos tende a predominar. Não surpreende certa recorrência ao “não temos vínculos com direita e esquerda”.

No cotidiano, já bastante duro da preocupação com assaltos, com a integridade física, com os cada vez mais parcos recursos provenientes do trabalho, do afastamento renitente da casa e da família, convenhamos, uma ampla falta de assistência e de solidariedade coletiva, de cobertura associativa organizada, por óbvio, só pode promover a repugnância e a desconfiança política generalizada demonstrada por alguns caminhoneiros. Um fenômeno típico, mas não restrito, a todos os trabalhadores brasileiros em situações precárias de vínculo trabalhista ou de trabalho destituído de garantias e suporte coletivo.

De tudo isso, fica claro que a motivação do mal-estar revelado por esse impactante e importante movimento dos caminhoneiros, particularmente os autônomos, ora sob a mira repressiva do governo federal, só podem ser assim identificados: não há solução por meio das instituições vigentes.

O latente radicalismo e a evidente ousadia demonstrada são traços naturais e legítimos. Diria mesmo corretos e realistas. Cabe atentar para o direcionamento das implicações do movimento. Nesse sentido, especialmente as centrais sindicais têm que mudar, para ontem, os seus comportamentos e softwares mentais. Largar o burocratismo, o eleitoralismo confortável, que já nos fez passar por um vergonhoso golpismo sem peias, pela desonrosa perda da CLT e pelo absurdo congelamento dos gastos constitucionais em educação, ciência e tecnologia e saúde por 20 anos!

Organizar e convocar, urgentemente, uma greve geral, em solidariedade aos caminhoneiros, articulando e mobilizando diversas questões outras que atravessam os problemas relativos à perda de soberania nacional e de direitos coletivos. O tempo não está para brincadeira e nada, absolutamente nada, indica a promoção de mudança por dentro do sistema. Já me referi diversas vezes sobre a enorme possibilidade de suspensão da eleição presidencial direta. É bom agir, agora, tanto para garanti-la, como para atender a uma extensa pauta democrático-popular-nacional contra o vende patrismo.

Os caminhoneiros parecem ter percebido aspectos da dura realidade, que grossa parte das nossas esquerdas e demais setores progressistas ainda não atentaram. Resta colaborar para que os esforços por mudança sejam para melhor, em busca da defesa dos interesses nacionais e populares. Greve geral deve consistir na palavra de ordem.

Roberto Bitencourt da Silva é historiador e cientista político.

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