Direita instrumentaliza caminhoneiros, mas esquerda pode ganhar discurso

Posto cobra quase R$10,00 por um litro de gasolina no DF. Foto: Marcelo Casal / Agencia Brasil

Helena Chagas, via Os Divergentes em 25/5/2018

Setores da direita estão claramente instrumentalizando a greve dos caminhoneiros – que também parece ser de seus patrões –, jogando nas redes manifestos de entidades que misturam na pauta de reivindicações o diesel ao voto impresso. Estão viralizando, aos montes, vídeos em que integrantes da categoria chamam o governo Temer de comunista (?) e falam em intervenção militar.

É óbvio que não representam o todo, em sua maioria preocupado mesmo com o preço do combustível. Mas, ao mostrar uma situação de quase caos no país, expor a fraqueza do governo e exibir o bate-cabeças dos dirigentes políticos no Congresso, o episódio pode acabar botando algumas azeitonas na empada de Jair Bolsonaro.

Na essência, porém, e mais a médio prazo – o eleitoral – toda essa situação pode fortalecer o discurso dos candidatos à esquerda, se souberem utilizá-lo com competência. Afinal, acima e além de tudo, entrou em xeque a Petrobras e seu papel de estatal monopolista do petróleo. Não exatamente a política de preços, já que o princípio da flutuação de acordo com o mercado internacional tem lógica para muita gente.

Sua aplicação, porém, entra na linha de tiro, junto com a falta de limites para aumentos injustificados na bomba e de uma regulação que leve o varejo a obedecer a flutuação externa quando esta, em vez de subir, baixa o preço. Algo precisa mudar em favor do consumidor, e esse discurso de mudança. Cabe muito melhor no figurino da esquerda.

Mais. A esta altura, ninguém está preocupado em poupar o governo Temer, nem muito menos em preservar sua imagem, que já tinha ido para o beleléu antes disso e agora então é que não sai do poço. Mas os candidatos do centro e da direita, defensores da autonomia radical da Petrobras e de sua política de preços, vão ter que fazer algum tipo de correção na rota do discurso, e isso inclui Henrique Meirelles, Geraldo Alckmin e Rodrigo Maia, entre outros.

Até hoje, o PSDB, o DEM e demais partidos da ex-base do governo emedebista vêm defendendo com todas as forças o atual modelo, jogando nas costas das administrações petistas todas as desgraças relacionadas à Petrobras – olha que são muitas, e que, realmente, não dá para fingir que não aconteceu tudo o que aconteceu.

Mas tirar o corpo fora, e começar a pedir, a esta altura, a cabeça do presidente da Petrobras é uma estratégia eleitoreira e, sobretudo, discutível para quem até ontem aplaudia a gestão Pedro Parente na estatal.

Aliás, se há uma lição a ser tirada disso tudo, em meio ao desabastecimento nos hortifrútis e às filas nos postos, é a de que a lembrança de que a Petrobras é uma estatal pode ser bem-vinda para quem vai votar em outubro. O primeiro candidato de esquerda que construir um discurso equilibrado e realista a partir daí, mostrando que é possível atender ao interesse público sem montar esquemas de corrupção na empresa, pode sair na frente.

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