Geraldo Alckmin, o candidato-sabonete

Cíntia Alves, via Jornal GGN em 23/5/2018

Quem pensa que Geraldo Alckmin não está se preparando para atravessar um corredor polonês de perguntas sobre corrupção precisa conferir o desempenho do candidato na primeira sabatina do SBT, UOL e Folha. O tucano já é o tipo que transforma uma questão objetiva sobre propina ao PSDB, com envolvimento pessoal de seu cunhado, numa propaganda sobre como “contrariou” os interesses de poderosos e articulou a redução do valor dos pedágios em São Paulo, pensando na economia do povo.

É deslizando como um sabonete que o tucano vai tentando reduzir o impacto dos escândalos que, volta e meia, recaem sobre si ou correligionários. Em todas as oportunidades, Alckmin se esforça para não entrar no mérito das acusações. Para isso, agarra-se a questões técnicas que tenham a ver com o assunto e fomenta, assim, a imagem de gestor hábil ao mesmo tempo em que explica nenhuma das imputações. .

Por exemplo, quando o jornalista da Folha abordou o ex-governador com a denúncia feita por representantes da CCR, de que o consórcio teria repassado R$5 milhões para a campanha tucana por meio do cunhado, Alckmin respondeu: “É um absurdo verdadeiro. Eu nunca vi ninguém ajudar alguém que sabe de antemão que vai trabalhar contra seus interesses.”

Por mais de 3 minutos (na TV, isso é quase uma eternidade), Alckmin teve a permissão para falar sem interrupções sobre como, lá em 2010, revisou todos contratos, reduziu valores dos pedágios, “quebrou o monopólio do Sem Parar” e entrou na Justiça contra as concessionárias. Quando os jornalistas começaram a dar sinais de impaciência diante da tergiversação, ele terminou com: “Minhas campanhas foram feitas rigorosamente dentro da lei sem nenhuma ostentação.” Não foi contrariado.

Carlos Nascimento, do SBT, reforçou a pergunta sobre a denúncia do caixa 2 de R$5 milhões e, mais uma vez, Alckmin saiu pela tangente alegando que a acusação partiu de uma delação que está “sob sigilo”. Por conta disso, ele e seu advogado “não sabem o que é” que está em apuração, embora o assunto esteja “o tempo inteiro na imprensa”.

Depois de alguns minutos mais de esforço para não comentar a acusação no mérito, Alckmin pediu licença para olhar diretamente para a câmera e desabafar no ouvido do eleitor.

“Me permita falar com quem está nos acompanhando. Tenho 40 anos de vida pública. Fui presidente e vereador numa época em que vereador não ganhava um centavo. Fui deputado estadual e, que eu saiba, fui o único caso de quem contribuiu e não se aposentou como deputado estadual. Não pedi o dinheiro de volta, dei tudo para o Estado e para o povo. Fui deputado federal duas vezes, contribui para a Previdência, poderia ter uma previdência complementar há 15 anos, mas nunca requeri. Ficou tudo para o governo federal e o povo. Me aposentei pelo INSS depois de 42 anos de contribuição, comecei a trabalhar com 21 anos dando aula em cursinho para ajudar a pagar a faculdade de Medicina, que meu pai era funcionário público, com 5 mil reais de aposentadoria [não ficou claro de quem era a aposentadoria]. Moro no mesmo apartamento. Me sinto indignado! Há uma tendência no Brasil de defenestrar a política e dizer que é todo mundo igual. Não, não é”, exclamou.

Mais insistente que os colegas do UOL e Folha, Carlos Nascimento refez a pergunta: qual era, afinal, a função do cunhado acusado de receber propina na campanha?

“Simpatizante do PSDB”, respondeu Alckmin. “Ele é casado com uma banqueira, o sogro dele é banqueiro, dono de uma financeira. É um simpatizante do partido, nada mais que isso. Aliás nem tem relação com o governo.”

Mas, candidato, o senhor que fala tanto sobre gestão eficiente, não acha que faltou ao seu governo alguma atitude para acabar com a corrupção que ocorria bem abaixo do seu nariz?

Alckmin, o gestor, rebateu com “tudo no governo do Estado é licitação, e não tem uma que não seja judicializada.” E envenderou-se pela crise econômica que, pasmem, não afetou os investimentos em São Paulo, e desembocou nos “desafios” que o próximo presidente terá para atrair mais investidores.

Na sequência, Carlos Nascimento trouxe à tona as denúncias acerca de obras do Rodoanel e do Metrô, com trens comprados a preços exorbitantes sem que a linha sequer estivesse pronta. Alckmin, então, deu um sermão sobre como concessões ao setor privado tem lá seus problemas, porque as empresas “quebram” ou entram em crise e atrasam as obras mesmo.

De qualquer forma, garantiu que “nenhum centavo de prejuízo para o Estado” ocorreu com problemas no Metrô. E, aproveitando o insight, voltou à questão da fiscalização e requereu os créditos por ter iniciado a investigação que pegou os supostos desvios do esquema Paulo Preto na Dersa.

“Você sabia que ele [Paulo Preto] tinha 113 milhões de dólares lá fora?”, questionou Nascimento. “Não, e se isso for provado, ele tem que dizer qual a origem do dinheiro.”

Quando quem está na mira da Justiça é tucano, o direito à defesa é sublinhado pelo ex-governador.

Sobre Eduardo Azeredo, que recebeu ordem de prisão pela condenação do mensalão tucano, Alckmin tentou sair pela tangente com “eu não sou advogado, não li o processo, não conheço.” Carlos Nascimento insistiu: “O senhor conhece a história.” Alckmin resumiu com “cumpra-se a decisão da Justiça.”

E Aécio Neves (réu no Supremo), Beto Richa (processado na vara de Sérgio Moro), Fernando Capez (presidente da Assembleia Legislativa acusado na Máfia da Merenda)? O candidato vai subir no palanque deles?

Alckmin respondeu que Aécio não é candidato, mas sim Anastasia, que “deve ganhar no primeiro turno.” Beto Richa “vai se explicar” e Capez não mereceu comentário.

Questionado sobre como pretende financiar a campanha a presidente, se com recursos indiretos das empreiteiras envolvidas na Lava-Jato, Alckmin entrou na defensiva. Disse que seu patrimônio é R$1,3 milhão, “praticamente o mesmo de 4 anos atrás”. Emendou que sua última campanha “arrecadou e deixou de gastar R$9 milhões”, logo, não fazem sentido as denúncias de caixa 2. “Eu acredito no julgamento do povo”, que vai saber separar o joio do trigo, apontou o tucano.

Ao final da questão, disse que vai usar o dinheiro do fundo eleitoral e fazer arrecadação de pessoa física, além de “abrir um crowdfunding” para financiamento coletivo. Pretende gastar até R$70 milhões da verba do partido, se possível menos do que isso, nos dois turnos.

Quando o assunto mudou de curso e chegou aos adversários, Alckmin disse que Bolsonaro e PT são a mesma coisa e que com Ciro Gomes (PDT) dá para conversar porque ele já foi “ministro do PSDB” e foi um bom governador.


***

ALCKMIN DIZ QUE PRESIDENTE SEM VOTO “É MEIO INTRUSO” E PROMETE 4 REFORMAS
Cíntia Alves, via Jornal GGN em 23/5/2018

O pré-candidato do PSDB à Presidência Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo, agora diz que é “evidente” e “claro” que faltou a Michel Temer a legitimidade dos votos para governar e aprovar uma série de reformas. Durante sabatina promovida pela Folha, UOL e SBT, na manhã de quarta-feira, dia 23/5, o tucano disparou: “Você quando não tem voto é meio intruso. Essa é a lógica da democracia: ela traz força, legitimidade, crença.” O partido do tucano foi o principal fiador da deposição de Dilma Rousseff junto ao MDB.

Questionado sobre a possibilidade de levar Temer ao seu palanque, Alckmin saiu pela tangente e disse que o MDB já tem seu presidenciável, o ex-ministro Henrique Meirelles. “Temer está lá com seu pré-candidato”, disse, com o tom de quem tenta criar um distanciamento.

O ex-governador também evitou dar uma nota de 0 a 10 a Temer, mas deu a entender que, “pelas circunstâncias” do “trauma do impeachment e a falta de votos”, o emedebista fez o que pôde.

Destoando dos candidatos à esquerda, que prometem revogar as medidas impopulares de Temer, Alckmin elogiou os projetos aprovados pelo ex-vice de Dilma, principalmente a reforma trabalhista.

“Sou favorável à reforma trabalhista, foi bem-feita. Não podíamos mais ter uma lei da década de 1940. Temos que estimular que contratem mais. Ela não é perfeita, mas vamos aperfeiçoar. por exemplo a questão das mulheres, das grávidas, são questões pontuais que vamos corrigir”, declarou.

As reformas prometidas
Alckmin disse que pretende fazer, “no mínimo”, quatro reformas.

Uma reforma política, introduzindo voto distrital ou distrital misto, reforçando a ideia de coligações proporcionais e clausula de barreira – pontos que já foram aprovados por esta legislatura para as próximas eleições.

Uma reforma tributária, que deve seguir modelos internacionais e reduzir cinco tributos (IPI, ISS, ICMS, PIS e Cofins) em um só (IVA). “Um bom sistema tributário pode ter um ganho de 1% do PIB em 12, 14 anos”, disse Alckmin.

Uma reforma do Estado, “porque o estado brasileiro não cabe dentro do PIB”. Disse Alckmin que pretende fazer no Brasil o que fez em São Paulo, “fechando fundações, devolvendo prédios, vencendo helicópteros”, ou seja, “uma redução de custos forte.” Na visão do tucano, o “Estado não é empresário, e não é menor por isso. Ele tem que ser regulador.” As agências públicas precisam de segurança jurídica e, por isso, passarão a ter mandatos de décadas para seus dirigentes, cortando a “aproximação com partidos políticos”.

E, por fim, uma reforma da previdência.

Previdência: regime geral
Nessa proposta, Alckmin se alongou por mais tempo. Disse que pretende usar a “lógica da justiça” porque não está “correto o trabalhador do prédio, da agricultura, da indústria, não poder ganhar mais que 5 mil reais e, na média, se aposentar com 1,3 mil reais [dados de 2016]”, quando no setor público “tem benefício de até 42 mil, pago pelo trabalhador de menor renda.”

“O que eu defendo”, indicou Alckmin, “é regime único de previdência social. Um regime geral. Já fiz em São Paulo e ganhei no primeiro turno. Fiz em 2011”, se gabou.

Pela proposta do tucano, “[…] daqui pra frente, para todo mundo que entrar, nós vamos pagar até o teto do INSS, seja [para trabalhador] do Judiciário, da assembleia, da universidade, não importa. É o teto do INSS. Acima disso, será a previdência complementar, 1 pra 1, ele põe 1, eu dou 1. É a Prevcom. E não é mais benefício definido, é contribuição definida. Então o déficit é zero, porque eu não ganho 40 e aposento com 40. Não, você aposenta com 5 e vai ter complementação de aposentadoria proporcional à capitalização individual, que é corretíssimo, como é no setor privado.”

“Uma exceção, as Forças Armadas. Não é que vai ficar de fora da reforma. Eu pretendo sentar e conversar porque eles sabem disso, que não pode continuar esse modelo. No mundo todo não há um regime único que inclua as Forças Armadas, mas não vai ficar de fora.”

Além de não prometer mexer nos privilégios dos militares, Alckmin tangenciou perguntas sobre uma idade mínima para aposentadoria.

Questionado sobre uma reforma tributária, Alckmin disse que não recriaria a CPMF. “Não, é muito cômodo querer acertar as contas públicas aumentando a carga tributária. Não, temos que reduzir despesas e fazer a economia crescer com investimento. Para isso, precisa ter confiança.”

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