Quatro casamentos e 60 funerais

Hugo Souza, via Medium em 19/5/2018

Entre tantos e tantos simbolismos, conforme nos esclareceram na manhã de sábado, dia 19/5, um batalhão de comentaristas da mídia brasileira (as rosas brancas, prediletas de Diana, escolhidas pela “designer floral” para decorar o castelo de Windsor; o piercing decorando o nariz da mãe da noiva, sogra do príncipe etc.), pelo menos um passou despercebido na cobertura do casamento real na Grã-Bretanha. Foi realmente interessante ver o sacerdote casamenteiro mencionar, ao vivo, para o mundo inteiro, que o próprio Jesus de Nazaré participou de, pelo menos, um casamento ao longo dos seus 33 anos de vida, a famosa “idade de Cristo”, coincidentemente a atual idade de Harry.

Trata-se das famosas bodas de Caná, narradas no evangelho do apóstolo João. Aquelas nas quais Jesus, conforme a “narrativa” bíblica, transformou água em vinho, realizando naquela feita, naquele enlace entre consortes de tempos antanhos, o primeiro dos seus milagres na Terra. Esse casamento aconteceu onde hoje, segundo a interpretação arqueológica mais aceita, está a cidade de Ain Qana, na Galileia, território ocupado pelo sionismo na forma jurídica do Estado de Israel.

A menção foi interessante, portanto, porque a forma jurídica precursora do Estado de Israel foi o chamado Mandato Britânico da Palestina, lavrado pela Liga das Nações e resultado do acordo Sykes-Picot, assinado em maio, mês das noivas, de 1916  – um dos tantos tratados de partilha e repartilha do mundo registrados na história da geopolítica, ou seja, a velha política das potências imperialistas. Entre as responsabilidades e competências da Grã-Bretanha na administração da Palestina, já ocupada, estava a “assegurar o estabelecimento do Lar Nacional judaico”.

No ano seguinte, em novembro de 1917, o então secretário britânico das Relações Exteriores, Arthur James Balfour, dirigia ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido, e à Federação Sionista da Grã-Bretanha a chamada “Declaração Balfour”, na qual reafirmava:

O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional para o Povo Judeu, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo.

Não sem acrescentar alguma platitude sobre “que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não-judaicas existentes na Palestina”.

“Para seguir em frente”
A criação de Israel foi proclamada mesmo apenas um dia antes do fim do Mandato Britânico da Palestina, em 14 de maio, sempre o mês das noivas, de 1948  – para o povo palestino, o dia da catástrofe (Nakba, em árabe). Duplamente interessante, portanto, que a menção tenha sido feita diante de um Henry Charles Albert David paramentado para seu casório com trajes militares do império britânico.

No mês de novembro do ano anterior à criação de Israel, 1947, casavam-se a rainha Elizabeth e o príncipe Philip da Grécia e Dinamarca. Naqueles mesmíssimos mês e ano a sucessora da Liga das Nações, a ONU, aprovava a “partilha” da Palestina, catástrofe dos palestinos.

Em 1981 casava-se, com “Lady Di”, o príncipe Charles, ainda hoje herdeiro à espera de vagar o trono da Inglaterra. No mesmo ano, Israel anexava oficialmente as colinas de Golã, tomando da Síria essa área considerada estratégica por causa dos seus fartos recursos hídricos. As colinas de Golã haviam sido ocupadas décadas antes por Israel, na Guerra dos Seis dias, quando o sionismo logrou transformar água em sangue: só em 2014 o Estado de Israel assassinou mais palestinos, ultrapassando a marca de 1.500 corpos, do que naquele ano de 1967.

A semana que ora termina com o mais novo casamento da realeza britânica iniciou-se com a chacina de 60 palestinos da Faixa de Gaza pelas “forças de segurança” de Israel. Já são 111 palestinos mortos por Israel, e contando, desde o início da “Grande Marcha do Retorno”, série de protestos palestinos iniciada em 30 de março por conta dos 80 anos da criação do Estado sionista. Após a matança dessa semana em Gaza, o atual Foreign Secretary britânico, Boris Johnson, ecoou à sua maneira o conde Balfour: “Estou profundamente triste com a perda de vidas em Gaza, onde protestos pacíficos estão sendo explorados por extremistas”.

Um dos comentaristas da GloboNews para a cobertura ao vivo do casamento real deste sábado na Grã-Bretanha, Arthur Xexéu, disse lá pelas tantas, tentando encontrar razão de ser para tanta dedicação da mídia brasileira ao casamento real, quer dizer, feudal: “Precisamos de momentos como esse para seguir em frente”. Ora, “precisamos” quem? O povo palestino? God save Gastão, o vomitador.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: