Aparece o “doleiro dos doleiros” da indústria da delação

Via Jornal GGN em 19/5/2018

A Procuradoria do Rio de Janeiro começa a se aproximar do esquema da indústria da delação premiada, com os novos depoimentos de doleiros que narram a compra de “proteção” junto ao Ministério Público e à Polícia Federal. O GGN desvendou parte do caso na série “A Indústria da Delação Premiada”. E o advogado que intermediou o esquema é também figura carimbada no êxito das colaborações.

A reportagem “Banqueiros da Odebrecht omitiram informações em delação da Lava-Jato e tiveram multa irrisória“, do Jornal GGN com o Diário do Centro do Mundo, publicada em novembro de 2017, adiantou parte do esquema agora conhecido pelos procuradores do Rio. O nome de Messer, o doleiro dos doleiros, desapareceu da Operação Lava-Jato, assim como do caso Banestado.

Nos detalhes que remontam a como banqueiros pagaram uma multa de apenas R$3,4 milhões por desvios que chegariam a R$326 milhões, Dario Messer seria o doleiro por trás das operações do grupo. Juca Bala, anunciado como quem fazia as operações, trabalha para Messer. Mas o que foi tornado público superficialmente é outra história. A reportagem recuperou o histórico do doleiro:

“Messer nasceu no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, e seu pai é paraguaio – por isso, ele tem cidadania paraguaia. No país vizinho, tem grande influência política. Seu pai foi amigo do atual presidente, Horácio Cartes. O combativo e influente jornal ABC Color, de Assunção, publicou reportagem sobre essa proximidade.
A relação entre os dois viria dos anos 1980. O pai de Dario Messer, Mordko Messer, teria acolhido Cartes “afetiva e economicamente” quando o político tentava se livrar de acusações de evasão de divisas naquela década. Hoje, segundo o jornal, Dario Messer é como um irmão para Cartes, conhecido também HC. Messer, por sinal, depois que estourou a Lava-Jato, teria transferido residência para o Paraguai.
O nome de Messer não aparece na Lava-Jato, da mesma forma como sumiu do caso Banestado, que morreu na jurisdição de Moro. Estas são linhas de investigação que devem ser perseguidas para conhecer efetivamente o submundo do caixa 2 no Brasil. O que está na superfície é glamouroso.”

Em apanhado de diversas suspeitas sobre a indústria da delação premiada, também em publicação no GGN, Nilo Filho relembra que “é bastante estranho que Messer apontado como o maior doleiro do Brasil e que esteve por trás das maiores operações realizadas pelo grupo – de França, Bilinski e Borin [os banqueiros] – foi omitido da delação acordada e homologada.”

“Estranho, ainda, pois Messer é antigo conhecido do juiz Sérgio Moro, apareceu no escândalo do Banestado como grande operador e, também, dali se safou. Sérgio Moro foi o juiz do caso Banestado. E Messer de lá se saiu livre, sem arranhões.”

Mas o nome do “doleiro dos doleiros” vai, aos poucos, sendo revelado. A reportagem do Estadão, de sábado, dia 19/5, traz a denúncia de um dos participantes do esquema montado por Messer para as operações ilícitas entre os anos de 2006 e 2013.

Ele é quem cobrava, segundo os relatos, por meio de Enrico Vieira Machado, uma “taxa de proteção” de US$50 mil por mês, hoje equivalente a R$186 mil, entre 2005 e 2006, que seriam direcionados ao advogado Antônio Figueiredo Basto e um colega de escritório, para supostamente garantir futuras delações no caso Banestado.

“Enrico passou a dizer que o escritório deveria pagar US$50 mil por mês para fornecer uma proteção a Dario e às pessoas ligadas ao câmbio. Que essa proteção seria dada pelo advogado Figueiredo Basto e outro advogado que trabalhava com ele”, disse o delator Cláudio de Souza, doleiro que integrava o esquema de Dario, à Procuradoria do Rio de Janeiro.

Com a mensalidade, Enrico, em nome de Messer, prometeria aos demais doleiros segurança em relação ao Ministério Público e à Polícia Federal, ainda segundo a reportagem.

O advogado é figura carimbada também nas negociações com os procuradores de Curitiba. Figueiredo Basto foi o primeiro advogado a atuar em acordos de delação premiada no modelo que se estabeleceu e que marcaram todas as investigações da Operação Lava-Jato.

Ele atuou no acordo do doleiro Alberto Youssef com o juiz Sérgio Moro no caso do Banestado, em 2004, e até hoje atuou para grandes “colaborações” da Lava-Jato, entre eles, os dos réus Lúcio Funaro, Renato Duque, Ricardo Pessoa.

E Figueiredo Basto atua em parceria com o escritório dos sócios Adriano Bretas e Tracy Reinaldet. Bretas, que se tornou “o homem da delação”, após aparecer na capa da revista Veja com um charuto, teria aprendido com Figueiredo Basto, sendo uma espécie de auxiliar do advogado no início de sua carreira.

Em reportagem à Piauí, o próprio Antônio Figueiredo Basto afirmou o que pensa sobre o polêmico acordo de delação premiada, em maio do último ano: “Ninguém está impedido de tentar impugnar as colaborações nos tribunais, mas quem não gosta delas são os advogados que preferem ficar com seus clientes presos por 20 anos, sustentando teses do tempo da onça que não resolvem mais nada hoje em dia”.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: