Guerra, ditadura e Plano Real: O Brasil e o mundo um mês antes das 5 Copas que a seleção venceu

Emílio Garrastazu Médici, terceiro presidente militar (1969-1974), em Brasília.

Daniel Lisboa, via UOL em 17/5/2018

A seleção brasileira estreará na Copa do Mundo da Rússia daqui a exatamente um mês. Entrará em campo no dia 17 de junho, na Arena Rostov, para pegar a Suíça. Ou seja, o país entrou oficialmente naquele modo de espera capaz de ofuscar até o quentíssimo cenário político atual

A sensação de tensão e imprevisibilidade, entretanto, está longe de ser um “privilégio” dos que vivem neste ano de 2018. Por mais que pensemos que a nossa época se destaca (para o bem e para o mal) das demais, neste mesmo período em Copas passadas não faltavam imbróglios geopolíticos, ameaças de guerra e, claro, confusão na política interna brasileira.

Guerra Fria, revoluções, promessas, ditadura, plano econômico: o UOL Esporte pesquisou no acervo da Folha de S.Paulo para relembrar o que o brasileiro encontrava na primeira capa do jornal um mês antes da estreia da seleção nas Copas que terminaram em título.

1958
Se dentro de campo o Brasil ainda buscava seu primeiro título mundial, fora dele quase tudo indicava um futuro próspero e democrático: o então presidente Juscelino Kubitschek colocava em prática seu plano de metas “50 anos em 5”, que previa desenvolver o país economicamente, neste curto período, o equivalente a meio século.

Também construía Brasília, a futura nova capital, no planalto central.

Curiosamente, porém, a primeira página da Folha da Manhã de 8 de maio de 1958 não tem uma única reportagem destacando qualquer assunto relacionado a isso. Naquela época, os veículos priorizavam o noticiário externo e assim todo o topo do caderno é dedicado ao que acontecia lá fora.

“Encerrada a conferência dos ministros do exterior dos países-membros da Otan”, dizia a manchete principal do jornal. A matéria contava que a reunião, realizada em Copenhagen (Dinamarca), terminara com a promessa dos integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte de seguirem negociando com a União Soviética, o grande inimigo naqueles tempos de mundo polarizado entre capitalismo e comunismo.

Tal convivência, porém, ainda teria um longo e complexo caminho pela frente. Tanto que uma nota logo ao lado da reportagem revela que um conselheiro da embaixada dinamarquesa na Alemanha era acusado de ser um espião soviético.

As notícias internacionais seguem em destaque com uma nota sobre a chegada do então vice-presidente norte-americano, Richard Nixon, a Lima, no Peru. Fulgêncio Batista, ditador cubano, ainda esperava derrotar os rebeldes comandados por Fidel Castro e pedia que os guerrilheiros depusessem as armas, explicava outra nota.

O único acontecimento nacional então digno de destaque nada teve a ver com política ou economia: foi a história do casal mineiro Sebastião José Neves e Ana Rosa Neves, que venceu uma batalha judicial para receber 23 milhões de cruzeiros de indenização. Sebastião, então já falecido, passara oito anos em uma prisão de Belo Horizonte por um homicídio que não cometera.

Apesar do pouco tempo para a Copa do Mundo da Suécia, a seleção brasileira só aparece na primeira página em uma nota lá no pé. “Debaixo de vaias prolongadas, a seleção brasileira de futebol abandonou ontem o gramado do Pacaembu, após uma partida em que não conseguiu impor sua melhor categoria à representatividade do Paraguai.”

1962
A seleção brasileira finalmente começaria um Mundial integrando o seleto grupo de campeões, mas o cenário político do país já não inspirava tanta confiança. João Goulart presidia o país após a renúncia de Jânio Quadros no ano anterior, e começava a tentar implantar as reformas que pesaram em sua deposição pelos militares em 1964.

Em 30 de abril de 1962, no entanto, as notícias internacionais continuam a dominar as manchetes, e o destaque vai para o possível diálogo entre EUA, Reino Unido e União Soviética: “O presidente John Kennedy, e o primeiro-ministro britânico, Harold MacMillan, anunciaram hoje que estão dispostos a considerar a possibilidade de entrevistarem-se com o primeiro ministro soviético Nikita Kruchev, quando isso ´sirva aos interesses da paz e a entendimento”.

A chamada logo ao lado fala sobre um rodeio que chegou ao fim “com chuva, mas público bom”, enquanto outro destaque, abaixo, relata um acidente na BR-2 que deixou quatro mortos e três pessoas presas nas ferragens. Goulart surge apenas em uma pequena chamada no topo esquerdo – “Lutaremos por um Brasil mais justo`, afirma Goulart” –, e a seleção, embora com mais espaço, volta a figurar no pé na da página.

“Apenas dois gols nas três fases do treino da seleção”, dizia a chamada. Referia-se a um treino em três etapas feito pelo time na cidade de Serra Negra, em São Paulo.

A primeira, conta a matéria, envolveu a “seleção azul” (reserva) contra a Ferroviária, e terminou sem gols. Depois, novamente a formação “azul” da seleção entrou em campo para pegar o time “amarelo”. Mais um empate sem gols. Só quando a formação “amarela” (titular) enfrentou a Ferroviária o placar mudou: vitória de 2 a 0 com gols de Didi de pênalti e falta.

1970
Este definitivamente não foi um ano “fácil”. Se em campo o Brasil levava o tricampeonato mundial no México, fora dela a ditadura militar estava no auge e recrudescia a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã. Tanto que a chamada de capa, com grande destaque, da Folha de S.Paulo no dia 3 de maio de 1970, era “Os EUA bombardeiam o Vietnã do Norte”.

“No mesmo momento em que o secretário de defesa dos EUA, Melvin Laird, anunciou ontem aos jornalistas que os bombardeios sobre o Vietnã do Norte ‘poderiam recomeçar caso Hanói respondesse com fortes infiltrações através da zona desmilitarizada à intervenção norte-americana no Camboja’, a rádio de Hanói anunciava – e o Pentágono, confirmava – que bombardeiros da USAF já haviam atacado posições estratégicas no Vietnã do Norte”, dizia a reportagem.

Abaixo do noticiário internacional, vinha a chamada para a matéria sobre “Genebaldo, um menino que não quer crescer”. Tratava-se da história de um menino baiano que sofria de gigantismo – tinha 1,46 metro de altura aos cinco anos de idade – e estava em São Paulo em busca da cura para sua “estranha doença”.

Grudada na chamada sobre “Genebaldo”, mas abaixo dela, vinha a notícia: “Seleção no México já espera seu 1º treino”. Informava que o time chegara no dia anterior, em voo direto, a Guadalajara. “Os brasileiros seguiram imediatamente para a Suite Caribe, onde ficarão hospedados até o dia 6 ou 7.”

1994
Já redemocratizado, o Brasil teve um ano para lá de agitado. Em 1994 morreu Ayrton Senna, o Plano Real foi implantado, Fernando Henrique Cardoso foi eleito para seu primeiro mandato presidencial e o Brasil finalmente venceu uma Copa do Mundo após 24 anos.

“Greve do servidor é ilegal, define STF” foi a manchete da Folha de S.Paulo no dia 20 de maio. “Decisão leva os agentes da PF a encerrar paralisação; Ricupero (Rubens, então ministro da Fazenda) defende estabilidade do funcionalismo”, explicava o subtítulo.

O Plano Real, lançado em fevereiro daquele ano, seguia seus trâmites legislativos. O congresso aprovava a medida provisória da URV (Unidade Real de Valor), que depois daria origem à nova moeda, em um passo que, segundo a edição daquele dia, agradou ao mercado financeiro. “Bolsas sobem após aprovação do plano”, dizia a chamada da Folha de S.Paulo.

Como nos outros anos, a seleção brasileira aparecia no pé da primeira página. Aqui, porém, a preocupação não era com aspectos técnicos ou táticos, e sim com a dieta da equipe. “Dieta da seleção é criticada”, revelava a nota. “Sem saber que paio, carne-seca e toucinho estão estocados para a viagem, ela (a nutricionista da seleção) disse que essas ´são comidas pesadas` e devem ser evitadas em fase de competição.”

2002
O ano em que o Brasil conquistou o pentacampeonato mundial foi o último de Fernando Henrique Cardoso na presidência. E as incertezas causadas pelas eleições vindouras, que levaram Lula ao cargo, foram o destaque da Folha de S.Paulo do dia 3 de maio.

“Pessimismo faz Bolsa cair e dólar subir” dizia a principal manchete do jornal. “Em relatório, um analista do banco ABN Amro recomendou aos investidores que reduzam a compra de títulos brasileiros, devido à subida de Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas e a estagnação do governista José Serra”, explicava a matéria de capa.

Outra notícia que então mereceu atenção foi a saída do líder palestino Yasser Arafat de seu QG na cidade de Ramallah, depois de 34 dias confinado. “Ele criticou as ´atividades bárbaras` do exército israelense, mas afirmou estar pronto a negociar com o premiê (de Israel) Ariel Sharon.”

A primeira página da Folha de S.Paulo não trouxe notícias sobre a seleção brasileira naquele dia. A única referência à Copa do Mundo, que seria disputada no Japão e na Coreia do Sul, era a chamada para uma análise dos times feita por Carlos Alberto Parreira.

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