Violência contra palestinos em Gaza “não é confronto, é massacre”, diz especialista

Alguma grande potência vai apoiar a Palestina? Não. Israel tem um exército poderoso e o apoio dos Estados Unidos, ninguém vai fazer nada”, diz Nasser.

Para Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais da PUC/SP, nenhuma potência irá apoiar Palestina: “Israel tem um exército poderoso e o apoio dos Estados Unidos, ninguém vai fazer nada”

Opera Mundi em 16/5/2018

A mudança da Embaixada dos EUA em Israel para a cidade de Jerusalém intensificou os protestos de palestinos e a violenta repressão do exército israelense. Na segunda-feira, dia 14/5, véspera da Nakba, data que marca a expulsão dos palestinos do território, 60 manifestantes foram mortos pelas Forças Armadas de Israel, e mais de mil ficaram feridos na cerca que separaos dois territórios. Opera Mundi conversou na terça-feira, dia 15/5, com o professor de Relações Internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser, que afirmou que o que acontece em Gaza não poderia ser chamado de confronto, mas, sim, de “massacre”.

Opera Mundi: Por que não é possível falar de “confronto” nos episódios de violência em Gaza?
Reginaldo Nasser
: Existe uma fronteira, existem cercas, barreiras de concreto e trincheiras entre os dois territórios. Então eles não se encontram fisicamente. Se de um lado existe um dos mais poderosos exércitos do mundo, com snipers, drones, armas sofisticadas, e de outro lado existem pneus, pedras e paus, é impossível ter confronto. Isso se chama massacre. Sessenta pessoas mortas e mais de mil feridos do lado dos palestinos, e Israel não tem nenhum morto e ferido. Portanto é impossível isso ser um confronto. Essa questão nem se coloca. É muito difícil achar alguém fora do Brasil que chame isso de confronto. Nenhum jornal do mundo mostrou algum palestino ao menos com uma [pistola de calibre] 38.

Opera Mundi: Que consequências pode sofrer o Estado de Israel após as 60 mortes decorrentes da violência na cerca?
Reginaldo Nasser
: Não vai acontecer nada. Política internacional é correlação de forças. Alguma grande potência vai apoiar a Palestina? Não. Israel tem um exército poderoso e o apoio dos Estados Unidos, ninguém vai fazer nada. Muitos governos árabes também continuarão a apoiar o Estado israelense. O Conselho de Segurança da ONU foi feito para agir com as potências. Até hoje, nunca houve uma solicitação de um possível acordo de paz no território e, se fosse cogitado, iria ter o veto dos Estados Unidos. Você pode ter as declarações de embaixadores e alguns líderes que condenam a repressão e o Exército de Israel, mas a Palestina não tem um grupo de países que ofereça ajuda.

Opera Mundi: De que forma a mudança da embaixada norte-americana se relaciona com a repressão israelense em Gaza?
Reginaldo Nasser
: A própria mudança da embaixada já é um ato simbólico, um ato de provocação por parte dos Estados Unidos. Fazer isso durante a Nakba é deliberadamente querer o conflito. Esse massacre é interessante para os Estados Unidos pois, além de existirem grupos econômicos que apoiam Donald Trump e suas medidas, o governo consegue desviar a atenção dos seus problemas internos para as questões no Oriente Médio.

***

O POVO PALESTINO PRECISA, MAIS DO QUE NUNCA, DA SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL
Luis Felipe Miguel em 16/5/2018

Os governos conservadores do Oriente Médio, com Arábia Saudita e Egito à frente, se mostram cansados de apoiar a causa palestina, que gera atritos com seu patrocinador, os Estados Unidos – ainda mais com o sionismo exacerbado da administração Trump. Desejam se aproximar de Israel para combater o que julgam ser seu inimigo comum, o Irã. O repúdio que manifestaram ao massacre em Gaza foi morno e burocrático.

Por isso, é cada vez mais fundamental afirmar que o fim da opressão aos palestinos é prioridade na agenda de todos os defensores dos direitos humanos e repudiar as políticas genocidas do Estado de Israel. O movimento BDS – de “boicote, desinvestimento e sanções” – é a principal iniciativa que organiza a solidariedade internacional à Palestina, propondo que sejam adotadas, contra Israel, sanções similares às que (também enfrentando resistência de governos e do capital, interessados em fechar os olhos para as atrocidades e manter business as usual) foram adotadas contra a África do Sul no período do apartheid.

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