Ocupações crescem com desemprego, mas governo Temer diz que está tudo lindo

Foto: Edson Lopes Jr./UOL.

Leonardo Sakamoto em 16/5/2018

O aumento na quantidade de ocupações no extremo da periferia da capital paulista, apontada por reportagem do UOL, na quarta-feira, dia 16/5, é mais uma prova de que a tão elogiada “retomada econômica” do governo Michel Temer não atingiu quem mais precisa, ou seja, a população mais pobre. Na celebração dos dois anos de seu governo, ontem, o presidente fez uma hora de autoelogios, mas ignorou que o emprego não decolou, pelo contrário, patina.

Segundo o IBGE, a taxa de desemprego ficou em 13,1% no primeiro trimestre deste ano. Maior que a do trimestre anterior (11,8%) e um pouco menor que aquela registrada no mesmo período do ano passado (13,3%). São 13,7 milhões de desempregados. Muitos deles sem recursos, tendo que escolher se comem ou pagam um aluguel.

A matéria de Wellington Ramalhoso sobre as ocupações traz um dado mais alarmante. Segundo a Fundação Seade, o extremo Leste da capital paulista teve a taxa mais alta de desemprego do município em 2017, com 20,2% (na cidade, ela foi de 17,3%). Em outra pesquisa, a Rede Nossa São Paulo e o Ibope apontaram que, em toda a Zona Leste, 53% das pessoas dizem não encontrar trabalho na região em que vivem.

E a economia nem vai tão bem assim: dados divulgados pelo Banco Central, também nesta quarta, mostram que ela caiu 0,74% em março em comparação a fevereiro. E a atividade no primeiro trimestre do ano foi menor que no último trimestre do ano passado.

“Houve uma explosão de ocupações na Zona Leste de um ano e meio para cá”, afirma Osmar Borges, coordenador da Frente de Luta por Moradia – ainda segundo a reportagem. “Teve uma explosão imensa de ocupações na região”, reforça Luciano Santos, presidente da associação de moradores da ocupação Pinheirinho 2, no distrito do Iguatemi, região de São Mateus, quase 30 km distante do centro.

Quando o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) ocupou uma área de 70 mil metros quadrados em São Bernardo do Campo (SP) em setembro passado, Guilherme Boulos, seu coordenador nacional e hoje pré-candidato à Presidência da República, afirmou a este blog que o desemprego e a corrosão da situação social estavam criando um “barril de pólvora nas periferias urbanas”. Por conta da falta de recursos para pagar o aluguel, as 500 famílias iniciais da ocupação se tornaram, em pouco tempo, mais de 8 mil.

A ocupação teve um bom desfecho, com a cessão de outros terrenos na região para a construção de imóveis a todas famílias acampadas através de um acordo com o então governador de São Paulo Geraldo Alckmin, também pré-candidato ao Palácio do Planalto. Para quem sofre despejos individuais e ficam sem um lar não restam muitas alternativas. Ocupar é uma delas.

Ao longo do tempo, fomos expulsando os mais pobres para regiões cada vez mais periféricas. Eles, que possuem menos recursos financeiros, gastam mais tempo e mais de sua renda com transporte do que os mais ricos que ficaram nas áreas centrais (com exceção dos condomínios-bolha espalhados no entorno, como as Alphabolhas, com suas dinâmicas de segregacionismo próprias).

As periferias não contam com equipamentos e serviços públicos como as regiões mais centrais. Dessa forma, deixamos ao relento quem mais precisa do apoio do Estado – enquanto os mais ricos, que poderiam se virar sozinhos, seguem no centro das atenções.

Daí você me pergunta: Por que é justo que um imóvel, localizado em um bairro dotado com infraestrutura, seja ocupado por outras pessoas, que não batalharam comprá-lo ou não tiveram direito à sua herança, só porque ele está fechado há anos, sendo casa de ratos e baratas, enquanto milhares de pessoas vivem em habitações precárias ou na rua? Ou, melhor: por que esse pessoal não vai ocupar imóvel no extremo da periferia e para de incomodar as “pessoas de bem”?

Daí eu te pergunto: você está precisando de um abraço?

O direito à propriedade não é absoluto, pois a efetivação dos direitos fundamentais (como direito à propriedade, à moradia, à educação, à alimentação, ao trabalho decente, à saúde, à liberdade de expressão… achou que direitos humanos só era “coisa de bandido”, né?) depende de uma costura em que nenhum deles avance sobre o outro a ponto de cometer injustiças. Em outras palavras, se uma pessoa rica puder dispor de toda a terra de um país, como é que as demais vão exercer seu direito à alimentação ou à moradia?

As três esferas de poder – federal, estadual e municipal – não têm garantido políticas públicas para dar acesso à moradia à população mais pobre. Locações sociais, desapropriação e reforma de imóveis vazios, construção de casas e prédios populares, planos de descentralização de empreendimentos econômicos na cidade para criação de vagas perto dos locais de moradia são insuficientes para avançarmos. Aqui também se patina.

Como já disse neste espaço, a desigualdade estrutural dificulta que as pessoas vejam a si mesmas e a outras pessoas como iguais e merecedoras da mesma consideração. Leva à percepção de que o poder público existe para servir aos mais abonados e controlar os mais pobres. Ou seja, para usar a polícia e a política a fim de proteger os privilégios do primeiro grupo, usando violência contra o segundo, se necessário for. Não é questão de implantar o O problema não é alguém ter um apartamento de 400 metros quadrados enquanto outro mora em um de 40. O que desconcerta é uma sociedade que acha normal um ter condições para desfrutar de um apê de 4 mil metros quadrados enquanto o outro vê seu cafofo minúsculo queimar até o chão na Favela do Moinho, em Paraisópolis, na Cidade Líder, no Largo do Paissandu, onde for.

Logo após a fundação de São Paulo, em 1554, o padre jesuíta José de Anchieta, com a ajuda de indígenas aliados, ergueu um muro de barro e estacas para ajudar a mantê-la “segura de todo o embate”, como descreveu o próprio. Os indesejados eram outros indígenas que não queriam se converter à fé cristã e, por diversas vezes, tentaram tomar o arraial. Ao longo dos anos, a vila se expandiu para além da cerca de barro, que caiu de velha. Foi de São Paulo que partiram os chamados “bandeirantes” – exploradores que caçaram, mataram e escravizaram milhares país adentro, mas também ampliaram o território brasileiro em sua busca por riquezas. Da África foram trazidos à força homens e mulheres negras, que tiveram de suportar árduos trabalhos nas fazendas que hoje são bairros da cidade, ou o açoite de comerciantes e artesãos do centro da capital. No início do século 19, a cidade tornou-se reduto de estudantes de sua primeira faculdade, que ainda hoje ensina Direito. Eles fizeram poemas sobre a morte e discursos pela liberdade. Depois cheirou a café torrado e a fumaça de chaminé, odores misturados ao suor de imigrantes, camponeses e operários, em levas que não pararam até hoje, apenas mudaram de sotaque.

Apesar da transformação da pequena vila em uma das maiores e mais populosas metrópoles do mundo, centro financeiro e comercial da América do Sul, aquele muro idealizado no século 16 ainda existe – agora, invisível. São Paulo assemelha-se a um castelo medieval. Conta com uma área mais rica e urbanizada em seu chamado “centro expandido”, cercada pelo fosso dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, e uma periferia mais pobre – onde vive-se com dificuldade e morre-se com facilidade. Morei na periferia da cidade pela maior parte da minha vida, portanto sei o quanto a minha cidade abre oportunidades e, ao mesmo tempo, fecha a porta na cara.

No bairro central do Jardim Paulista, arborizado e repleto de mansões, a idade média ao morrer é de 79,4 anos. Enquanto isso, a 19 quilômetros de distância, no periférico e pobre Jardim Ângela, repleto de habitações precárias, a média cai para 55,7 anos. Os dados são do Mapa da Desigualdade de 2017, estudo produzido pela Rede Nossa São Paulo.

Nós, moradores dessa área mais rica, sejamos progressistas ou conservadores, revolucionários ou reacionários, de esquerda ou direita, ateus ou cristãos, vivemos em relativo conforto e segurança em comparação com quem mora nas bordas do lado de fora.

Temos sido hábeis em manter o muro. Mas a periferia, que segue explorada, trabalhando para a grandeza da cidade e do país e tendo uma vida curta e difícil, é maioria. Daí a pergunta: essa paz artificial vai durar até quando?

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