Corujão do Dória: A desilusão da periferia de São Paulo com a grande promessa para melhorar a saúde

Dória em visita a uma unidade de saúde, em setembro.

Com Corujão da Saúde, um dos programas principais da campanha de Dória, realizar um exame ficou mais rápido, mas a demanda por consultas médicas subiu 173%.

Talita Bedinelli, via El País Brasil em 14/5/2018

“A prioridade é saúde, saúde, saúde”, afirmava à TV Bandeirantes João Dória, em uma de suas primeiras entrevistas como prefeito eleito de São Paulo. “Este é o problema mais grave da vida na cidade, principalmente nas periferias. Essa população mais pobre, mais humilde e necessitada precisa sentir a presença da Prefeitura”, justificava ele. Mas, pouco mais de um ano depois, os moradores das franjas da cidade afirmam que ainda não sentem a presença do poder público ao procurar atendimento médico. Apesar de admitirem que fazer exames ficou muito mais rápido após o Corujão da Saúde, mutirão de três meses criado pelo ex-prefeito para reduzir a fila destes procedimentos, conseguir realizar uma consulta com um médico ainda é um martírio. O número de pedidos nesta fila aumentou 173% no último ano, segundo os dados atualizados da Prefeitura.

Na última quinta-feira, Ivonizete Nunes dos Santos, de 52 anos, deixava a Unidade Básica de Saúde (UBS) São Mateus I com uma guia que exibia a data de seu próximo encontro com um ginecologista: 23 de outubro de 2018, ou seja, em pouco mais de cinco meses. “O problema está sério aqui. Antes tinha psicólogo, agora não tem. Ortopedista também só em outra unidade. Eu moro neste bairro há 37 anos e uso este posto de saúde há 30. A cada gestão que passa parece que piora”, afirmava ela. “Os exames, de fato, melhoraram, antes a gente esperava meses. Mas de que adianta, se não tem médico? Tenho problema cardíaco, fiz os exames e demorei um ano para conseguir passar no cardiologista outra vez. Quando consegui, tive que refazer alguns deles porque já não valiam mais.”

Se em março de 2017, 328.619 pedidos esperavam na fila das consultas, com um tempo médio de espera de 141 dias (quase cinco meses), atualmente a demanda está em 897.402, ou seja, houve um salto de 173%. A Secretaria da Saúde afirma, entretanto, que o tempo médio de espera atualmente é de 30 a 60 dias, pois houve ampliação de vagas e um melhor gerenciamento da regulação das filas. Os campeões de pedidos acumulados são com ortopedista (124.126), oftalmologista (71.826), neurologista (59.872) e cardiologista (46.402).

O aumento da fila das consultas pode ser explicado por uma combinação de dois fatores: a maior demanda gerada pelo Corujão, que passou a realizar os exames mais rapidamente, e o não acréscimo em quantidade satisfatória de profissionais médicos ou de consultas à disposição da população. Este era um dos efeitos antecipados por especialistas quando Dória anunciou a iniciativa. Eles afirmavam que sem um investimento na rede da Prefeitura o mutirão teria um efeito apenas de curto prazo e sobrecarregaria a demanda por consultas.

Apesar de não haver mais relatos de longa espera para a realização de exames, esta fila também aumentou um pouco em relação aos dados de março de 2017. Na época, existiam 190.473 pedidos aguardando, apesar de Dória afirmar que havia zerado esta demanda com o Corujão – reportagem publicada pelo El País em abril do ano passado apontava que a iniciativa conseguiu reduzir em 67% a fila de exames, mas, como a iniciativa contemplou apenas seis tipos de exames da rede, a fila global não havia acabado após os três meses da iniciativa. Dados disponibilizados pela Prefeitura referentes a 27 de abril deste ano mostram que a quantidade de exames em espera passou para 214.336, o que pode indicar que, sem os exames extras do mutirão, a demanda reprimida está voltando a aumentar. A Prefeitura nega e diz que a demanda mensal atual é menor que a quantidade de vagas disponível (leia abaixo). Afirma ainda que o posto de saúde de Ivonizete contratará um outro ginecologista devido à alta demanda.

Números levantados pelo El País no sistema de tabulação do DataSUS (que agrega os dados de saúde de todos os municípios e Estados do país) mostram que entre dezembro de 2016, final da gestão Haddad, e dezembro de 2017, final do primeiro ano de Dória, houve uma diminuição de 46 vínculos médicos nas UBSs da capital. Também diminuiu em 76 o número de vínculos nas Assistências Médicas Ambulatoriais (AMAs), unidades que funcionam como uma espécie de pronto-socorro para casos menos urgentes. No geral, a gestão Dória aumentou em 1.691 os vínculos médicos, um número concentrado especialmente em prontos-socorros e hospitais-dia (que pode realizar pequenas cirurgias). O maior acréscimo desses médicos se deu em três unidades parceiras privadas e não na própria rede da prefeitura.

Os dados de atendimento por especialistas médicos levantados pela reportagem também mostram que eles se mantiveram, no geral, no mesmo nível do último ano da gestão Haddad. Enquanto houve um aumento em 29 tipos de atendimentos, a queda em outros 24, como os de oncologista clínico, cirurgião do aparelho digestivo e hematologista, equilibraram a equação.

Há, agora, a preocupação de que a quantidade de unidades de saúde diminua nos próximos anos, já que a Prefeitura planeja unificar algumas. Enquanto a gestão municipal diz que não haverá prejuízo para a população, os usuários do Sistema Único de Saúde protestam. O caso foi parar no Ministério Público e, após questionamentos do órgão, a Secretaria da Saúde decidiu paralisar os planos e avaliá-lo melhor.

Em algumas unidades, entretanto, a reestruturação já havia começado e na última quinta-feira os médicos ainda não haviam retornado. Era o caso da UBS Tietê II, também em São Mateus. Usuários ainda estavam confusos sobre o que ia acontecer. “Os médicos voltaram?”, perguntava a doméstica Domingas Ribeiro, 38, ao passar na frente da unidade. O local seria transformado em uma unidade de fisioterapia e, por isso, os usuários da UBS passaram a ser atendidos pela Tietê I, onde a espera pela consulta com um pediatra demorava duas horas naquele mesmo dia. “No mês passado, fui na UBS procurar um pediatra para meu filho e disseram que os médicos já não estavam mais lá”, explicava Domingas. “Para chegar na Tietê I eu tenho que pegar uma condução, o que dificulta. E todo mundo que era atendido aqui foi levado para lá, imagina a lotação?”. A doméstica é outra das ex-eleitoras assumidas de Dória. “Não vou mentir, eu votei nele. Achei péssimo. Não mudou nada, na saúde até piorou”, acredita ela. “Meu marido fala que agora não é para votar em ninguém. Mas como fazer? Eu acho que se não votar fica até pior.”

O posto de saúde que Ivonizete utiliza fica em São Mateus, um dos últimos bairros da zona leste da cidade, onde 74% dos domicílios ganham até cinco salários mínimos, de acordo com o último Censo, de 2010. É nesta região da cidade, e entre este estrato social, que a popularidade do ex-prefeito atinge o menor nível. Quando ele assumiu, logo após a vitória ainda no primeiro turno contra Fernando Haddad, a expectativa era de que, como gestor, ele conseguiria resolver o problema da saúde rapidamente. Mas, assim como aconteceu Haddad, que perdeu a confiança da periferia ao longo de seu mandato, as altas expectativas de uma população que há décadas sofre com este (e outros graves problemas) acabaram trabalhando contra ele.

“Acho que nada mudou. Parece que a saúde até piorou. Eu votei no Dória, infelizmente. Mas me arrependi porque ele não é nada do que pensei. Primeiro, ele não terminou o mandato, o que foi uma traição. Depois, não cumpriu o prometido”, afirmava o gráfico Edson Milton Barbosa, 67 anos, na porta da UBS Tietê I, também na zona leste. Dória deixou a Prefeitura para disputar as eleições para o Governo do Estado, em outubro deste ano. Apesar de aparecer em primeiro lugar nas pesquisas para a próxima eleição, ele terá agora o desafio de não ser prejudicado pelo aumento de sua taxa de rejeição, especialmente na capital paulista.

Se na zona leste, por exemplo, após um mês de Governo a pesquisa Datafolha apontava que sua gestão era considerada ótima ou boa por 42% e ruim ou péssima por 16%, após um ano e três meses estes números praticamente se inverteram: só para 14% a gestão havia sido ótima ou boa, enquanto para 47% era considerada ruim ou péssima. A tendência se seguiu em toda a cidade: a taxa de rejeição do ex-prefeito foi de 19% (no último Datafolha antes da eleição municipal) para 49% no levantamento deste mês. “Não voto nele pra Governador. Meu voto vai ser zero, zero e confirma”, relata Edson.

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