A mãe PM que matou um ladrão em Suzano e a espetacularização da irresponsabilidade

Nathalí Macedo, via DCM em 13/5/2018

A tragicômica série da vida real House of Brazil mostrou seu timing afiadíssimo no Dia das Mães.

Uma PM à paisana reagiu a um assalto em Suzano-SP e disparou contra o ladrão, que morreu no hospital.

A cena foi filmada em um ângulo privilegiado e o vídeo viralizou na internet: não só pelo ângulo, mas porque o treinamento militar, quando bem aproveitado, faz com que uma cena de morte que poderia ser banal pareça um filme de guerra.

Bom entretenimento para a nossa urgente – e, por vezes, irresponsável – sede de justiça.

À primeira vista, já dá pra notar que Kátia da Silva Sastre, que tinha ido participar de uma festa de comemoração do Dia das Mães na escola das filhas, estava preparada para o que decidiu fazer.

Foi avisada por outra mãe sobre a presença do assaltante armado com um 38 na porta da escola, se afastou da cena, sacou o próprio revólver e ressurgiu apontando a arma para o ladrão. Depois de feri-lo, rendeu-o e desarmou-o, enquanto as crianças e mães fugiam da cena caótica.

A mãe PM foi homenageada, com direito à presença do governador do estado, pela corporação que integra há vinte anos.

Tratada como heroína, ela explicou que reagiu depois que o assaltante disparou duas vezes contra as crianças.

“Essas pessoas [criminosos] se descontrolam facilmente. Eu não sabia se a reação dele seria atirar nas crianças ou na mãe ou no responsável que estava na porta da escola. Pensei apenas em defender as mães, as crianças e a minha própria vida e da minha própria filha […] Minha preocupação foi que minha intervenção fosse mais próxima a ele. Cessar a agressão dele de forma que não machucasse ninguém”, falou.

A intervenção não machucou ninguém (além do próprio assaltante), e a carnificina virou espetáculo, como de costume: o governador aplaudiu, os programas sensacionalistas mostraram o rosto do bandido hospitalizado em alta definição, e a história de final feliz pra (quase) todos virou entretenimento.

A repercussão do caso tem a ver com a sede de justiça com as próprias mãos que vem acompanhando a indignação acumulada do brasileiro, em um país em que a legalização das armas de fogo é defendida por uma parcela considerável da população.

A cena de uma mãe rendendo e matando um assaltante na porta de uma escola pode parecer, aos desavisados – pessoas que gostam de vídeos violentos, em geral, são desavisadas – romanticamente cinematográfica.

Até o Seu Zé, contador, que defende a legalização de armas para o cidadão de bem, deve ter tido a ligeira impressão de poder defender a si mesmo e à própria cria com 0,5% de coordenação motora e problema de hipertensão, mas o fato é que o heroísmo não é pra qualquer um.

É privilégio de policiais ou dublês de filmes policiais, treinados para a guerra e para o espetáculo.

Vinte anos de treinamento não são vinte dias, e nem mesmo isso garante que ninguém saia machucado numa cena de guerra urbana como esta.

E se o plano da policial falhasse como falhou a arma do ladrão no segundo disparo? E se uma criança aterrorizada fosse atingida? E se a moda pega no país que adora amarrar assaltantes no poste e açoitá-lo como a um bicho em frente às câmeras?

O problema não é apenas o ato em si, mas a espetacularização do ato – não apenas midiática, mas, neste caso, também política – no momento delicado em que uma onda de conservadorismo ameaça a própria ordem do país.

Espetacularizar um ato perigoso como reagir a um assalto – na presença de crianças, para aumentar a tensão – é no mínimo irresponsável.

Professor de Criminologia da Unisinos e advogado criminalista, Alexandre Dargél diz que reagir costuma ser mau negócio para o assaltado, que está em desvantagem. “A vítima é pega de surpresa. Na estatística, em menos de 10% dos casos ela tem sucesso”, conta.

Em vez de dar flores à policial, a corporação deveria tratar o caso com menos romantismo e mais realismo: reagir a assaltos não é bonito e não é recomendável, porque não estamos em um filme policial.

Não dá pra esperar esse tipo de postura dos militares – nem de quem pede a volta dos militares – mas a ínfima esperança de democracia que ainda vive em mim esperava isso de um governador e, quem sabe, das pessoas de bom senso.

***

UM POUQUINHO DE MATEMÁTICA PARA MOSTRAR POR QUE A REAÇÃO A UM ASSALTO É ERRADA
Fernando Horta em 16/5/2018

Imagine uma situação de reação. Dois indivíduos armados, um querendo matar o outro. Vamos abstrair as pessoas, todas. Elas contam na análise, mas para facilitar, vamos tirar.

Dois indivíduos armados e um decide atirar. Veja que quem decidiu foi a policial. O assaltante ainda não tinha decidido.

Com a decisão da policial o que pode acontecer? Vamos contar que ela tem o melhor treinamento do universo, a melhor pontaria da história, os reflexos mais apurados que qualquer ser humano (tudo o que ela não tem, mas vamos deixar assim). E, para sermos justos com a análise, vamos colocar o bandido como sendo o mais desgraçado possível. O mais mortal, o mais “malvadão”. Treinado no submundo do crime. Disposto a matar e chacinar 30 pessoas se estiverem ali. Matar e comer criancinhas. Um bandido com as mesmas características técnicas da policial, mas é o mal-encarnado.

O que pode acontecer?

Quatro coisas, tomando a decisão de atirar dos dois lados (lembre-se que o assaltante também atirou depois da policial, portanto os dois atiraram). Quatro coisas podem acontecer:

(1) a policial matar o ladrão;
(2) o ladrão matar a policial;
(3) os dois errarem os tiros (e que deus ajude quem está próximo);
(4) Os dois morrerem.

Agora vamos perguntar. Numa sociedade punitivista, cheia de machões de internet, queremos a policial viva e o ladrão morto, não é mesmo?

“Sim, queremos”.

Então qual a chance disto acontecer? 25% das vezes. Eis que apenas no resultado (1) nossa condição está resolvida. Isto quer dizer que a cada 4 policiais que reagem apenas um conseguirá sair com vida e matar o ladrão.

Qual a chance de a policial morrer? É de 50%: o resultado (2) e o (4) o ela morre. Então, reagindo, a cada quatro policiais reagindo um vai sobreviver e matar o ladrão e dois vão morrer.

Resultado, no longo prazo, policial reagir significa morte de policiais.

Agora, já vimos que a chance de morte do policial é grande (é igual à do ladrão no longo prazo, mas não somos moralistas nem defendemos ladrão, então ele que se exploda!). Mas existe uma outra avaliação.

Uma em cada quatro reações nem o ladrão, nem o bandido vão se acertar. Assim, o bandido não será morto (ou preso), nem o policial morrerá. Mas… balas serão disparadas podendo acertar civis sem nenhuma responsabilidade. Nenhum policial é assim tão irresponsável. Então, certamente ele não quer atirar sem um resultado prático.

Voltando ao nosso exercício. Em cada quatro policiais que resolvem reagir a um assalto, apenas uma vez vai matar o ladrão e sobreviver, dois policiais serão mortos e ainda existe uma possibilidade (que temos que evitar) de que se tenha balas a esmo prontas a matarem civis.

A ação de “atirar” para prender o ladrão, portanto, tem apenas 25% de chance de sucesso já que as outras três alternativas (morte do policial e balas voando para matar civis não nos interessam).

Assim, como eu tinha explicado, a policial agiu errado e não deveria ter reagido. Colocou a vida das pessoas e a dela em risco. Aumentou a chance de outros policiais serem mortos na mesma atitude. Qualificou o conhecimento dos ladrões, que virão melhor preparados e em maior número.

E não defendo o ladrão (que ele se exploda). Defendo a vida dos policiais e das pessoas civis. E estou usando matemática e não moralidade.

2 Respostas to “A mãe PM que matou um ladrão em Suzano e a espetacularização da irresponsabilidade”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    Eu na acredito no q li,mas defender um ladrão assaltante, q estrava na prisão e recebeu indulto de saída pelo dia das Mães,e o anjinho já sai pelas ruas a assaltar e tentar sei lá, ele estava armado sim, e a PM agiu corretamnente, ela defendeu a sua e as d+ crianças q estavão na frente da escola p uma apresentação infantil p homenmageart as mães, agora vem vocês querer defender um bandido infeliz,ela fez pouco, merecia o pior qser morto,. teriam de amarrar numa árvore e tocar fogo nele sim, jamais defenderia um vagabundo destes,pelo menos menos um p sustentar. ________________________________________

  2. Asdrubal Caldas (@AsdrubalCaldas1) Says:

    Não vou perder tempo com um texto cheio de ranço. Vou apenas me ater neste parágrafo: “E se o plano da policial falhasse como falhou a arma do ladrão no segundo disparo? E se uma criança aterrorizada fosse atingida? E se a moda pega no país que adora amarrar assaltantes no poste e açoitá-lo como a um bicho em frente às câmeras?”, e responder às suas hipóteses tendenciosas. Primeira: E se o bandido tivesse optado por pegar primeiro a bolsa da policial, e descobrisse que ela era policial, e começasse a matança, atirando primeiro nela? Quem iria agir para que outras pessoas não viessem a ser atingidas? E se você que escreveu o texto fosse uma das mães com o seu filho, ali presente? Você tendo o seu filho salvo pela policial, não iria agradecê-la pela atitude rápida e segura, tomada por ela? Ou continuaria conjecturando: E se…? E se….? E se….? Segunda: Obvio que se uma criança fosse atingida, é por que ao menos um adulto já teria sido vítima. Pois uma criança não oferece risco ao marginal, já um adulto sim. E depois temos que levar em consideração que, uma policial com 20 anos de serviços prestados a corporação, já teria tido o treinamento suficiente para encarar de frente uma situação como esta. E pelo visto esta policial desempenhou bem a sua missão. Pense. Qualquer duvida me ligue. Combinado?

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