Fernando Horta: As mulas-sem-cabeça

Fernando Horta em 10/5/2018

A figura é conhecida do folclore brasileiro. Em cada momento histórico aparece com pequenas diferenças. Em alguns é preta, outras vezes é descrita como marrom. Os momentos de sua aparição também são mencionados de forma diferente. Em algumas narrativas, a mula-sem-cabeça surge no início da noite de quinta feita e vai até sexta, em outras não haveria esta regra sobre “dias”.

Nenhuma das histórias, entretanto nega as três grandes características da lenda da mula-sem-cabeça. É uma história carregada de misoginia (já que é punição às mulheres), conservadorismo (já que a maldição acomete a quem quebrar regras e tiver relações sexuais com padres) e opõe a bestialidade à civilização. A mula é um animal indispensável para as populações pobres do Brasil. De norte a sul. Veja-se que há o componente de classe aqui – como na maioria das figuras do folclore brasileiro – já que nunca se ouviu falar do “cavalo sem cabeça”. Quem perde a cabeça e se torna bestial é o animal representativo das relações das populações pobres. A pacata, necessária e doméstica mula, ao romper as regras sociais de “deitar-se” com os “ingênuos” padres, perde a cabeça e passa a incendiar o ambiente em que vive. É uma história sobre a ruptura de regras e preceitos socialmente estabelecidos, levando ao elemento corruptor tornar-se incivilizado, bestial, inumano, violento e irracional. A figura da mula como uma serviçal feminina – pacata que trabalha durante o dia e obedece a seus donos – é transformada num ser bestial noturno com alto poder destrutivo, impossível de ser controlado.

Afora as óbvias características misóginas, o mito da mula-sem-cabeça traz ainda a questão da irracionalidade e violência que surge naqueles que estão fora do padrão civilizatório. O conservadorismo que define quem poderia ter relações sexuais com quem também se faz entender como uma regra socialmente aceita. Os que estão dentro deste limite são mulas normais, trabalhadoras, cumpridoras de suas obrigações, necessárias para a sociedade, pacatas, pacíficas. O mesmo animal, ao romper com os padrões civilizatórios (que é representado pela perda da cabeça), passa a ser coordenado pelos seus instintos (o fogo que sai de dentro da mula) e se torna incontrolável. Um fantasma, um espectro a ameaçar a todos.

O Exército está novamente dentro do Golpe em 2016. Assim como estivera em 1964, temos hoje tanques nas ruas, acordos com políticos (segundo Jucá) e ameaças ao meio civil, incluindo aí não apenas políticos, mas juízes e ministros. Os meios podem ter mudado. Antes utilizavam-se jornais e televisões para ameaçar. Hoje é o Twitter. De qualquer forma, as fardas estão nas ruas e, a despeito das tentativas de Villas Boas, parece que o fascismo existente no Exército há muito tempo não pode ser contido. Este fascismo interinstitucional, que está presente desde os “manuais” de organização da tropa até nas cantorias e brados usados para “manter a moral”, incita e responde ao fascismo disseminado na sociedade. Aqueles sedentos pela sensação do gozo dos micropoderes vestem fardas, armam-se, fazem continência, vídeos apologéticos e cantam ao redor de símbolos que, na realidade, não os pertencem.

Esta relação, de caráter claramente sexual, entre os frustrados socialmente por não poderem exercer seu sadismo sobre os desfavorecidos (dentro da sociedade) e os que tem por função social cultuar o sadismo e a violência (ainda que por papel delegado socialmente), entra num moto-contínuo de perversão que se torna a mola-mestra do fascismo. Não se trata de “lutar pela pátria”, “contra a corrupção” ou “defender o brasil”. Trata-se de se ter um espaço social com liberdade de uso da violência e até, em alguns casos, a exaltação social da força e da irracionalidade. É isto que atrai uma parcela da população ao fetiche do uniforme. Estes que em sociedade se sentem frustrados, enxergam (com prazer) o uniforme como símbolo da violência perpetrada legalmente.

É preciso lembrar, pois, que as mulas, que servem e são tão necessárias para a sociedade, ao perderem as noções de submissão aos desígnios legais e sociais perdem a cabeça. E neste processo elas conservam seus corpos, mas perdem sua civilidade.

As pesquisas mostram que mais de 21% da população estaria contra a democracia e apoiando um eventual golpe de Estado, ou seja, 21% da população apoia que se corte a cabeça da mula. A mula, outrora servidora e cumpridora de seus papéis sociais, passaria a incendiar o ambiente em que vive e compartilha com outros. A mula-sem-cabeça é incontrolável. A violência que é capaz de produzir, retiradas as amarras legais e sociais, é indizível.

O Exército de hoje é muito pior que o de 1964.

Em 1964, havia também o medo histérico do “comunismo” e a noção de “salvadores da pátria”. Mas existia uma visão estratégica de “segurança e desenvolvimento”. O Exército de 1964 tinha como meta a industrialização do Brasil, vista como essencial para que o país pudesse ter uma forma de defesa autônoma. Esta visão, já no final da década de 60, fez com que os militares rompessem muitas das relações com os EUA. Alguns falam em “nacionalismo” militar, mas a verdade é que os militares daquela época compreendiam que um país para ter forças armadas fortes, precisava ter economia forte, nacionalmente estabelecida e sob o comando do seu governo.

Os militares de hoje estão apoiando a desconstrução da indústria do país, a entrega de empresas de tecnologia e defesa para o capital internacional e abrem mão, de bom grado, do controle sobre reservas de petróleo nacional. Além disso, assistem à interrupção de seus projetos estratégicos de inteligência e armamento (como o submarino nuclear, a compra de caças, o controle via satélite nacional das fronteiras) em troca de uma posição subalterna de controladores de favela no Rio de Janeiro.

Há, claro, o apelo sádico e sexualmente definido em trocar a grande ideia de segurança nacional e seus projetos correlatos pelo exercício diário das microviolências contra as populações mais pobres. Um tapa, um pisão de coturno em um pé descalço ou com chinelo causam uma reação orgásmica de poder. A sensação de carregar nas mãos um aparato capaz de acabar com as vidas dos que o cercam, com um apertar de dedos, certamente coloca psicologicamente um frustrado acima dos reles mortais. Contudo, não foi para isto que a sociedade aceitou abrir mão da violência e colocou esta possibilidade sob controle de alguns. Presume-se que aqueles que portam armas seriam os menos inclinados a usá-las entre todos nós.

O Exército perde sua finalidade social ao irromper-se contra seu povo e sua população. As Forças armadas, que perdem o seu sentido real de defesa do país e partem para o apoio político de determinadas vertentes e ideias, mesmo com a destruição da economia e da sociedade que juram solenemente defender, são exatamente como a mula-sem-cabeça, que tem sua referência racional cortada para se tornar bestial e impregnar o ambiente em que se move com violência. Em 1964, havia o histerismo, o sadismo e o irracionalismo social, mas havia também a noção de que era necessário criar um país forte, um país industrializado, com tecnologias próprias e controle sobre suas riquezas geopolíticas. Hoje, há apenas o histerismo, o sadismo e o irracionalismo. Envoltos em brados e cânticos viris, que muito se assemelham ao corcovear da mula.

No caso da lenda, ela deita-se com padres para perder a cabeça. Com quem, afinal, os militares brasileiros estão a deitarem-se?

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