Afinal, quem é Ciro Gomes?

Uma coisa é você fazer parte das forças progressistas e ser obrigado a estabelecer uma aliança com setores reacionários para tentar impor uma agenda progressista para o país. Outra coisa é você ser a parte reacionária dessa aliança.

Carlos D’Incao em 12/5/2018

Está na hora de colocarmos um ponto final na questão de quem é, do que representa e do que fazer com a candidatura de Ciro Gomes. Um vacilo nas atuais circunstâncias pode ser decisivo para a esquerda e representar um retrocesso histórico para a classe trabalhadora, de dimensões apocalípticas.

Ciro Gomes é da direita. Não tenhamos nem um pingo de dúvidas sobre isso. Seu passado o denuncia e seu presente o confirma como um expoente desse campo.

Quem poderia achar o contrário de alguém que já foi do Arena (PDS), do PMDB, do PSDB, do PPS, do PROS (partido que hoje declara apoio a Bolsonaro) e que hoje está no PDT que não é nem sombra daquilo que já foi na era brizolista?

Como alguém que apoiou em 2010 a pré-candidatura de Aécio Neves, lhe rasgando a seda como se o mesmo fosse – junto com o PSDB – “o presidente que iria unir os homens e mulheres de bem em nosso país”, pode hoje ser considerado de centro-esquerda?

Alguns, corretamente devem lembrar: Ciro foi também ministro de Lula na composição do Presidencialismo de coalisão. Assim como foi Michel Temer. Mas é preciso saber fazer uma distinção lúcida dos fatos.

Uma coisa é você fazer parte das forças progressistas e ser obrigado a estabelecer uma aliança com setores reacionários para tentar impor uma agenda progressista para o país.

Outra coisa é você ser a parte reacionária dessa aliança, montar uma quadrilha, se unir com o grande capital e agora dizer que a esquerda deveria se submeter a essa aliança.

Avancemos mais: Ciro Gomes, embora tenha criticado o processo judicial que condenou Lula, não acredita que as decisões desses tribunais foi um golpe que pretende sepultar a esperança de se reverter as famigeradas reformas ultraneoliberais que assolam o país. Nem mesmo reconhece que há uma flagrante fraude no processo eleitoral, ao tentar retirar o candidato favorito do pleito (Lula), mesmo ele sendo inocente.

Ciro Gomes atuou, ao longo do processo golpista contra Dilma, apostando no óbvio fiasco das reformas ultraneoliberais que estavam por vir e que rapidamente se tornariam impopulares. Sempre com os olhos em 2018, falou duro contra a direita golpista, encantando setores inocentes da esquerda. Mas nunca deixou de fazer veementes críticas ao PT e à Dilma, colocando nas vítimas o ônus do crime cometido contra elas.

Atualmente Ciro avalia que não restam mais dúvidas de que Lula não será mais candidato e… resolveu iniciar sua traição programada.

Em primeiro lugar vai aumentar o tom da retórica de que as eleições sem Lula não são uma fraude e de que “ninguém é dono dos eleitores”. Irá aprofundar diálogos com os candidatos da esquerda e já possui de prontidão um exército de cabos eleitorais para militar nas redes sociais.

Esses cabos eleitorais – muito bem pagos – estão infiltrados especialmente nos grupos de esquerda, e estão sempre atentos para defender Ciro, sua suposta brilhante gestão no distante Ceará da década de 90 e que – apesar de todas as evidências – ele é sim um candidato de “centro-esquerda” e o único capaz de vencer a direita.

Nos bastidores, Ciro recebe dinheiro dos banqueiros, defende a continuidade de uma agenda ultraneoliberal, apoia a reforma da Previdência, se porta como legítimo defensor dos interesses do mercado e com grande eloquência repete os ditames dos economistas liberais neokeynesianos.

Recentemente ganhou a simpatia e o apoio da grande imprensa e nas próximas semanas começará a tomar os holofotes dos grandes canais de comunicação.

Sua meta é legitimar a fraude das eleições de 2018, dividir o “legado” de Lula (a operação abutre) e criar a ponte para a meta final da direita e do grande capital nacional e internacional, qual seja, destruir o Partido dos Trabalhadores e os movimentos sociais organizados no Brasil.

A perversidade de Ciro Gomes se materializa no fato de que ele é o único candidato que se porta como uma opção da esquerda, da centro-esquerda, do centro, da centro-direita e da direita. E pior: ele é um candidato muito inteligente e muito bem preparado, o que o torna um inimigo de altíssima periculosidade.

Caso tenha sucesso e se eleja presidente, sua traição programada se concluirá com adendos fundamentais: Ciro Gomes é também uma pessoa arrogante, destemperada e autoritária. Além da continuidade de uma agenda ultraneoliberal, ele atacará com violência política e militar a esquerda brasileira e os movimentos sociais. Por fim, caberá a ele ser o coveiro do Presidencialismo e o implementador da trava oligárquica do Parlamentarismo.

Para os espectadores que não observam as águas mais profundas da política brasileira, ver Manuela d’Àvila e Guilherme Boulos conversando com Ciro apenas o credencia como uma opção do polo progressista.

Aqui não há inocência. Caso o PCdoB caminhe nessa direção, será mais um partido de esquerda que traiu a classe trabalhadora em troca das moedas de Judas (como fez fartamente nas eleições municipais de 2016, quando em muitas e grandes cidades fez alianças com o DEM e com o PSDB).

O mesmo vale para o PSOL, embora o significado de Ciro Gomes seja mais claro para as suas lideranças, com a óbvia exceção do grupo da Luciana Genro (que ainda acredita que o Estado Islâmico é um braço libertário do Oriente Médio).

Não podemos errar nesse momento: a única opção da esquerda é se unir ao Partido dos Trabalhadores, que possui a hegemonia dos movimentos sociais, é o partido mais popular, com a maior bancada no Congresso Nacional, com mais senadores, com mais governadores, que terá mais tempo na televisão e terá acesso a um fundo partidário gigantescamente maior do que o de qualquer candidato.

Fingir que tudo isso não existe e que um eventual impedimento da candidatura de Lula abre o campo para alianças sem a liderança do maior partido da esquerda é fazer exatamente o jogo da direita.

Caso a esquerda tenha que caminhar sozinha em uma candidatura do Partido dos Trabalhadores que assim seja e que venha a servir para denunciar a farsa dessas eleições. Não faltam quadros no PT que, diferentemente de Ciro, não ficaram vagando por legendas da direita até encontrar no combalido PDT espaço para suas ambições eleitorais.

E não tenhamos dúvidas: qualquer quadro do PT terá o triplo de votos que Ciro Gomes. E quando esse cenário se fechar, Ciro vai se entregar ao campo que ele pertence: a disputa de votos com Alckmin e Bolsonaro.

A História irá contemplar aqueles que não viraram as costas ao povo brasileiro em um momento tão grave e tão nebuloso. Mas que nesse caminho sejam também apontados todos os traidores da classe trabalhadora, a começar pelo mais perverso e perigoso inimigo, forjado nas mais sujas alcovas da direita brasileira: Ciro Gomes.

Carlos D’Incao é historiador.

***

PARA ONDE VAI CIRO?
André Singer em 12/5/2018

A filiação do empresário Benjamin Steinbruch ao Progressistas (antigo PP), noticiada nesta semana, de modo a poder se tornar vice na chapa de Ciro Gomes (Partido Democrático Trabalhista, PDT) à Presidência da República, expressa as ambiguidades que cercam a candidatura do ex-governador cearense.

Embora se trate, ainda, de balão de ensaio, a articulação existe. O irmão do candidato, Cid Gomes, um dos coordenadores da pré-campanha, considerou “excelente” o nome do industrial. O presidente da agremiação brizolista, Carlos Lupi, declarou que é “o que se quer de um vice”.

O dono da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) filiou-se, sem alarde, ao partido de Paulo Maluf às vésperas de se encerrar o prazo legal que permitiria candidatar-se.

De acordo com as notícias, dois Ciros teriam participado das conversas prévias à filiação: o Gomes e o Nogueira, presidente da sigla malufiana e senador pelo Piauí. No rastro da possível aliança existe a perspectiva de atrair, também, o DEM, com o qual os “progressistas” encontram-se, por ora, comprometidos.

Para quem está surpreso, convém lembrar que Ciro começou a carreira no PDS (ex-Arena), militou por muito tempo no PSDB, por meio do qual chegou a ministro da Fazenda, e passou, mais recentemente, pelo PROS (Partido Republicano da Ordem Social).

Embora crítico contumaz da aliança estabelecida pelo PT com o PMDB, sobretudo no segundo mandato de Lula, o político cearense nunca deixou de cultivar os velhos contatos conservadores. Manteve a simpatia do conterrâneo Tasso Jereissati, mesmo depois de deixar o PSDB, e cuidou de antigas pontes estabelecidas com o PFL (hoje, DEM), que o apoiou a presidente em 2002.

Depois da reeleição de Dilma, Ciro engajou-se na criação de uma frente parlamentar envolvendo forças conservadoras para substituir o papel chave do peemedebismo no governo.

A empreitada resultou em rotundo fracasso. Eduardo Cunha galgou a Presidência da Câmara e trouxe a guilhotina do impeachment para o centro da cena. Mas o líder pedetista parece continuar a crer que é possível contornar o PMDB, buscando alianças à direita dos seguidores de Temer (lembrar que foi uma senadora “progressista” que elogiou “levantar o relho” contra a caravana de Lula no Sul).

O pragmatismo de Ciro é compreensível. Trata-se de um político profissional disposto a fazer o necessário para ganhar. Atrair um grande capitão de indústria, como fez Lula com José Alencar, soma. Do ponto de vista da esquerda, entretanto, tais manobras complicam a formação de um programa comum.”

Leia também:
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Palmério Dória: As janices de Ciro Gomes

Uma resposta to “Afinal, quem é Ciro Gomes?”

  1. COPACABANA EM FOCO Says:

    Ciro Gomes é um Collor da vida. Nunca confiei nele.

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