Feira do MST é apenas uma amostra do que assentados realizam

Lourdes Nassif, via Jornal GGN em 3/5/2018

Mesmo com os números da reforma agrária difíceis, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) ainda faz, com sua Feira Nacional uma amostra do que é feito pelos assentados como forma de prestar contas à sociedade. Num quadro em que há dois anos nenhum novo cadastro para assentar famílias é feito, o MST traz a conquista, obtida com respeito à terra, à diversidade das regiões e fortes na produção sem nenhum tipo de agrotóxico.

João Paulo Rodrigues é taxativo ao dizer que se arrisca a afirmar que esta é a maior feira do Brasil do ponto de vista da diversidade. Ele é dirigente nacional do MST e porta voz nesta edição da Feira que começou na quinta-feira, dia 3/5, e vai até domingo, dia 6, no Parque da Água Branca, na capital paulista. João Paulo informa que lá serão comercializados mais de 1,2 mil itens produzidos em 23 estados e no Distrito Federal, locais onde o movimento se organiza.

O dirigente vai mais longe ao lembrar que o agronegócio é, basicamente, monocultura. São cinco produtos do agronegócio: soja, cana, papel, boi e milho, contra a diversidade do movimento. E o MST, de todo o Brasil, leva 330 toneladas de produtos em 1,2 mil itens diferentes que, por si, falam sobre o que é e a importância da reforma agrária.

Neste momento delicado da vida política brasileira e de ódio crescente aos movimentos sociais, a estratégia do MST é dialogar com a sociedade a partir da sua produção, informar que o fim e a tarefa da reforma agrária é a produção de alimentos saudáveis, é a luta por políticas sociais onde todos tenham as mesmas oportunidades, é o bem estar. Não é guerra que o MST busca, ao contrário, é a pacificação em torno de suas bandeiras e levar a certeza de que este é o caminho certo, já alcançado em outros países.

Sempre bom lembrar que a violência no campo tem como vítimas exatamente o lado dos camponeses, então é bom frisar que o MST não quer a luta, quer a pacificação. Desde o golpe de 2016 foram 106 mortos no campo, todos ligados à luta pela terra, nenhum na luta contra os que lutam contra a terra.

Este cenário de muitas mortes no campo e poucos assentamentos realizados era a realidade em 2003, quando Lula assumiu. Gradativamente o quadro foi mudando, apaziguando mortes e assentando um grande número de famílias. No golpe, o quadro inverteu novamente, onde o clima de crise democrática fez com que houvesse um aumento na onda de ódio contra o MST e seus integrantes.

Hoje a questão é dialogar com a sociedade, mas através da diversidade e qualidade de produtos. E não só, a Feira tem uma programação intensa com seminários e shows, inclusive com a Unidos do Tuiuti se apresentando no último dia. Um verdadeiro encontro do campo com a sociedade.

Sociedade precisa entender que reforma agrária é alimento saudável, não o contrário. Significa uma mudança radical na qualidade de vida. E entender isso é sair da crítica ideológica ao MST e entrar no real papel do movimento na vida das pessoas da cidade.

Já são 1,1 milhão de famílias assentadas. Deste total, 400 mil permanecem na base do MST em 1.226 municípios. O movimento calcula que hoje já são 8 milhões de hectares de terra com produção de alimento saudável em, mais ou menos, 1% do território nacional.

Quando instados a responder sobre a possibilidade de apoiar candidatos para formação de uma bancada da reforma agrária, os dirigentes João Paulo Rodrigues e Débora Nunes são taxativos: eles não representam nenhum partido político, não são base de nenhum partido político, são um movimento social e, como tal, lutam por melhores condições, contra a reforma trabalhista e a reforma da previdência. São a favor de oportunidades para todos, mas não são partido político. Se ligam ideologicamente a alguns partidos, mas não são quadros partidários.

Na programação do evento, shows de artistas como Martinho da Vila, Otto e Ana Cañas, e seminários sobre a agroecologia e o genocídio negro. No sábado é esperada a vista de pré-candidatos à Presidência da República, como Manuela D’Ávila (PCdoB), Guilherme Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT).

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