Criador da milícia “Liga da Justiça” sai da cadeia e vai tentar fazer da filha deputada estadual

Carro em Campo Grande com adesivo do Batman, símbolo usado pela milícia Liga da Justiça, e nome do ex-policial Natalino José Guimarães, irmão de Jerominho. Crédito: Ricardo Moraes/Folhapress.

Sérgio Ramalho, via The Intercept Brasil em 3/5/2018

Patriarca e fundador do clã Liga da Justiça – o mais influente e perigoso grupo paramilitar em atividade na Zona Oeste do Rio –, o ex-vereador Jerônimo Guimarães Filho deve deixar sua cela no Complexo Penitenciário de Gericinó nos próximos dias. Jerominho, como é conhecido, irá articular a candidatura da filha, Carmen Glória Guinâncio Guimarães, a Carminha Jerominho, a deputada estadual no Rio de Janeiro. Condenado a dez anos e seis meses de prisão, em decisão confirmada pela 2ª instância do Tribunal de Justiça, em 2009, Jerominho teve o término da pena declarado no mês passado e pode voltar às ruas a qualquer momento.

Aos 69 anos, o ex-policial civil, eleito vereador pela primeira vez em 2000, é citado em relatório da Subsecretaria de Inteligência, órgão da Secretaria de Segurança Pública do estado, como principal articulador da milícia que, hoje, está rachada. Disputas internas, sobretudo pela ambição de antigos aliados, fizeram com que subordinados na rígida cadeia de comando do grupo passassem a desrespeitar a hierarquia após Jerominho e seu irmão, o também ex-policial civil e ex-deputado estadual Natalino José Guimarães, terem sido presos na esteira das investigações da CPI das Milícias. A vereadora Marielle Franco trabalhou na Comissão. As milícias são a principal linha de investigação do assassinato dela e de seu motorista, Anderson Gomes.

Apesar do relatório de Inteligência apontar como grande a probabilidade de Jerominho retomar e unificar o comando da Liga da Justiça, não há como evitar sua saída da cadeia. Situação semelhante a que levou de volta às ruas da Gardênia Azul, em Jacarepaguá, o ex-sargento do Corpo de Bombeiros e também ex-vereador, Cristiano Girão Matias, beneficiado por decisão da primeira turma do Supremo Tribunal Federal, em junho passado, contrariando alerta da Subsecretaria de Inteligência:

“O preso Cristiano Girão Matias foi transferido em 2013 para a Penitenciária Federal de Porto Velho (RO), em virtude da periculosidade, decorrente do fato de ser um dos principais líderes da organização criminosa Milícia da Gardênia”, descrevia um trecho do documento que foi ignorado.

De volta às ruas, Girão circulou por gabinetes da Câmara Municipal de Vereadores uma semana antes das execuções da vereadora Marielle e Anderson. O ex-vereador não foi o único paramilitar a flanar pelos corredores do Palácio Pedro Ernesto, na Cinelândia, região central da cidade. Horas antes do crime, um ex-PM também citado no relatório final da CPI da Milícias esteve no gabinete do vereador e policial militar Zico Bacana (PHS). As duas histórias foram antecipadas com exclusividade pelo The Intercept Brasil.

Ao assumir o papel de cabo eleitoral da filha, Jerominho pretende mostrar que ainda dá as cartas no cenário político da Zona Oeste, sobretudo nos bairros de Campo Grande e Santa Cruz, dois dos maiores colégios eleitorais da região. Foi em Santa Cruz que as forças policiais do Rio protagonizaram o vexame de prender 159 pessoas acusadas genericamente de fazerem parte de milícias – 139 foram soltas.

Jerominho em audiência de setembro de 2017.

Carminha Jerominho vem anunciando que é pré-candidata pelo Avante, antigo PTdoB, a uma vaga de deputada estadual. O partido é o mesmo do vereador Chiquinho Brazão, irmão do ex-deputado estadual e ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Domingos Brazão, preso na operação da Polícia Federal Quinto do Ouro. Ele também teve o gabinete visitado pelo ex-vereador Girão. Na ocasião, Chiquinho negou ter encontrado o miliciano em seu gabinete: “Pode pegar as imagens, no dia 7 de março, não fui ao meu gabinete”. O vereador, contudo, não nega que o miliciano tenha ido à sala enquanto ele estava fora: “Meu gabinete é público, qualquer cidadão pode ir entrar”.

Carminha Jerominho ganhou notoriedade em 2008, quando concorreu a uma vaga na Câmara Municipal pelo PTdoB. Mesmo presa, ela conseguiu obter 22 mil votos. Em junho do ano seguinte, teve o mandato cassado por arrecadação ilegal de recursos. Entretanto, em julho de 2011, o TSE anulou a decisão, e por decisão do TRE/RJ, Carminha voltou ao cargo. Ela tentou a reeleição, e perdeu. Ao lançar a filha, Jerominho tenta reconquistar a influência da família, que em 2006 elegeu a deputado estadual seu irmão, Natalino Guimarães, com pouco mais de 49 mil votos pelo antigo PFL.

Em 2016, Carminha chegou a divulgar em suas redes sociais um vídeo onde pedia votos para o então senador Marcelo Crivella. O bispo licenciado da igreja fundada pelo tio, Edir Macedo, teve votação expressiva, ficando com mais de 70% dos votos nas zonas eleitorais sob influência de milicianos. No primeiro ano de governo, a prefeitura desmontou a estrutura criada pelo governo anterior para fiscalizar a circulação de transporte alternativo na Zona Oeste. A cobrança de taxas a motoristas de vans e kombis são a principal fonte de renda dos grupos paramilitares.

A política foi criticada publicamente pelo ex-coordenador de fiscalização, o delegado Claudio Ferraz, que deixou o cargo na prefeitura em março. Ferraz foi um dos principais responsáveis pelas investigações contra milícias quando esteve à frente da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas, a Draco.

Ao que tudo indica, o morcego, símbolo da Liga da Justiça, vai voltar a brilhar nos céus da sofrida e abandonada Zona Oeste.

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