Vladimir Safatle: “Não vai haver eleição no Brasil em 2018”.

Via RFI em 27/4/2018

Segundo Vladimir Safatle, professor da USP e colunista do jornal Folha de S.Paulo, a palavra que define politicamente o Brasil neste ano de eleições é desagregação. “O Brasil é um país em desagregação, sua experiência de constituição de uma democracia liberal minimamente sustentável foi um fracasso, eu diria que o pacto que produziu uma nova República mostrou completamente o seu esgotamento”, analisa.

“O que nós vivemos agora é um momento de degradação institucional, dos atores políticos e de brutalização dos conflitos sociais, que tende, a meu ver, a piorar”, acrescenta. Durante seu giro internacional, Safatle afirma que nota que a percepção geral das pessoas sobre o Brasil é de “espanto”.

“É sempre bom lembrar que há cinco, seis anos atrás, o Brasil era considerado a bola da vez, era visto como uma potência emergente. As análises do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) diziam que em 2018 o Brasil seria a quinta economia do mundo”, destaca.

“De repente, este cenário se desagregou de maneira muito rápida. Todo mundo [fora do Brasil] se pergunta o que de fato aconteceu. Não era uma análise só do governo brasileiro, era uma análise partilhada por todos, de que a economia e o processo democrático brasileiros eram sólidos, e tudo isso se mostrou completamente ilusório”, diz o filósofo.

“Isso coloca uma questão para mim muito interessante, qual o nível de autoengano, de auto-ilusão que o Brasil precisa para dar conta de enxergar o mais concreto da sua realidade, a sua própria fragilidade”, afirma.

Golpe militar no Brasil
Vladimir Safatle acredita concretamente na possibilidade de um golpe militar no Brasil. “Sem sombra de dúvida, eu não teria a menor dúvida a esse respeito. Eu diria até um golpe militar mesmo clássico”, avalia.

“Uma coisa é certa, as Forças Armadas saíram completamente de seu esquadro normal dentro de uma democracia liberal e se tornaram um ator fundamental da política brasileira”, diz Safatle.

“Você tem duas possibilidades: a primeira é que o Brasil se transforme numa espécie de Turquia soft, um país onde você tem um poder moderador que é o Exército. O jogo democrático é uma pantomima, as Forças Armadas definem os limites. E se o conflito social no Brasil entrar numa dinâmica muito mais dura, é possível um golpe militar no senso tradicional do termo”, arrisca.

“O poder judiciário no Brasil é monárquico, é o único que opera sem nenhum tipo de intervenção da população, ninguém te escolha”, diz o filósofo. “A partir do momento em que advogados de defesa do Lula foram grampeados pela Justiça, uma coisa absolutamente impensável, o Estado não pode grampear advogados, a partir do momento que as conversas dele com a presidente da República foram grampeadas e divulgadas no mesmo dia, horas depois, em cadeia nacional, o processo se transformou num processo simplesmente político”, afirma.

Bolsonaro é “candidato feito para não ganhar eleição”
Não haverá eleições em 2018, segundo Safatle. “Existem várias maneiras de não haver eleição. O Brasil teve eleição até 1930, sem eleição. A gente criou essa figura: eleição sem eleição. […] Uma eleição no interior da qual você tira os candidatos que vão contra o interesse de quem ‘deve’ ganhar”, analisa.

“Bolsonaro é como a Marine Le Pen na França, é um candidato feito para nunca ganhar”, analisa o filósofo. “A função dele não é ganhar. A função dele é outra. A função dele é jogar a pauta do debate à direita e, segundo, é criar uma situação na qual qualquer um que for com ele para o segundo turno, ganha”, diz Safatle.

“Como no caso do Macron na França, alguém que não tinha base política nenhuma, passa para o segundo turno com uma anticandidata [Marine Le Pen, e ele ganha”, conclui.

Uma resposta to “Vladimir Safatle: “Não vai haver eleição no Brasil em 2018”.”

  1. COPACABANA EM FOCO Says:

    Realmente, não estamos longe dos militares tomarem o Poder. Até porque quem consegue notar que a maioria que pede a Intervenção Militar alguns com características física, comportamental e um dialeto próprio de meganha.

    Mas um único com consolo, se é que existe um consolo, o Brasil se tornando uma Turquia Soft, poderemos assistir alguns Desembargadores, Juízes e todos os Ministros do STF provando do seu próprio veneno que deram ao Povo Brasileiro, Lula e a Dilma, e até para própria esquerda. O Ministro Gilmar Mendes terá que adiar o seu semi-presidencialismo, ou melhor o seu Parlamentarismo, para daqui há 21 anos, até porque a milicada não vão querer nenhum Primeiro Ministro enchendo o seu saco.

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