Lava-Jato leva o país à barbárie

Tadeu Porto, via O Cafezinho em 18/4/2018

Com um bocado de atraso, consegui um tempo para escrever sobre as impressões que tive sobre a última pesquisa Ipsos-Estadão. Não consegui tirar essa pesquisa da cabeça, afinal, os números dela demonstram um Brasil surreal.

Além da polarização da sociedade que está escancarada na pesquisa, como bem ilustrou Fernando Brito, e dos resultados positivos para o presidente Lula, ilustrado aqui pelo nosso editor Miguel do Rosário, tenho ainda um destaque a mais sobre os resultados: a sentimento democrático no país foi pro espaço.

Essa questão é verificada, principalmente, pelo altíssimo índice de “continuidade” que a Lava-Jato possui. Pouquíssimas perguntas de pesquisa possuem aprovação de mais de 90%, principalmente quando trata de um assunto polarizado, como demonstra as outras perguntas.

As perguntas “após a prisão de Lula, as investigações da Lava-Jato devem continuar ou se encerrar?” e “A Lava-Jato deve investigar todos os políticos”, ficaram com 95% e 91%, respectivamente. A impressão direta e objetiva dessa pergunta é que o país inteiro quer a continuidade da operação independentemente dos erros da operação, ilustrado nas demais respostas da pesquisa.

Portanto, analisando a consulta como um todo, o cenário é tenebroso: basicamente, a população abriu mão de conceitos básicos da democracia para se poder “combater a corrupção” mesmo considerando, na pesquisa mesmo, que a própria Lava-Jato é inadequada.

Ao analisar as perguntas de continuidade da Lava-Jato com os questionamentos: “A Lava-Jato até agora não provou nada contra Lula” (47% concordam e discordam, 6% se abstém) e “A Lava-Jato faz perseguição política contra Lula” (55% concordam e 41 discordam, 4% se abstém), concluímos, por baixo, que aproximadamente 50% da população sabe dos erros lavajateiros e mesmo assim, no mínimo, 40% quer que ela continue.

Também chama a atenção da junção das perguntas “Acha que Lula é culpado ou inocente (57% culpado e 32% inocente)” e “É justo ou injusto que Lula seja preso” (50% é justo e 44% é injusto) com o alto índice de continuidade da Lava-Jato. Oras, se um terço do país acha que Lula é inocente e quase metade da população acha prisão dele é injusta, qual é a justificativa para quererem manter a operação?

Aparentemente, o povo brasileiro desacreditou da democracia e partiu para a lógica de que teremos que resolver nossos problemas a ferro e fogo, com a lógica da punição a todo custo, sem respeito ou apego algum a nossas experiências passadas, a nossa lei ou mesmo convenções sólidas de direitos, como os direitos humanos.

Ademais, o alto índice de pensamento que a Lava-Jato deve ir para todos os políticos, chega-se a conclusão que a operação praticamente sepultou a política brasileira como se fosse crime, simplesmente, ser político. E aqui faço um adendo a canalhice do Estadão de direcionar a Lava-Jato para políticos, sem uma pergunta do tipo “A Lava-Jato deveria investigar os bancos?”, por exemplo.

Fora da política, mora a barbárie, já dizia a sabedoria popular. Tempos sombrios nos esperam.

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