Raul Castro, o arquiteto da Revolução Cubana

Via AFP em 18/4/2018

Antes de ser revolucionário, Raul Castro era um menino travesso que preocupava seus pais. “Eu cuido dele”, disse seu irmão Fidel, sem antecipar que Raul seria o guardião de seu legado socialista.

Hoje, aos 86 anos, está se preparando para deixar o cargo em Cuba depois de promover mudanças históricas.

Um negociador habilidoso e um soldado implacável em relação aos inimigos, logo ficou bem claro seu papel. “Fidel é insubstituível, a menos que o substituamos todos juntos”, disse ele depois de assumir o poder interinamente, quando o irmão adoeceu.

Atuando nas sombras, ele foi fundamental para obter o apoio da União Soviética após o triunfo da revolução em 1959, graças às amizades que fez em suas viagens na juventude. Mas já tinha outros feitos. Foi ele quem pegou a arma de um sargento para libertar seus companheiros depois do ataque fracassado no quartel de Moncada em 1953.

O mais jovem dos sete irmãos Castro, Ruz, aos 4 anos de idade, pediu à sua mãe que deixasse Birán ficar com Fidel, que frequentava a escola em Santiago de Cuba (leste).

“Ele chorou, esperneou, insistiu tanto que ela teve que deixá-lo ir”, recordou o próprio líder da revolução cubana, como registrado em “Cem horas com Fidel”, de Ignacio Ramonet.

Foi Fidel, 5 anos mais velho, que cultivou nele o hábito de ler e estudar.

“Fundador de sonhos”
“Era uma associação política; Fidel não estreitou tal relação com nenhum outro irmão. Raul tornou-se o número dois depois da morte de outros revolucionários (que o precederam)”, explica o cientista político cubano Arturo López Levy.

Depois de derrubar Fulgencio Batista, enquanto Fidel estava encarregado das funções do governo, Raul estruturou os dois pilares institucionais da revolução: o Partido Comunista e as Forças Armadas Revolucionárias (FAR), necessários para seus planos.

Ministro histórico da Defesa, Raul comandou as FAR por 50 anos e as transformou um exército de rebeldes idealistas em um eficiente aparato militar que atingiu 300.000 soldados. Eles têm sido o pilar da economia, controlando as atividades produtivas.

“O relacionamento era de chefe e lugar-tenente. Raul Castro se torna o fundador dos sonhos de Fidel, e Raul foi o arquiteto institucional da revolução”, explica López-Levy, coautor do livro Raul Castro and the New Cuba: A Close-Up View of Change.

Mudar o que tem de mudar
Seu carismático irmão Fidel liderou um país que enfrentou uma grave crise econômica após a desintegração da União Soviética. Tudo isso em meio a um forte embargo americano.

Menos expressivo, Raul assumiu a presidência em 2008 e começou a modificar lentamente o modelo cubano. Abriu o país para investimentos estrangeiros, para empresas privadas e para a compra e venda de imóveis. Também permitiu as viagens de cubanos ao exterior.

“Comparado com o carisma de Fidel, o carisma de Raul equivale a uma garrafa de água mineral sem gás. Isso o obrigou a fazer reformas porque o sistema não era sustentável sem Fidel e sem mudanças”, acrescenta López-Levy.

No final de 2014, ele abalou o mundo ao anunciar a restauração das relações diplomáticas com Washington, rompidas por mais de meio século.

Foi anfitrião dos papas Bento 16 e Francisco, depois que Fidel recebeu João Paulo II em uma visita histórica em 1998.

Em 2016, Raul recebeu Barack Obama e ajudou a assinar a paz com as FARC da Colômbia.

Depois, anunciaria a morte de Fidel na TV.

Em 2017, ratificou um plano para continuar atualizando o modelo econômico e “mudar tudo o que precisa ser mudado”, lema que o próprio Fidel, definiu como conceito de “revolução”.

Com a chegada de Donald Trump e a restituição da difícil relação com os Estados Unidos, Raul se entrincheirou no Partido Comunista, que para ele é o apoio de suas batalhas.

Divertido e implacável
Raul, um homem de família, foi casado por 48 anos com Vilma Espín, sua companheira de armas que morreu em 2007. Ele tem três filhas, incluindo a deputada Mariela Castro, e um homem, o influente coronel Alejandro Castro, nove netos e uma bisneta.

Pode alternar o uniforme, o terno e a tradicional camisa guayabera e desfrutar da lealdade absoluta do corpo militar e dos antigos revolucionários.

O ex-agente Nicolai Leonov, seu amigo e contato na Rússia, lembra-se dele como um amante de caminhadas e um homem brincalhão.

Mas também são atribuídas a ele as ordens de execução dos Batista. “Não podia comparecer ante o inimigo como um homem com uma alma caridosa”, disse Raul em entrevista ao jornal mexicano Sol, em 1993.

Ele esteva por trás do julgamento de 1989 que levou Arnaldo Ochoa, junto com outros três policiais, ao paredão de fuzilamento por tráfico de drogas.

Embora tenha libertado dezenas de opositores através da mediação da Igreja Católica, sob seu mandato foram realizados prisões temporárias e o julgamento de dissidentes por crimes comuns.

Precavido, mandou criar o local onde será enterrado: um nicho de pedra próximo a Santiago de Cuba, ao lado dos restos mortais de sua esposa.

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