José Luiz Fiori: “A direita e os seus juízes transformaram Lula num mito”.

Fernando Brito, via Tijolaço em 16/4/2018

No excelente site Tutaméia, de Rodolfo e Eleonora de Lucena, durante dez anos diretora-executiva da Folha, publica-se uma entrevista cuja leitura é indispensável.

O cientista político José Luiz Fiori, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, analisa com extrema lucidez, totalmente fora do “pragmatismo” do “perde-ganha eleitoral” a situação de Lula, da esquerda e a do pais:

O ex-presidente Lula já não é mais apenas uma candidatura. Ele é uma causa e é a grande causa que unirá daqui para frente as forças progressistas do Brasil e da América do Sul. Não adianta pensar, no momento, em candidaturas “alternativas” que não vão ganhar ou simplesmente não vão governar nesse quadro que aí está. Ou se muda esse quadro e se junta um conjunto de forças poderosas, ou não haverá governo progressista viável de nenhum tipo, seja quem for o indivíduo ou candidato. A menos que as forças progressistas queiram repetir a candidatura simbólica do dr. Ulysses Guimarães em 1974.
É bom que as pessoas entendam que essa crise aberta pelo golpe de Estado e essa divisão da sociedade brasileira – promovida ativamente pela imprensa conservadora – devem continuar ainda por muito tempo e exigirão uma enorme paciência estratégica. Não adianta achar que vai se virar a mesa na próxima meia hora.

Ainda assim, Fiori crê que a camada político-judicial que ocupa a ribalta da política do Brasil vai perder importância, talvez porque em lugar dela venham ou a força repressiva ou a representação direta do capital financeiro. Ou ambas.

Tutaméia – Qual será o futuro político das pessoas que o julgaram e encarceraram?
José Luis Fiori – O mais provável é que venham a ter o mesmo destino de todos os “savonarolas” que já existiram através da história. Apesar de que, no caso brasileiro, essas pessoas não têm o menor fôlego pessoal e intelectual para se transformarem em lideranças carismáticas. São figuras menores, já cumpriram o papel que lhes foi encomendado e devem voltar para o anonimato de onde vieram.

Tutaméia – E qual o impacto mais geral sobre a sociedade brasileira?
José Luis Fiori – Essa grande encenação –e, sobretudo, esse final patrocinado pelo STF – consolidou uma divisão e uma polarização da sociedade brasileira que que deverá durar por muitos e muitos anos. Vai ser muito difícil de reverter isso. Também vai ser muito difícil sair desse buraco imediato, porque o Estado, as autoridades públicas e a sociedade brasileira aparecem divididos de cima abaixo. Os golpistas estão completamente divididos. O Congresso está quase rachado e desmoralizado. O STF está partido ao meio, perdeu a sua aura de neutralidade e sua credibilidade foi rebaixada por suas brigas internas e por suas sessões infindáveis, marcadas pelo exibicionismo dos seus juízes com seu palavreado gongórico e quase sempre inócuo.

É também importantíssima a conexão que Fiori faz entre a rápida corrosão da aliança golpista e as mudanças no cenário mundial provocadas a partir da eleição de Donald Trump. Ele suspeita que essa inesperada mudança no centro do mundo tenha influenciado “na perda completa de rumo dos seus líderes tucanos, incluindo a desmontagem moral do seu candidato presidencial”.

Qualquer resumo que faça aqui, porém, será pobre perto do conjunto de argumentos que a entrevista levanta. Vale muito, inestimavelmente, cada minuto de sua leitura, aqui.

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