Anistia Internacional repudia declaração do general Villas Boas: “Grave ameaça à democracia”.

O comandante do Exército, general Eduardo Dias da Costa Villas Boas. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil.

Via Sul21 em 4/4/2018

A ONG Anistia Internacional emitiu na quarta-feira, dia 4/4, uma manifestação de repúdio às declarações do comandante do Exército brasileiro, general Villas Boas, feitas na noite de terça-feira, dia 3/4, em seu perfil do Twitter, afirmando que os militares compartilham “do anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade”, compreendida como uma mensagem ao Supremo Tribunal Federal, que julga hoje o habeas corpus do ex-presidente Lula. Para a Anistia Internacional, as declarações do general configuram uma “grave afronta à independência dos poderes” e uma “ameaça ao Estado Democrático de Direito”, sinalizando um desvio de papel das Forças Armadas no Brasil.

Em sua nota, a ONG destaca que tem visto com preocupação o avanço do militarismo no Brasil, através das operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e da intervenção federal no Rio de Janeiro, além das declarações do comando do Exército, feitas pelo próprio Villas Boas, de que os militares precisam de garantias para atuarem na segurança público sem serem julgados em tribunais civis por ilegalidades ou abusos que eventualmente vierem a cometer.

“Cabe lembrar ainda que a impunidade dos graves crimes e violações de direitos cometidos pelas forças armadas é uma das feridas abertas na histórias recente brasileira. O Brasil nunca julgou ou responsabilizou os militares e agentes do estado que cometeram execuções, desaparecimentos forçados, tortura, estupros, e todo tipo de violações durante o regime militar. A impunidade dos crimes cometidos pelos militares e agentes do estado no passado alimenta e estimula a violência dos agentes do estado e militares no presente”, diz a nota.

A Anistia Internacional encerra a nota se posicionando contra o militarismo e a favor do estado democrático de direito. Confira a seguir a íntegra da nota.

DECLARAÇÕES DO COMANDANTE DO EXÉRCITO GENERAL VILLAS BOAS SÃO UMA GRAVE AMEAÇA AO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
Na véspera de julgamento do habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Supremo Tribunal Federal, Comandante do Exército general Villas Boas faz declaração nas redes sociais que repudia “a impunidade”.

A Anistia Internacional vem a público manifestar seu repúdio às declarações do Comandante do Exército general Villas Boas. As declarações do general são uma grave afronta à independência dos poderes, ao devido processo legal, uma ameaça ao Estado Democrático de Direito e sinalizam um desvio do papel das Forças Armadas no Brasil.

A Anistia Internacional já havia manifestado sua preocupação com o crescente uso das Forças Armadas como política de segurança pública. O avanço do militarismo através das operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e, mais recentemente, com a intervenção federal no Rio de Janeiro são uma ameaça crescente ao estado democrático de direito.

Esse contexto foi agravado diante de declarações das Forças Armadas de que precisavam de garantias legais para atuarem em ações de segurança pública sem que fossem julgados em tribunais civis por ilegalidades ou abusos cometidos. Ainda, a aprovação e sanção da Lei 13.491/2017, que entrou em vigor dia 16 de outubro de 2017, transferiu para a justiça militar o julgamento de crimes cometidos por militares contra civis em operações de GLO. Esse foi já um passo assegurado pelos militares para garantir impunidade por crimes que possivelmente já tinham a intenção de cometer.

Não obstante a aprovação da Lei 13.491/2017, o general Villas Boas afirmou ainda que os militares precisavam de garantias de que não haveria uma nova “comissão da verdade” no futuro. Tal afirmação revela novamente a predisposição das Forças Armadas a alimentar o ciclo de impunidade, já que possíveis graves violações de direitos humanos ficariam sem julgamento.

Cabe lembrar ainda que a impunidade dos graves crimes e violações de direitos cometidos pelas forças armadas é uma das feridas abertas na histórias recente brasileira. O Brasil nunca julgou ou responsabilizou os militares e agentes do estado que cometeram execuções, desaparecimentos forçados, tortura, estupros, e todo tipo de violações durante o regime militar.

A impunidade dos crimes cometidos pelos militares e agentes do estado no passado alimenta e estimula a violência dos agentes do estado e militares no presente.

Este é um momento crucial na história do país. A Anistia Internacional se posiciona fortemente contra o militarismo, contra o desvio de função das Forças Armadas e abuso do uso da força, contra a impunidade das graves violações cometidas pelos agentes do estado. A sociedade brasileira precisa se posicionar a favor do estado democrático de direito, do devido processo legal e da garantia dos direitos humanos.

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