Cargos, prêmios, promoção e viagens: Como a CIA e fundações “compraram” setores da esquerda

Progresso norte-americano, de John Gast, 1872, Wikipédia.

Luiz Carlos Azenha, via Viomundo em 1º/4/2018

Em nosso primeiro texto sobre o poder das grandes fundações filantrópicas do mundo, nos perguntamos: a quem servem?

Respondemos: inicialmente, aos próprios bilionários, que em troca de isenções fiscais montam um poder político paralelo que, ainda que indiretamente, vai beneficiá-los e a seus descendentes no futuro.

Mas, obviamente, não é apenas isso que move os herdeiros dos Rockefeller, de Henry Ford ou o megainvestidor George Soros.

Trata-se de naturalizar a hegemonia dos Estados Unidos, como se não houvesse imperialismo, mas apenas a expressão de um Destino Manifesto, cumprimento de um desejo divino de civilizar primeiro o Oeste dos Estados Unidos, depois as Américas, o Pacífico, a Europa, e agora todo o planeta.

Entrevistamos a professora Joan Roelofs, autora de Fundações e Política Pública, que opinou sobre o motivo pelo qual praticamente inexiste debate público sobre o assunto: “Elas não gostam de críticas públicas e tem poder suficiente para marginalizá-las. Eu fui chamada de teórica da conspiração por tentar jogar luz nas fundações. A maioria dos acadêmicos e repórteres evita morder a mão que os alimenta”.

Nos Estados Unidos, as fundações estão por toda a parte: financiam universidades, think tanks, publicações, institutos, seminários, conferências temáticas, organizações da sociedade civil e, crescentemente, as novas mídias. Fazem isso em larga escala, e a partir de lá espalham sua influência em todo o planeta.

Para a professora, os Estados Unidos se afastaram da democracia ao abraçar um modelo em que as políticas públicas são definidas a partir de um jogo entre grupos de pressão, todos eles financiados pelas fundações e sempre dentro de parâmetros que não coloquem em risco os interesses do establishment que financia o jogo… através das fundações.

Por sugestão da própria professora Roelofs, hoje nos debruçamos sobre um período específico da História em que as fundações se misturaram como nunca ao poder político dos Estados Unidos, de tal forma que era impossível determinar onde começava um e terminava o outro: a Guerra Fria, o confronto entre EUA e União Soviética que foi do final da Segunda Guerra Mundial até 1989, quando o muro de Berlim veio abaixo (ou 1991, quando a União Soviética foi dissolvida).

Para isso, apresentamos uma resenha do livro The Cultural Cold War, de Frances Stonor Saunders, que será a base para nossas futuras entrevistas.

OSS e CIA
O Escritório de Serviços Estratégicos (OSS) antecedeu a Central de Inteligência Americana (CIA), criada logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1947.

Ambos foram produtos, eminentemente, da elite da costa Leste dos Estados Unidos, tendo como grande articulador o diplomata e acadêmico George Kennan.

Kennan introduziu conceitos fundamentais do período, como o da contenção da URSS, mesmo que através da “mentira necessária”.

Tratava-se, na verdade, de uma nova escalada do imperialismo, aproveitando o vazio deixado pela Grã-Bretanha no cenário internacional, desta vez disputando espaço em todos os continentes com o poder soviético.

Do ponto-de-vista dos países não alinhados, que mais tarde teriam sua própria organização, era uma disputa que escondia o imperialismo de ambos, em suas respectivas áreas de influência.

Kennan foi o formulador do Plano Marshall, que bombou a economia dos Estados Unidos com a reconstrução da Europa Ocidental. É considerado um dos pais da CIA.

A CIA tinha algo em comum com fundações como a Ford e a Rockefeller: uma formação elitista, que pregava um Executivo forte, capaz de driblar a soberania popular expressa no Congresso.

A tradição liberal dos Estados Unidos, afinal, sempre foi calcada no desprezo pelas “massas”, que deveriam ser guiadas pela elite “instruída”.

Foi no contexto da Guerra Fria que o Conselho de Segurança Nacional dos EUA, recém-criado, formulou seus objetivos, a serem alcançados por ações clandestinas da CIA: “propaganda, guerra econômica, ação direta preventiva, inclusive sabotagem, anti-sabotagem, demolição e medidas de retirada; subversão contra estados hostis, inclusive assistência clandestina para movimentos de resistência, guerrilhas e grupos de libertação formados por refugiados”.

A esquerda na qual se pode confiar
Para efeito de propaganda, a CIA abraçou o conceito de promover a esquerda não comunista (NCL), que havia sido formulado pelo Departamento de Estado e intelectuais ligados à inteligência.

Foi a fundação teórica sobre a qual se deram as operações da CIA contra o comunismo nas décadas seguintes.

Essa esquerda não comunista era, obviamente, carente de recursos. Seus escritos eram poucos e não tinham alcance.

Foi assim que surgiu o Congresso da Liberdade Cultural, com bases em Berlim, Paris, Londres e Nova Iorque, financiado fartamente com dinheiro da CIA através da Fundação Fairfield – mera fachada – e também das Fundações Ford e Rockefeller, neste caso em programas específicos.

O Congresso foi o responsável pela criação ou financiamento de dezenas de periódicos em todo o mundo, muitos dos quais se tornaram veículos para a expressão também da esquerda não comunista.

O conteúdo impresso não era controlado minuciosamente pela CIA, incluía críticas aos Estados Unidos, mas tinha como objetivo central naturalizar o novo papel de Washington no cenário internacional, desfazendo a ideia corrente na Europa de que os EUA eram eminentemente provincianos.

A principal publicação era a revista Encounter, mas dezenas de outros periódicos receberam ajuda em dinheiro ou circulação: um determinado número de cópias era comprado e em seguida disseminado nas regiões que se pretendia atingir.

Na América Latina, a publicação ligada à CIA era chamada Cuadernos.

Também foram financiados clandestinamente institutos como o Comitê Nacional para a Europa Livre, o Comitê Internacional para Refugiados em Nova Iorque e muitos outros.

Para isso, a CIA usou mais de 170 fachadas, inclusive pessoas físicas que concordavam em posar de doadores.

A ideia era demonstrar o caráter plural dos Estados Unidos, mas com uma esquerda que não colocasse em risco os interesses essenciais de Washington.

Relações carnais
À época, dentre os cargos mais cobiçados na elite branca, anglo saxã e protestante dos Estados Unidos estavam os da administração das fortunas das Fundações Ford ou Rockefeller, ambas “conscientemente instrumentos de operações clandestinas da política externa dos Estados Unidos, com diretores e agentes que eram intimamente conectados, ou eles próprios integrantes dos serviços de inteligência”.

Em 1952, por exemplo, 500 mil dólares da Fundação Ford foram usados para criar a revista Perspectivas, que tinha como alvo a esquerda não comunista da França, Inglaterra, Itália e Alemanha.

“O objetivo não era o de derrotar os intelectuais de esquerda no combate dialético, mas distanciá-los de suas posições através de persuasão estética e racional”.

A ligação-chave entre o Congresso da Liberdade Cultural e a Fundação Ford foi Shepard Stone. Antes da guerra, havia sido editor do New York Times.

Na guerra, serviu na inteligência militar. Nos anos 50, foi indicado para ocupar o Comitê de Psicologia Estratégica da CIA, mas em vez disso se tornou diretor de assuntos internacionais da Fundação Ford.

A ligação dos Rockefeller com o poder dos Estados Unidos era ainda mais íntima.

Dois presidentes da Fundação Rockefeller, John Foster Dulles e Dean Rusk, deixaram seus cargos para se tornar secretários de Estado.

Nelson Rockefeller tinha sido o encarregado de inteligência da América Latina durante a Segunda Guerra, com atuação no Brasil.

Mais tarde, tornou-se integrante do Conselho de Segurança Nacional, ao mesmo tempo em que seu velho amigo Allen Dulles dirigia a CIA.

A Fundação Rockefeller financiou experimentos controversos da CIA, como o de controle mental que pretendia promover líderes manipulados pela inteligência dos EUA.

O parceiro de Nelson Rockefeller no Brasil, o coronel JC King, tornou-se o chefe de operações clandestinas da CIA para o Hemisfério ocidental.

Porta-voz da esquerda
Um dos casos mais simbólicos do poder de “convencimento” da CIA foi o que envolveu a revista Partisan Review, que havia sido lançada nos anos 30 pelo Partido Comunista dos Estados Unidos.

Para evitar que a publicação morresse nos anos 50 e 60, quando já havia se distanciado de Moscou, a CIA promoveu o financiamento indireto da revista.

Isso foi feito inclusive através de Henry Luce, dono do império construído em torno da revista Time-Life, tido como “o mais influente cidadão” de sua época, financiador da criação da Rede Globo no Brasil nos anos 60.

Luce, ferrenho anticomunista, foi aquele que publicou 50 fotografias de norte-americanos tido como simpáticos à União Soviética como forma de assassinato de reputação, dentre os quais Norman Mailer, Leonard Bernstein, Arthur Miller, Albert Einstein, Charlie Chaplin e Frank Lloyd Wright – isso antes da caça às bruxas promovida pelo macartismo.

Foi, aliás, durante o macartismo, que a CIA justificou plenamente o financiamento clandestino da esquerda não comunista: caso fizesse isso de forma transparente, provocaria um escândalo – Joseph McCarthy, o senador de Wisconsin, no meio-oeste, era desprezado pela elite da inteligência como um provinciano “populista”.

Além de sustentar dezenas de publicações, as fachadas da CIA promoviam a publicação de livros, festivais de música, seminários e concursos literários.

Nas artes plásticas, turbinaram vigorosamente o Expressionismo Abstrato de Jackson Pollock, em aliança com o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o Moma.

Em Hollywood, a guerra cultural da CIA contou com a complacência da grande maioria dos estúdios, que se dispuseram a modificar roteiros para, por exemplo, eliminar traços da “decadência” dos Estados Unidos.

O agente clandestino da CIA encarregado disso relatava a superiores que “fui bem-sucedido em retirar bêbados, em papéis de destaque, se não os principais, dos seguintes filmes”…

Foi a CIA quem financiou e distribuiu em todo o mundo as versões cinematográficas de Animal Farm e 1984, de George Orwell, devidamente deturpadas para cumprir seu papel na propaganda.

O crítico Issac Deutscher, aliás, acusou Orwell de ter copiado a ideia, a trama, os principais personagens, os símbolos e até o clima de 1984 do romance Nós, do russo Yevgeny Zamyatin, publicado em 1924.

Orwell mantinha cadernos onde anotava os nomes de simpatizantes comunistas, um dos quais, com 35 nomes, repassou ao departamento do Foreign Office britânico encarregado de propaganda, especialmente no meio sindical.

Um dos dedurados por Orwell, ironicamente, foi o ator Michael Redgrave, pai de Vanessa, que atuou na versão britânica de 1984 filmada em 1956.

Nato cultural
Por trás do combate à propaganda soviética estava, obviamente, a tentativa de subordinar a Europa numa aliança que no campo militar se assentava na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Esta tarefa encontrava resistência nas principais capitais europeias, especialmente Paris e Londres.

No Reino Unido, a CIA trabalhou fortemente, através de suas fachadas, para apoiar um grupo tido como revisionista do Partido Trabalhista, que advogava pela abolição da cláusula 4 do estatuto do partido, que prometia nacionalizar bens públicos.

A cláusula contrariava a Aliança Atlântica e, àquela altura, o objetivo de criar um Mercado Comum, que exigiria “o sacrifício de certos direitos nacionais em favor da segurança coletiva”.

Os Estados Unidos já anteviam uma Europa recuperada da destruição da guerra como um mercado gigantesco para suas empresas e produtos – o que era incompatível com a ênfase em interesses nacionais.

Ao mesmo tempo em que trabalhava para disseminar as ideias de alguns intelectuais, as fachadas da CIA atuavam contra outros, notadamente o francês Jean Paul Sartre.

A CIA foi responsável por uma campanha de difamação clandestina para evitar que o poeta comunista chileno Pablo Neruda ganhasse o Prêmio Nobel de Literatura em 1964, mas não deu muito certo porque o vencedor foi… Sartre.

Neruda ganhou mais adiante, em 1971.

Ainda hoje há grande controvérsia sobre se os beneficiários sabiam, direta ou indiretamente, da origem do dinheiro que permitia viagens internacionais, hospedagem em hotéis de luxo, publicação e promoção de livros e outras vantagens, até então fora do alcance dos intelectuais.

As teias tecidas pela CIA enredaram de Gunter Grass a Hannah Arendt, de Jorge Luís Borges a W.H.Auden, de Carlos Fuentes a Wole Soyinka, tratados como peças de uma engrenagem que, em nome de combater a propaganda soviética, trabalhava pela expansão dos próprios interesses imperiais dos Estados Unidos.

A arquitetura veio abaixo somente nos anos 70, depois das denúncias na revista mensal da “nova esquerda” Ramparts, da Califórnia, que logo ocuparam as páginas de publicações nacionais.

A autora de The Cultural Cold War especula que, nos estertores do esquema, a própria CIA decidiu detoná-lo, pois já não fazia sentido financiar a esquerda não comunista quando ela atacava objetivos estratégicos dos Estados Unidos, agora materializados na guerra do Vietnã.

A própria guerra do Vietnã, estima Sanders, foi a extensão natural da campanha da inteligência-americana na Guerra Fria, que tendo como cobertura o enfrentamento da propaganda soviética trabalhou pelo expansionismo dos Estados Unidos.

Conclui-se que houve um sofisticado pensamento estratégico de Washington, que há mais de 60 anos decidiu investir muito dinheiro na domesticação da esquerda internacional, através de cargos, prêmios, promoção e viagens.

Por que haveria de ser diferente, hoje?

Uma resposta to “Cargos, prêmios, promoção e viagens: Como a CIA e fundações “compraram” setores da esquerda”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    tudo isso sempre existiu, os grasndes comendo os pequenos, eles sempre irão qierer dinamitar os fracos e oprimidos,n adianta o Papa pedir pelo mundo, o mundo tem q se livrar d qq maneira destes abutres e sem moral nenhuma. ________________________________________

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